Volume corresponde a 409,7 mil contratos firmados por 160,3 mil trabalhadores
O Crédito do Trabalhador já movimentou R$ 1.866.928.043,95 em Mato Grosso do Sul, segundo dados enviados pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) ao O Estado. Desde a criação da modalidade, foram registrados 409.759 empréstimos no Estado, contratados por 160.325 trabalhadores.
Embora o MTE não detalhe o perfil dos contratantes sul-mato-grossenses, levantamento da fintech Bull indica que, no país, os trabalhadores de 18 a 34 anos concentram 42,4% das operações do consignado para empregados com carteira assinada. A pesquisa mostra que esse público costuma contratar valores menores e quitar a dívida em menos tempo do que as faixas etárias mais velhas.
Segundo o estudo, trabalhadores de 18 a 24 anos contrataram, em média, R$ 1.661, cerca de metade do valor registrado entre pessoas de 45 a 54 anos, cuja média chegou a R$ 3.303. Também comprometem uma parcela menor da renda mensal, entre 23% e 27%, enquanto entre os trabalhadores acima de 45 anos esse percentual varia de 33% a 38%. Os contratos dos mais novos costumam ser quitados em aproximadamente 12 meses, contra prazos entre 18 e 24 meses para os mais velhos.
Para a educadora financeira Sabrina Mestieri, os valores e a idade dos contratantes, sozinhos, não permitem avaliar se o comportamento representa um problema financeiro. O principal ponto, segundo ela, é entender para que o dinheiro está sendo usado e se a parcela cabe no orçamento.
“Se esse crédito está sendo usado para uma emergência, para uma necessidade pontual ou até para investir na própria formação e carreira, pode fazer sentido para quem está começando a vida profissional. Mas, se está sendo usado para complementar a renda, pagar despesas básicas ou manter um padrão de consumo que o salário não comporta, aí temos um sinal de alerta”.
Sabrina destaca que a finalidade do empréstimo deve pesar mais na análise do que a idade ou o valor contratado. “Mais do que olhar para a idade ou para o valor do empréstimo, precisamos olhar a finalidade do crédito e a capacidade de pagamento”, diz
Crédito mais barato
O mestre em Economia Eugênio Pavão avalia que o consignado apresenta vantagens em relação a outras modalidades de crédito, principalmente para trabalhadores que conseguem trocar uma dívida mais cara por outra com juros menores. “Com a situação de grande endividamento das famílias brasileiras e de Mato Grosso do Sul, o crédito se torna um aliado na troca de dívidas com juros mais altos, representando um decréscimo no valor a ser pago”, afirma.
Entre os mais jovens, Pavão relaciona a procura pela modalidade ao maior contato com ferramentas digitais e serviços financeiros. A facilidade de acesso às fintechs e a necessidade de utilização da plataforma gov.br também contribuem para a entrada desse público no mercado de crédito.
O economista também chama atenção para o perfil de consumo dessa faixa etária. Gastos com tecnologia, moda e educação costumam ter peso menor no orçamento do que despesas assumidas por trabalhadores que sustentam uma família, como aluguel, alimentação, energia e vestuário. Com isso, os jovens tendem a assumir parcelas menores e comprometer uma fatia menor da renda.
Na avaliação de José Pires Neto, fundador da Bull, os dados indicam que esse público recorre ao consignado principalmente para atender necessidades imediatas, e não para reorganizar as finanças. O executivo afirma que os jovens contratam crédito em uma proporção menor do salário e por períodos mais curtos. O dinheiro pode ser usado para cobrir despesas no fim do mês ou financiar um consumo pontual.
Com juros elevados em outras modalidades de crédito, o consignado acaba sendo uma alternativa mais barata para quem precisa de recursos. Atualmente, as taxas dessa linha variam entre 3% e 4,98% ao mês, abaixo das praticadas no crédito pessoal, no rotativo do cartão e no cheque especial.
Os próprios dados da Bull mostram que 55,3% dos contratantes estão há menos de três anos no emprego atual. Entre trabalhadores de 18 a 24 anos, esse percentual chega a 87%. O levantamento aponta ainda que varejo e comércio concentram a maior parte das contratações, seguidos pela indústria e pelos serviços administrativos, com predominância de trabalhadores em funções operacionais.
Para Pires Neto, o crédito não deve ser encarado como um problema em si, mas como uma ferramenta que exige planejamento. Quando utilizado para substituir uma dívida mais cara ou para um objetivo que cabe no orçamento, pode contribuir para a organização financeira. O risco está no uso sem planejamento e sem conhecimento das consequências.
Djeneffer Cordoba
Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram