Traços e cores que parecem simples à primeira vista, mas que carregam histórias e significados além dos olhos. Essa é um pouco da exposição ‘Compreender a Marcha’ da artista campo-grandense Priscilla Pessoa, que estreia neste domingo (8), na GAV (Galeria de Artes Visuais) da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul).
A exposição individual apresenta uma retrospectiva da produção da artista e contempla obras de suas séries desenvolvidas a partir de 2012, todas lidando com assuntos com os quais a artista trabalha, o íntimo, o cotidiano e o feminino. Assim, a expografia da mostra se dividirá em quatro eixos referentes a quatro séries: ‘Todo santo dia’, ‘Sempre convosco’, ‘Fábulas instantâneas’ e ‘Inventário do intermédio’, todas acompanhadas por textos críticos.
São séries compostas por pinturas, desenhos e fotografias que estiveram em importantes exposições e premiações nacionais e internacionais, e ressalta-se que metade das obras nunca foi exposta no Mato Grosso do Sul, sendo assim uma oportunidade do público conhecer o percurso contínuo e consistente de uma das artistas contemporâneas sul-matogrossenses de maior projeção no circuito nacional de artes visuais.
“A exposição COMPREENDER A MARCHA é uma mostra retrospectiva dos últimos 15 anos da minha carreira artística, e também é a primeira individual que faço em Campo Grande desde a pandemia. Então é algo muito importante para mim, voltar a mostrar meu trabalho na minha cidade e ainda apresentar às novas gerações esse percurso de 15 anos”, disse a artista para o Jornal O Estado.
“São pinturas principalmente, mas também desenhos e fotografias, divididos em 4 séries, que são as pesquisas que desenvolvi como artista nesses anos, fazendo um panorama desse caminho. Daí o nome da exposição, ‘Compreender a marcha’, ou seja, olhar para trás, compreender e continuar”, complementa.
Volta às raízes
Realizada na GAV, a artista considera como um retorno aos caminhos. “É muito significativo também que essa retrospectiva aconteça na GAV, que é a galeria de arte da UFMS e que fica dentro do curso de Artes Visuais, que é onde me formei e onde hoje atuo como professora. Então trata-se de um olhar para esses caminhos que se cruzam e se entrelacam, e também de uma tentativa de compreendê-los”, disse.
Todo dia
No eixo ‘Todo Dia’, Priscilla navega no diálogo entre a tradição pictórica e os conceitos contemporâneos, em que o ponto forte é a pintura. Aqui ela traz trabalhos em aquarela e óleo sobre tela, com cenas do cotidiano para retratar conceitos bíblicos.
“Ao colocar pessoas e circunstâncias comuns em diálogo com os temas bíblicos, simplesmente reflete sobre o percurso que a humanidade desenvolveu ao tomar por referência a vida, as condutas e o comportamento cotidiano daqueles reputados como grandes líderes, como o rei Davi ou Salomão, seu filho bastardo com Bate-Seba. Vamos perceber que ungir do caráter sagrado algo que é apenas humano é esquecer que tais personagens, à despeito de seus deslizes, imoralidade e pecados, sobreviveram aos erros em função das virtudes que passaram a ser valorizadas em detrimento dos defeitos: o bem obliterando o mal”, diz o texto de apresentação do eixo, escrito pelo artista, professor e colega Isaac A. Camargo.
Fábulas instantâneas
Para ‘Fábulas Instântaneas’, Priscilla trouxe para a arte um hábito atual, o da postagem de retratos e autoretratos em mídias sociais. Hoje, podemos até conhecer a atitude como ‘selfies’, mas o registro de si é algo que vem de séculos.
“Não é novidade alguma. A História da Arte é povoada por representações para a posteridade, nas quais os retratados vestem suas melhores roupas e identidades, na forma de gestos, penteados, objetos e cenários escolhidos para dizerem ao mundo a que vieram (ou a que gostariam de ter vindo…). Nos retratos, há centenas de anos e também agora, somos virgens, mães, líderes onipotentes, pensadores inteligentes, impávidos rebeldes; somos as máscaras que escolhemos usar”, explica ela.
