O que se constrói entre rotina, convivência e poucas, mas marcantes, opções culturais e de entretenimento?
O jornalismo cultural no interior de Mato Grosso do Sul muitas vezes nasce da própria vivência de quem circula por essas cidades e observa, na prática, como o lazer e a cultura se organizam fora dos grandes centros. Entre pautas sobre eventos na Capital e nas cidades maiores, fica sempre uma inquietação recorrente: o que, de fato, se faz culturalmente nos municípios menores que compõem o eixo fora de Campo Grande e Dourados?
Foi a partir dessa provocação que a própria Ana Castela chamou atenção ao compartilhar vídeos mostrando o cotidiano em sua cidade de origem, destacando hábitos simples e afetivos que fazem parte da rotina local. Essa observação dialoga diretamente com uma realidade que também conheço de perto, já que tenho ligação com Sete Quedas, região de fronteira, onde sempre que posso retorno para visitar familiares e revisitar esses espaços de convivência.
Diante desse cenário diverso, o Jornal O Estado também ouviu moradores de municípios como Três Lagoas, Chapadão do Sul, Nova Alvorada do Sul e Bonito para entender como o lazer se organiza no interior e quais atividades fazem parte da rotina dessas comunidades fora dos grandes centros urbanos.
Chapadão do Sul
A jornalista Isadora Collette, natural de Chapadão do Sul, contou à reportagem que se mudou para Campo Grande há cerca de cinco anos para cursar a faculdade na UFMS e acabou permanecendo na Capital também por conta das oportunidades no mercado de trabalho. Apesar disso, ela reforça que mantém um vínculo forte com a cidade de origem e sempre retorna para visitar familiares e amigos.
“No interior tudo é mais calmo e acessível. A gente atravessa a cidade em poucos minutos e acaba vivendo uma rotina mais próxima da família e dos amigos. As opções de lazer são mais limitadas, mas isso faz parte da experiência. A gente acaba vivendo coisas mais simples, como ir comer um hambúrguer, se reunir na casa de alguém ou ficar tomando tereré com os amigos. Tenho lembranças muito fortes da infância, principalmente quando o circo chegava na cidade e meu pai me levava, além dos passeios na praça, de andar de bicicleta e de crescer junto com as mesmas pessoas”.
Três Lagoas
Em Três Lagoas, a rotina de lazer da atendente Aline Cardoso da Silva passa por espaços que concentram a convivência, alimentação e descanso no cotidiano da cidade. Entre os principais pontos frequentados por ela estão a Lagoa Maior e a Feira Central, locais que, segundo ela, oferecem opções tanto para momentos sozinha quanto em encontros com familiares e amigos.
“A Lagoa Maior e a Feira Central são os lugares que mais frequento porque têm muitas opções, seja para ir sozinha ou com a família. Para quem vem visitar ou morar aqui, recomendo o Balneário Municipal, que é ótimo nos dias de calor, a Lagoa Maior para aproveitar a vista de dia ou à noite tomando tereré, a Rua é Nossa aos domingos, além da Feira Central com comidas e música ao vivo. Também tem a Praça do Obelisco, a Igreja de Santo Antônio, o Müller Bar perto da lagoa e o Romma Pub, que é mais voltado para dança e shows”, destaca.
A atendente também destaca que a vivência no interior costuma ser diferente do imaginário de quem não conhece a cidade, especialmente no que diz respeito à segurança e às formas de lazer.
“Eu gosto de dizer que Três Lagoas, por ser interior, é uma cidade muito boa para morar. A gente consegue sentar na frente de casa, deixar a criança brincar na praça com mais tranquilidade e sair para se divertir voltando tarde sem aquela sensação constante de medo. As pessoas são receptivas e isso faz muita diferença na forma como a gente vive a cidade”, completa.

Fotos: Arquivo pessoal das entrevistadas
Nova Alvorada do Sul
Em Nova Alvorada do Sul e também em Três Lagoas, a farmacêutica Karen Goulart relata experiências bem distintas quando o assunto é lazer e qualidade de vida. Para ela, o contraste entre uma cidade pequena e outra mais estruturada interfere diretamente na rotina, nas opções de entretenimento e até na prática de atividades físicas.
“Nova Alvorada do Sul é uma cidade bem pequena, com poucas opções de lazer. Normalmente o que tem são passeios no parque no fim de semana, eventos da prefeitura como aniversário da cidade e Natal, e saídas para pizzarias ou espetinhos com amigos. Já em relação ao esporte, eu cheguei a fazer crossfit em Campo Grande por anos, mas lá não tinha box, então acabei indo para academia comum, só com musculação, mas não consegui manter por muito tempo”, explica.

Foto:Arquivo pessoal das entrevistadas
Nioaque e Anastácio
A advogada Ingrid Cavalcante, que vive em Nioaque, mas costuma frequentar com frequência o município de Anastácio, relata que a rotina de lazer nas cidades do interior é marcada por poucas, porém afetivas, opções de convivência. Segundo ela, a diferença entre os dois municípios está principalmente na variedade de eventos e estilos musicais disponíveis, o que acaba influenciando diretamente seus deslocamentos aos fins de semana.
“Em Nioaque, por ser uma cidade bem pequena, quase não tem opções de lazer, principalmente para quem gosta de outros estilos musicais que não sejam sertanejo. As poucas opções que aparecem são raras e, por isso, acabo não ficando muito. Já em Anastácio e também em Aquidauana, encontro mais alternativas, como restaurantes e lugares com pop rock e até rock mais pesado. Eu gosto desses ambientes mais pela música, pela convivência com amigos e por socializar”, conta.
Bonito
Em Bonito, cidade reconhecida nacionalmente pelo ecoturismo, a rotina de quem vive no local nem sempre acompanha a imagem idealizada pelos visitantes. A responsável por receber hóspedes e realizar a limpeza de apartamentos na rede hoteleira local, Suzieny Sanches, relata que o cotidiano dos moradores é mais simples e marcado por uma relação mais distante com os próprios atrativos naturais.
“Bonito é lindo, isso ninguém discute, mas pra gente que mora aqui acaba sendo diferente. Eu, por exemplo, vou ao balneário só de vez em quando, às vezes fico meses sem ir.Quem vem de fora chega cheio de expectativa, mas pra gente é vida normal, casa e trabalho. No fim de semana até dá pra ir em algum lugar, mas muitas vezes a gente só descansa ou fica em casa mesmo”, conta.
A trabalhadora também explica que, fora da alta temporada, a cidade mantém uma dinâmica mais tranquila, com concentração de lazer em poucos espaços. À noite, segundo ela, bares, praças com lanchonetes e algumas casas de eventos concentram o movimento local, enquanto durante o dia o balneário segue como principal opção de lazer dos moradores.
“Na alta temporada a cidade só fica mais cheia, tudo continua funcionando, mas com mais gente na rua, mercado lotado e trânsito mais lento. No dia a dia não muda muita coisa pra mim. O que move Bonito mesmo é o turismo, porque quase tudo gira em torno disso. Quem trabalha com isso consegue uma renda melhor, porque tem comissão, passeios, lojas e restaurantes. Então, querendo ou não, a cidade vive do turismo”, finaliza.

Fotos: Arquivo pessoal das entrevistadas
Amanda Ferreira