Dados da Receita Federal apontam crescimento da entrada de produtos irregulares e de complicações causadas por procedimentos estéticos sem fiscalização
A busca por procedimentos estéticos mais baratos na fronteira entre Mato Grosso do Sul e Paraguai tem acendido um alerta entre autoridades de saúde, polícia e entidades médicas. O aumento da circulação de produtos sem registro sanitário, a atuação de profissionais sem habilitação e o crescimento de complicações graves vêm desenhando um cenário de preocupação crescente no Estado.
Dados obtidos pelo Jornal O Estado junto à Receita Federal mostram um aumento nas apreensões de substâncias ligadas à estética, emagrecimento e harmonização facial entre 2024 e abril de 2026. Entre os produtos interceptados estão tirzepatida, retatrutida, ácido hialurônico, anestésicos clandestinos, anabolizantes e substâncias usadas em preenchimentos faciais e corporais.
Segundo a presidente da SBD-MS (Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional Mato Grosso do Sul), Dra. Elza Garcia, médicos dermatologistas têm percebido um crescimento constante dos atendimentos relacionados a complicações de procedimentos estéticos.
“Há um relato frequente por parte dos médicos dermatologistas associados sobre o aumento de casos de complicações em seus consultórios”, afirma.
A médica explica que muitos pacientes procuram clínicas na fronteira atraídos principalmente pelos preços baixos. “Temos essa confirmação de forma indireta por meio dos relatos dos próprios pacientes que buscam atendimento subsequente no Brasil”, destaca.
Três fatores de risco
Para a SBD-MS, os principais riscos envolvem três fatores: a falta de preparo técnico de quem realiza os procedimentos, a utilização de produtos de origem duvidosa e a ausência de capacidade para lidar com emergências e complicações.
Procedimentos invasivos, como preenchimentos faciais e harmonizações, estão entre os mais preocupantes. Segundo a entidade, quando mal executados, eles podem provocar infecções, reações alérgicas graves, assimetrias permanentes e até necrose tecidual causada por obstrução vascular.
Além disso, a proximidade com a fronteira facilita a entrada de produtos sem autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
“A facilidade logística torna o monitoramento e o alerta sobre o uso de produtos clandestinos uma preocupação central e constante para a SBD/MS”, reforça Dra. Elza.
Mesmo sem estatísticas oficiais consolidadas, devido à subnotificação dos casos, a entidade afirma que a rotina dos consultórios demonstra aumento expressivo das sequelas relacionadas a procedimentos estéticos.
A SBD-MS alerta ainda que preços muito abaixo do mercado podem indicar irregularidades, embora ressalte que valores elevados também não garantem segurança.
“O único critério seguro é a verificação da qualificação técnica legal do profissional”, pontua a presidente da entidade.
A recomendação é que pacientes procurem médicos dermatologistas ou cirurgiões plásticos com CRM ativo e RQE (Registro de Qualificação de Especialidade).
Receita Federal aponta crescimento das apreensões
Levantamento realizado pelo Jornal O Estado, com base em relatórios enviados pela Receita Federal de Campo Grande, revela um crescimento das apreensões relacionadas ao mercado clandestino da estética na fronteira sul-mato-grossense.
Entre os principais produtos apreendidos estão:
• Tirzepatida (T.G., Lipoless, Mounjaro, Tirzepatide e Indufar);
• Retatrutida;
• Ácido hialurônico;
• Produtos para harmonização facial, como Profhilo, Radiesse e Sofiderm;
• Pomadas anestésicas;
• Minoxidil;
• Anabolizantes, como testosterona, trembolona, stanozolol e boldenona.
2024
Entre janeiro e dezembro de 2024, foram registradas apreensões em:
• Campo Grande: 5.029 ocorrências;
• Corumbá: 1.125;
• Mundo Novo: 1.297;
• Ponta Porã: 7.592.
Naquele período, o foco principal estava em produtos para harmonização facial, ácido hialurônico, medicamentos estéticos e minoxidil.
Entre os destaques, estão:
• apreensão de 720 unidades de minoxidil em uma única ocorrência;
• retenção de produtos como Profhilo, Radiesse e Sofiderm.
2025
Em 2025, os números cresceram significativamente:
• Campo Grande: 4.708;
• Corumbá: 1.481;
• Mundo Novo: 1.836;
• Ponta Porã: 46.861.
