O sofrimento mental é algo complexo e multifatorial. No entanto, sabe-se que certos fatores de risco podem predispor os sujeitos a uma maior situação de vulnerabilidade. Dentre os aspectos estruturais podemos lembrar a pobreza, a violência, os estigmas sociais, a ausência de rede de apoio social e de assistência em saúde. Além disso, os marcadores sociais também indicam quais corpos são mais expostos à vulnerabilidade: mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, assim como a população negra e indígena. Em suma, é preciso entender que o sofrimento psicológico é algo eminentemente político. Sem esta perspectiva crítica resta apenas a culpabilização e a medicalização, ou seja, a redução de questões sociais a diagnósticos e prescrição de medicamentos.
Em relação à juventude, a pesquisa “Panorama da Situação de Saúde dos Jovens Brasileiros de 2016 a 2022”, divulgada pela FIOCRUZ em 2024, constatou mais de 2 milhões de jovens com depressão ao mesmo tempo em que este é o grupo que menos realiza acompanhamento regular em serviços psicológicos. Se tomarmos a juventude como indo dos 15 aos 24 anos, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), podemos pensar duas situações: a primeira diz respeito ao período escolar e a segunda ao ingresso no mundo do trabalho.
Sobre a saúde mental no ambiente escolar é importante lembrar da Lei 13.935 de 2019, que orienta a contratação de profissionais da Psicologia e de assistentes sociais nas escolas. Apesar da extrema necessidade da inclusão destes profissionais, isso ainda está muito longe de ser uma realidade cotidiana. Já no caso dos jovens adultos, a experiência do trabalho implica diretamente na luta contra a escala 6×1 e a “uberização”. Trata-se de duas faces da precarização do trabalho que afetam diretamente a saúde mental dos jovens trabalhadores. Vale citar a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01), que constitui um avanço ao tornar obrigatória o gerenciamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Não basta apenas dizer “faça psicoterapia”, e incorrer novamente na individualização dos problemas estruturais já mencionados. Em ano de eleição, torna-se necessário tomarmos cuidado com propostas demagógicas e prestarmos atenção em propostas que contemplem de forma efetiva a saúde mental dos jovens. Um passo importante é a garantia do acesso à ajuda psicológica. Nunca é demais dizer: saúde mental é um direito de todas as pessoas.
Jeferson Camargo Taborda é Psicólogo, professor da Graduação e Pós-Graduação em Psicologia da FACH/UFMS. Coordena o Grupo de Pesquisa CNPQ “Pesquisar nas Diferenças: Psicologia, Processos de Subjetivação, Saúde e Sociedade”. E-mail: jeferson.taborda@ufms.br.
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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