Dólar, mercados globais e o agro brasileiro podem sentir os efeitos do conflito no Oriente Médio
Os mercados financeiros e de commodities estão alerta após a alta nos preços do petróleo, reflexo da escalada do conflito envolvendo Estados Unidos e Irã no Oriente Médio. A tensão geopolítica provoca repercussões diretas nas cotações de energia, no valor do dólar, investidores e produtores agrícolas.
A valorização do petróleo, que já vinha sendo registrada nos últimos dias, acende sinais de risco entre os agentes econômicos, especialmente diante de possíveis interrupções no fornecimento de energia e insumos a partir de rotas estratégicas no Golfo Pérsico. O petróleo Brent chegou a negociar acima de US$ 80 por barril, impulsionado pelo receio de que as tensões afetem o transporte e a oferta de petróleo bruto, sobretudo na região do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo.
Sobre o cenário, o jornal O Estado consultou o economista, Eduardo Matos. Segundo o especialista, neste primeiro momento não há impacto estrutural imediato sobre a economia brasileira, mas os reflexos indiretos já preocupam. “Não há efeitos diretos nesse primeiro momento para a economia brasileira, a não ser, é claro, pela oscilação do preço do barril de petróleo e também a oscilação do preço do gás natural”, afirma.
Ele lembra que o Oriente Médio também é grande produtor de gás natural, insumo fundamental para a indústria. “Trata-se de uma fonte de energia que, apesar de não ser renovável, é relativamente limpa e muito importante para a economia de modo geral, principalmente pensando na indústria.”
Segundo Matos, a preocupação ganha peso adicional no contexto de estados como Mato Grosso do Sul, que vivem um processo de expansão industrial. “Mato Grosso do Sul está em um momento de crescimento da industrialização, com aumento da participação da indústria na geração de valor do Estado. A oscilação do preço do petróleo preocupa porque temos uma matriz energética bastante apoiada nesse insumo”, explica.
Uso do diesel na indústria de MS
O economista destaca que, embora a geração de energia elétrica no Brasil não dependa majoritariamente do diesel, setores-chave utilizam derivados do petróleo de forma intensa. “A indústria, o próprio agronegócio e o setor produtivo de modo geral utilizam o óleo diesel. E devemos considerar também a questão logística.”
Ele ressalta que a malha ferroviária brasileira ainda é limitada, o que amplia a dependência do transporte rodoviário. “A logística brasileira é muito apoiada nas rodovias, então o óleo diesel é o principal combustível utilizado para a realização dos transportes logísticos.”
Em um estado localizado no centro do continente, como Mato Grosso do Sul, essa dinâmica pode gerar efeitos em cadeia. “Isso pode afetar a economia como um todo e inclusive gerar impactos para o consumidor final, uma vez que a maior parte dos produtos consumidos aqui, tanto pela população quanto pelas indústrias, utiliza o óleo diesel para ser entregue”, afirma.
Segundo ele, esse movimento pode pressionar os índices de preços. “Pode causar, de certo modo, um aumento na inflação, principalmente devido à alta dos fretes logísticos.”
No agronegócio, a alta do petróleo tem efeito indireto, mas significativo. O custo dos combustíveis para máquinas agrícolas e transporte, além do preço dos fertilizantes, muitos deles derivados de gás natural e petróleo, está no radar de produtores rurais e cooperativas, que já manifestam preocupação com o aumento dos custos de produção.
Além disso, o dólar comercial tem mostrado tendência de valorização frente ao real, acompanhando o movimento global de busca por ativos considerados mais seguros em momentos de risco geopolítico. Isso eleva o custo de importação de insumos e pode pressionar margens em diversas cadeias produtivas, sobretudo aquelas que dependem de fertilizantes e maquinários importados.
Mercados agrícolas
Produtores e traders analisam o cenário global de energia para projetar impactos sobre commodities como milho, soja e trigo. Embora o mercado de grãos ainda não tenha apresentado reações extremas, a combinação de petróleo em alta e dólar mais forte pode influenciar decisões de armazenagem e comercialização nas próximas semanas. Analistas alertam que a continuidade ou intensificação do conflito no Oriente Médio pode prolongar a volatilidade internacional, afetando não apenas o setor energético, mas também a logística global de exportações e importações ligadas ao agronegócio.
Por Ana Krasnievicz e Ian Netto