Éderson leva orgulho indígena à Seleção

Josias Jordão Ramirez (Cacique da Aldeia Marçal de Souza) - Foto: Cayo Cruz
Josias Jordão Ramirez (Cacique da Aldeia Marçal de Souza) - Foto: Cayo Cruz

Convocação mobiliza comunidade terena e inspira geração em Campo Grande

A expectativa pela Copa do Mundo ganhou significado especial para os moradores da Aldeia Urbana Marçal de Souza, na região do bairro Tiradentes, em Campo Grande. A comunidade acompanha com orgulho a trajetória do volante Éderson, jogador de origem indígena terena convocado para defender o Brasil. Para os moradores, a presença do jogador de 26 anos representa um marco de representatividade para os povos originários.

A história ganhou contornos ainda mais simbólicos porque a convocação aconteceu de forma totalmente inesperada. Éderson estava em Campo Grande para participar do casamento do volante Rômulo, ex-companheiro dos tempos de Cruzeiro, quando recebeu o chamado da Seleção Brasileira para substituir o lateral Wesley, cortado por lesão. De férias na cidade natal, o jogador foi pego de surpresa e precisou organizar às pressas a viagem para os Estados Unidos.

Segundo relatos, ele sequer estava com o passaporte em mãos e não tinha malas ou roupas preparadas para uma competição do porte da Copa do Mundo, mobilizando familiares e amigos para resolver toda a logística em poucas horas.

Após a notícia da convocação se tornar oficial, a mobilização na aldeia começou. A comunidade prepara uma grande estrutura para acompanhar os jogos, com telão, sistema de som, mesas e até o fechamento de uma das ruas da aldeia. O clima, segundo os moradores, lembra as grandes Copas do passado e reacende um entusiasmo que parecia adormecido nos últimos anos.

Sentimento de pertencimento

Cacique da Aldeia Marçal de Souza, Josias Jordão Ramirez afirma que a convocação do atleta trouxe sentimento de pertencimento. “Ela tem uma representatividade muito importante, de ocupar os espaços e ter um indígena jogador, um terena, representando os povos originários. É uma alegria muito grande saber que a gente pode falar para essa juventude, para as crianças, que através do futebol é possível romper barreiras e limites”, destaca ao jornal O Estado, em entrevista feita na tarde de ontem (11).

A Aldeia possui, segundo o último censo realizado em 2022, 233 famílias e 618 moradores. De acordo com a liderança indígena, a população já se aproxima de 700 pessoas. Entre crianças, jovens e adultos, o sentimento é de identificação com a trajetória do jogador, que mantém laços familiares com a comunidade.

A última visita de Éderson à região ocorreu no fim de 2025. Ele esteve no Memorial da Cultura Indígena Cacique Enir Terena, visitou parentes na Aldeia Marçal de Souza, e amigos e familiares no bairro Tiradentes. “Ele veio rever a família, os amigos, visitar o memorial. É alguém que mantém essa ligação com as suas raízes”, relembra Josias.

“Campo Grande inteira vai torcer por ele”

Maria Auxiliadora Bezerra, gestora do Memorial da Cultura Indígena, avalia que a presença do jogador na Seleção simboliza uma conquista coletiva. “Ele é a concretização do povo indígena na Seleção Brasileira. A convocação mostra que o indígena não tem apenas histórias negativas. Somos capazes de protagonizar histórias positivas também”, ressalta.

A repercussão fortalece elementos culturais importantes para o povo terena. Josias explica que muitos moradores associam a conquista de Éderson à espiritualidade e à cosmologia indígena, baseada na relação entre o ser humano, a natureza e os ancestrais. Para ele, a trajetória do jogador reforça valores como perseverança, resistência e conexão com as próprias raízes.

Enquanto a bola não rola, ruas são decoradas, bandeiras são estendidas e a expectativa cresce na comunidade. “Está um clima bem gostoso. As crianças, as mulheres, os jovens, todos envolvidos. Parece que aquela expectativa de anos atrás voltou”, diz o cacique.

Espelho aos mais novos

A presença de Éderson na Seleção se transforma em exemplo para crianças e adolescentes que sonham em seguir carreira no esporte.

Josias conta que acompanhou o crescimento do atleta desde a infância e lembra do garoto que circulava pela comunidade antes de alcançar o futebol profissional. “Ele era um menino muito bacana, sonhador, batalhador. Ver ele chegando ao Cruzeiro, ao Corinthians e depois atravessando o oceano para buscar outros horizontes mostra que vale a pena acreditar nos sonhos”, afirma.

A história de superação é destacada por moradores que conheceram o jogador ainda criança. A auxiliar de limpeza Andréia Amancio (foto), 50 anos, recorda os tempos em que ele frequentava projetos esportivos ao lado de seus filhos. “Conheci ele desde pequenininho. Era brincalhão, educado, brincava com os amigos. Sempre foi dedicado aos estudos e ao futebol. Era um menino exemplar”, relata. “Ficaram todos felizes. Meu neto gosta de jogar bola e vê nele uma inspiração.

Por Ricardo Prado

Foto – Cayo Cruz

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