Fragmentos da memória: Conservatórios de música

Evandro Higa - Especial da Casa

“Liberdade, igualdade e fraternidade” foram os princípios que nortearam a Revolução Francesa (1789-1799). Como um movimento político radical, consagrou-se como um período de intensas lutas para substituir a hegemonia da realeza pelo poder da classe burguesa, inspirados pelo movimento filosófico e científico intitulado “iluminismo”, que tinha na racionalidade um de seus principais pilares.

Foi nesse contexto que surgiu o primeiro conservatório de música do mundo: o Conservatório de Paris. Fundado em 1795, tinha como um dos objetivos, o de democratizar o acesso ao ensino de música às classes sociais que até então não tinham recursos para contratar professores particulares. Além disso, seguindo o princípio da razão iluminista, criou e implantou um currículo com disciplinas voltadas ao aprendizado de performance, harmonia e composição.

Esse currículo passou a ser replicado em diversas partes do mundo e o termo “conservatório de música” se popularizou, indicando uma instituição voltada ao ensino da música erudita nos moldes europeus. Aí chegamos ao nosso rincão campo-grandense, em que a história dos conservatórios e escolas de música ainda está por ser pesquisada, analisada e contada. Mas nos permitimos aqui a buscar nos fragmentos de nossa memória alguns professores que marcaram nosso ensino de música erudita.

É possível que um dos primeiros professores de música seja o maestro Frederico Liebermann (que inclusive dá nome a uma escola de ensino básico em nossa cidade).

Liebermann, nascido em 1904 na Argentina, era violinista e maestro de uma companhia de ópera e teria chegado a Campo Grande no final da década de 1930. Aqui instalou uma escola em sua residência onde deu aulas de violino, teoria, harmonia e piano durante mais de 60 anos. Faleceu em 1974, quando duas pianistas já haviam fundado suas respectivas escolas: Tunita Mendes e Marina Rêgo Lopes.

Professora Marina Rêgo Lopes / Arquivo Pessoal

Tunita Mendes nasceu em 1927 na cidade de Miranda e morou no Rio de Janeiro onde aprofundou seus estudos de piano e canto. Após concluir sua graduação, retornou a Campo Grande e fundou o Conservatório Matogrossense de Música (rebatizado para Conservatório Sul-Matogrossense de Música após a divisão do estado) responsável por várias gerações de aprendizes e professores de música na cidade.

Tunita faleceu em 2003, deixando uma legião de admiradores e muita saudade. Marina Rêgo Lopes nasceu no Rio de Janeiro e foi minha professora de piano por muitos anos. A primeira vez que vi a professora Marina, eu tinha cerca de 9 anos de idade e meu pai levou a mim e minha irmã para estudar música no Conservatório Musical Santa Cecília, que ficava instalado em um sobrado imponente na Avenida Afonso Pena.

Na verdade, quem realmente queria estudar piano era minha irmã, dois anos mais nova. Eu fui de arrasto, meio obrigado, só porque precisavam do irmão mais velho para levar e trazer a garota ao Conservatório. Já que era para escolher um instrumento, minha primeira idéia foi aprender violão. Mas o Conservatório só oferecia aulas de piano e balé… Como balé estava fora de questão (!), fui obrigado a ser matriculado em piano.

 

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O Conservatório Santa Cecília era dirigido pelas professoras Marina Rêgo Lopes e Neuza Gonçalves Gomes. Comecei as aulas com a professora Julieta, mãe da professora Marina. Algum tempo depois, o Conservatório foi fechado e a professora Marina fundou sua Academia de Música Marina Rêgo Lopes.

Segundo as informações esparsas que conseguíamos acessar, a professora Marina havia sido uma brilhante aluna de piano na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a mais antiga instituição conservatorial do Brasil. Entre seus colegas, figurava o renomado pianista Arnaldo Cohen, com quem Marina dividiu o prêmio máximo que era concedido aos melhores alunos a cada ano: a Medalha de Ouro.

Acompanhando a família, Marina veio para Campo Grande e aqui estabeleceu uma carreira na docência particular de música, sem abrir mão de ocasionais e glamurosas aparições nos palcos da cidade como pianista. Da mesma geração das professoras Tunita e Marina, a nissei Célia Miyahira também marcou o ensino de piano na cidade, ficando conhecida por seu rigor e
dedicação total ao ensino. Lembramos também do saudoso professor e maestro João Corrêa Ribeiro, primeiro regente da Orquestra Filarmônica de Campo Grande, que deixou, como principal herança, a Sociedade Lírica Amambaí Filarmônica Villa-Lobos, ainda hoje dirigida por sua filha Ana Maria, tia da importante cantora, compositora e multiinstrumentista Ju Souc.

 

 

É bem possível que outras professoras e professores de música erudita também atuassem nesse período que vai da década de 1930 até o final dos anos 1980, quando diversas outras instituições de ensino musical surgiram na cidade. Mas aí é assunto para outra hora. Por enquanto ficamos aqui com as lembranças desses abnegados mestres e mestras que – sem fazer juízo de valor aqui – se empenharam em reproduzir na aprazível cidade morena as formas de organização curricular e metodológica do ensino de música nos moldes dos conservatórios de música espalhados pelo mundo.

 

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