Ao longo de quatro décadas, a Ginga Cia de Dança construiu uma trajetória marcada por experimentação artística, reconhecimento em festivais, formação de artistas e criação de espetáculos que dialogam com questões sociais e culturais. Fundada em 1986, em Campo Grande (MS), pelo coreógrafo Chico Neller, a companhia iniciou sua história vinculada à dançar jazz e ao circuito competitivo de festivais, evoluindo posteriormente para a pesquisa em dança contemporânea e a criação de obras autorais.
Além de sua produção artística, a companhia também se consolidou como um importante espaço de formação. Ao longo de 40 anos, mais de uma centena de bailarinos passaram pela Ginga Cia de Dança, participando de processos criativos, espetáculos e projetos formativos que contribuíram para o desenvolvimento da dança contemporânea em Mato Grosso do Sul.
Do começo ao atual
Paulo Oliveira, um dos atuais bailarinos da Cia, relembra que começou sua trajetória no grupo em 2004, com o Projeto Dançar, uma iniciativa em parceria com a Prefeitura que oferecia aulas gratuitas para crianças de escolas públicas. “Foi ali que tive meu primeiro contato com a dança e com uma perspectiva de mundo que ampliou completamente meus horizontes. A Ginga não foi só um espaço de formação artística, mas também de formação humana”, afirma.
Para o dançarino, integrar a história da Ginfa, justamente no ano em que a companhia completa 40 anos, é um ato muito simbólico. “A Ginga atravessa a minha vida desde a infância, quando comecei a dançar através do Projeto Dançar, em 2004. Fui bailarino, professor e hoje sigo construindo minha trajetória dentro dessa história. Estar na cia nesse momento é sentir que também faço parte dessa continuidade, de uma memória coletiva construída por muitas pessoas que vieram antes e ajudaram a fortalecer a dança em MS”, disse em entrevista ao Jornal O Estado.
Atualmente jornalista, Luciene Mamoré, já fez parte da história da Ginga. Para a reportagem, ela relembra que foi convidada por Chico, com apenas 15 anos a integrar a companhia, para atuar ao lado das primas, que também faziam parte da Ginga.
“Fiquei por 5 ou 6 anos no Ginga num tempo da explosão do jazz e nossa dedicação era total. Foram 2 anos de apresentações locais até que em 1989 fomos ao festival de Joinville e logo de cara fomos premiado a e tivemos muito reconhecimento. Chamamos atenção da imprensa e foi uma receptividade muito boa”.
Em seu tempo de companhia, ela integrou noites de Gala, participou do espetáculo ‘Trilhas’, no Memorial da América Latina e dançou no Teatro Municipal de São Paulo, com a montagem ‘Por Você’. Essa trajetória se tornou bagagem para ela, que carrega as lembranças e experiências até hoje.
“Naquele tempo todas as coreografias eram muito viscerais e trabalhávamos a exaustão para ter tudo perfeito. Deixe o Ginga em 92 qdo entrei na faculdade de jornalismo, mas sempre mantive relações de amizades com todos do grupo e, inclusive, com quem veio depois. Fomos família e somos até hoje. Minha relação com o Chico e diversos componentes do Ginga é de irmandade! Sempre seremos um pelo outro, não importa onde estaremos! Isso é uma grande fortaleza na minha vida. A dança me fez mais confiante e livre”.
“É sempre muito intenso, são trabalhos que atravessam não só o corpo mas também nossas experiências. Existe um lugar de muita responsabilidade quando lidamos com temas tão sensíveis. Ao mesmo tempo, são processos que reforçam a potência da arte como espaço de reflexão e denúncia”, reforça Paulo.
O que fica
Ao olhar para a companhia quatro décadas depois, a ex-integrante se emociona ao perceber que a essência da Ginga permanece intacta. “O que mais me emociona é ver que a verdade permanece. Não há o que desmorone algo feito com amor e verdade. Não tínhamos a dimensão do que estava sendo construído e o Chico não apenas plantou, como soube regar e manter a força da verdade desde o nascimento. O Ginga é uma declaração de amor à dança e à arte, uma dedicação acima de qualquer dificuldade”, afirma.
Ela ainda ressalta o papel fundamental de Chico Neller nessa trajetória. “O Chico merece todo o reconhecimento. Fomos e muitos ainda são, inacreditavelmente, 40 anos depois, instrumento da genialidade e, principalmente, da perseverança de Chico Neller. Nunca imaginávamos onde isso ia dar: a gente só queria dançar. Sempre declaramos: ‘Queremos ver a dança valorizada em nosso país como em nossos corações’. Emprestamos corpo, alma e muitas horas de trabalho a isso. O Ginga nunca mediu esforços e não mede até hoje, apesar de tantos reveses impostos à arte de dançar.”
Sobre o novo espetáculo, Paulo destaca que o processo ainda está em fase inicial e repleto de descobertas. “Corpo Território ainda está no início do processo, então acho que estamos em um momento de descoberta. Aos poucos, o trabalho tem despertado muitas reflexões. É interessante perceber como cada encontro e cada experimentação acabam abrindo novos caminhos para a criação”, relata.
Um pouco da história da companhia:
1986 – Fundação e primeiras coreografias
A Ginga Cia de Dança surge em Campo Grande com um repertório inicial composto por coreografias como “Passagens”, “Prisma”, “Phisma II” e “Feras”, assinadas por Chico Neller e Romano Vargas. Desde o início, a companhia demonstra interesse pela experimentação estética e pela formação de uma linguagem própria de movimento.
* Final dos anos 1980 Consolidação e reconhecimento em festivais
Nos anos seguintes, a companhia amplia seu repertório com obras como “Sistemas”, “Cúbica”, “Ginga Brasil”, “Pare e Pense”, “Por Você”, “Te Amar”, “Herança Negra” e “Influência”.
* Anos 1990 – Premiações em Joinville e reconhecimento nacional
A companhia ganha projeção nacional ao participar do Festival de Dança de Joinville, um dos maiores eventos de dança do mundo, conquistando importantes premiações nas categorias jazz e moderno.
O grupo chega a participar da Noite de Gala do Festival de Joinville, espaço reservado às coreografias premiadas e de maior destaque do evento.
* 1997 – Criação do Projeto Dançar
A companhia amplia sua atuação social com a criação do Projeto Dançar, iniciativa voltada à formação artística de crianças e jovens por meio da dança.
* 1999 – Transição para a criação de espetáculos
Em 1999 ocorre uma transformação decisiva na trajetória da companhia. A Ginga deixa o circuito competitivo de festivais e passa a dedicar-se à criação de espetáculos, aprofundando sua pesquisa em dança contemporânea.
* 2000-2004 – Consolidação da linguagem contemporânea
Nos anos seguintes surgem obras que ampliam a pesquisa coreográfica da companhia:
• “Conceição de Todos os Bugres” (2000), de Luis Arrieta
• “Corpo Latino” (2001), de Diogenes Antônio Silva
• “Um Tema para Quatro” (2002), criação de Chico Neller, Marcia Rolon, Diógenes Antônio e Arce Correa
• “Vem Dançar Comigo” (2003), de Chico Neller
• “Aqui ou em Qualquer Lugar” (2004), de Chico Neller
* 2022 – Estreia de “Silêncio Branco”
A companhia estreia “Silêncio Branco”, espetáculo que aborda o feminicídio e outras formas de violência contra a mulher, transformando em movimento o silêncio imposto às vítimas da violência de gênero.
* 2023 – Bolsa Funarte de Dança Klauss Vianna
A Ginga Cia de Dança é contemplada pela Bolsa Funarte de Dança Klauss Vianna 2023, fortalecendo a circulação nacional do espetáculo Silêncio Branco.
* 2024 – Recriação coreográfica de Vanessa Macedo
Em 2024, a companhia realiza a recriação coreográfica do espetáculo “Rompendo Silêncios”, assinada pela coreógrafa Vanessa Macedo, aprofundando a investigação artística sobre a temática da violência contra a mulher e ampliando o diálogo entre dança e questões sociais contemporâneas.
* 2025 – Circulação nacional Funarte
A Ginga leva o espetáculo Silêncio Branco para São Luís – MA, ampliando a visibilidade da produção artística de Mato Grosso do Sul.
* 2026 — 40 anos da Ginga Cia de Dança
Em 2026, a Ginga Cia de Dança celebra quatro décadas de trajetória artística, consolidando-se como uma das companhias mais longevas da dança contemporânea no Centro-Oeste brasileiro.
Como parte das comemorações de seus 40 anos, a companhia realiza a circulação estadual do espetáculo “Rompendo Silêncios”, levando a obra para diferentes cidades de Mato Grosso do Sul e ampliando o diálogo entre arte e sociedade por meio da dança.
No mesmo período, a companhia inicia também o processo de criação de seu novo trabalho, “Corpo Território”, espetáculo que investiga as relações entre corpo, identidade e pertencimento, refletindo sobre a cultura e a produção artística sul-mato-grossense. A obra marca um novo momento de pesquisa estética da Ginga, reafirmando seu compromisso com a criação contemporânea e com a valorização do território como espaço de memória e expressão.
Por Carolina Rampi
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