O total de Ponta Porã inclui uma apreensão atípica de 44 mil litros de substância química transportada em caminhão-tanque.
As apreensões passaram a se concentrar principalmente em:
• medicamentos para emagrecimento;
• anabolizantes;
• produtos para harmonização facial;
• estimulantes sexuais;
• minoxidil.
Entre os destaques:
• 1.180 unidades de Minoxidil Kirkland apreendidas;
• 723 pomadas anestésicas TKTX apreendidas em Mundo Novo;
• operações envolvendo Mounjaro, Retatrutide e Tirzepatida.
2026
Somente entre janeiro e abril de 2026, já foram registradas:
• Campo Grande: 4.534 apreensões;
• Corumbá: 15;
• Mundo Novo: 2.075;
• Ponta Porã: 6.592.
Os produtos mais encontrados foram:
• Tirzepatida;
• Minoxidil;
• anabolizantes;
• medicamentos controlados;
• produtos estéticos.
Entre os casos de destaque:
• 1.000 unidades de pomada anestésica GOOSICA apreendidas em Campo Grande;
• 936 unidades de Minoxidil Kirkland apreendidas em Ponta Porã;
• 304 unidades de Tirzepatida T.G. 15 interceptadas em uma única operação.
Polícia investiga procedimentos irregulares
O delegado titular da Decon (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes contra as Relações de Consumo), Wilton Vilas Boas de Paula, afirmou ao Jornal O Estado que existem investigações em andamento envolvendo tratamentos estéticos irregulares em Mato Grosso do Sul.
Segundo ele, os casos envolvem principalmente exercício ilegal da profissão e comercialização de medicamentos sem regularização.
“Sabemos que há uma grande entrada de produtos descaminhados e/ou contrabandeados, inclusive produtos estéticos”, afirmou.
O delegado destacou que a ausência de fiscalização adequada aumenta os riscos à saúde da população.
“Como não há qualquer controle por meio dos órgãos de fiscalização, como Anvisa ou Vigilância Sanitária, há um grande risco para quem realiza procedimentos com produtos sem origem regularizada ou com profissionais sem habilitação”, declarou.
Ele também alerta para problemas relacionados ao armazenamento e transporte inadequado dessas substâncias.
“Produtos sem procedência podem apresentar falhas de conservação, transporte irregular e até falsificação, aumentando o risco de contaminação e complicações aos pacientes.”
Procedimento estético e morte de maquiadora de MS expõem riscos do PMMA
A morte da maquiadora sul-mato-grossense Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, de 48 anos, reacendeu o debate sobre os riscos envolvendo procedimentos estéticos com PMMA (polimetilmetacrilato).
Moradora de Jardim, Roseli morreu na terça-feira (26), em São Paulo, menos de 24 horas após realizar aplicação da substância nos glúteos e na parte posterior das coxas.
Segundo o boletim de ocorrência, o procedimento foi realizado na segunda-feira (25) pela médica Tábita Nunes Marcolino Jorge, que possui mais de 100 mil seguidores nas redes sociais e divulga conteúdos voltados à remodelação glútea e transformação corporal.
Horas após a aplicação, Roseli começou a sentir dores intensas, taquicardia, mal-estar e dificuldade para respirar. Conforme relato da filha à polícia, a maquiadora entrou em contato com a médica responsável e foi orientada a retornar ao consultório.
Durante o trajeto, ela perdeu a consciência dentro de um carro de aplicativo. A vítima chegou desacordada ao edifício Brooklin Office, na zona sul de São Paulo, onde equipes tentaram reanimá-la, mas ela morreu na recepção do prédio.
Em depoimento à polícia, a médica confirmou a aplicação de cerca de 300 mililitros de PMMA e afirmou possuir pós-graduação em dermatologia, embora não tenha residência médica na especialidade. O caso segue sob investigação no 96º Distrito Policial de São Paulo.
Substância é alvo de alertas
Em nota enviada ao Jornal O Estado, a SBD-MS manifestou pesar pela morte da maquiadora e afirmou que o caso expõe “a urgência de um alerta rigoroso à população diante do avanço de condutas extremas que colocam vidas em risco”.
A entidade reforçou que não existe respaldo científico para o uso estético do PMMA e alertou que a substância, por ser definitiva e não absorvida pelo organismo, pode causar complicações imediatas ou tardias.
Por Geane Bezerra e Biel Gill
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