A partir da identidade criada pelos sujeitos, a artista cria então suas obras, abordando assim, a autoafirmação, que são postadas em busca de curtidas e comentários.
Sempre Convosco
Nesse eixo, Priscilla traz o poder do psicológico para as suas obras, com reflexões sobre a mulher e seu papel nas civilizações passadas e recentes. Aqui, ela nos traz desde Virgem Maria, mãe de Jesus, até símbolos remetentes ao feminino e à criação, como o útero.
Para o artista plástico Humberto Espíndola, membro da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte), Priscilla quer ‘igualar’ todas as Marias conhecidas, da Madalena a Virgem, jogando luz a uma nova perspectiva de mulher, que se engaja em lutas e que há séculos vivem o problema do subjugo.
“O azul, o branco, o dourado, o lírio, a pomba e outros elementos presentes há séculos na História da Arte tradicionalmente reafirmam ‘a pureza e a divindade de Maria como uma ponte entre todas as obras, uma herança irreparável, marcando a relação entre os desígnios da Virgem e a idealização do feminino’. Através desses elementos e partindo sempre do episódio da Anunciação e seus desdobramentos, enxerga neles o que a cultura cristã espera da mulher (mas nem tanto, diria…). Também sentimos nas ‘anunciações’ de Priscilla alusões ao mito da cinderela – de menina borralheira à rainha! Penso ser este o grande anseio feminino no curso da civilização, de retomar o destaque primordial, o matriarcalismo, perdido ou sufocado nos primórdios da sociedade”, diz Humberto.
Inventário do Intermédio
Desde 2015, a artista desenvolve um processo criativo que ela define como um inventário de “furtos”. Não se trata de objetos, mas de fragmentos do cotidiano: conversas ouvidas ao acaso em mercados, filas, salas de espera, academias e outros espaços compartilhados. “Sempre furtei mentalmente conversas de gente que não conheço sobre assuntos que não me dizem respeito”, relata. Observadora atenta da vida alheia, ela transformou esse hábito em matéria-prima para sua produção artística.
A partir dessas falas captadas no cotidiano, a artista cria desenhos, pinturas, fotografias e objetos. Segundo ela, o processo pode ser entendido de diferentes formas: como tradução, representação, ilustração, associação ou até mesmo uma espécie de crônica visual. As imagens também nascem de referências apropriadas de diferentes contextos, como fotografias de rua, recortes de livros, conteúdos encontrados nas redes sociais e elementos emprestados de objetos e vivências de outras pessoas.
“Me torno, assim, o intermédio: trago o mundo dos outros para o meu e devolvo para outros outros”, explica. Ela compara seu trabalho a uma “parabólica defeituosa”, capaz de captar ruídos dispersos e transformá-los em narrativas inventadas, mas profundamente conectadas à experiência humana. O resultado são obras que transitam entre o humor, a ironia, a melancolia e a leveza, refletindo situações comuns da vida cotidiana e revelando, sobretudo, aquilo que há de mais humano nas histórias compartilhadas.
Sem favoritas!
Com uma série de trabalhos realizados em 15 anos, seria “natural” que algum deles fosse ‘a menina dos olhos’ de Priscilla. Mas a artista nega, não há favoritos!
“Ah não, todas são séries muito importantes para mim. E também são séries que vira e mexe, eu retomo, como a das Fábulas Instântaneas, que desenvolvi entre 2012 e 2014, mas voltei a ela a partir de 2023”, relata.
Para ela, o trabalho real é conciliar o trabalho como professora, maternidade e produção artística. “E ainda ter um hobbie, que no meu caso é o vôlei!. Tem pinturas que são complexas tecnicamente, mas que fiz em épocas mais tranquilas e fluíram até rápido; outras, que são menores e mais simples, levei meses para concluir por falta de tempo”, relembra.
Serviço: A exposição Compreender a Marcha, da artista Priscilla Pessoa, será aberta no dia 8 de junho, das 17h às 20h, na GAV (Galeria de Artes Visuais), localizada no piso térreo do Bloco 8 da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande. Após a abertura, a mostra poderá ser visitada gratuitamente de segunda a sexta-feira, das 9h às 11h e das 13h30 às 16h.
Por Carolina Rampi