Em entrevista ao Jornal O Estado, o humorista fala sobre os desafios de fazer humor no Brasil, a liberdade criativa e a conexão com o público Sul-mato-grossense no espetáculo de hoje (23)
Campo Grande recebe hoje, (23) o humorista Maurício Meirelles sobe ao palco do Teatro Dom Bosco, às 21h, com o espetáculo “Surto Coletivo”, projeto que mistura interação digital, improviso e participação direta do público durante toda a sessão. E com exclusividade, o comediante falou com o Jornal O Estado sobre sua apresentação em Campo Grande e também sobre como fazer comédia no Brasil.
A proposta do show transforma os espectadores em parte essencial da experiência. Antes mesmo da apresentação começar, quem chega ao teatro responde a um formulário com histórias, opiniões e situações pessoais. Todo esse material é utilizado em tempo real pelo comediante, por meio de um sistema tecnológico criado especialmente para o espetáculo, fazendo com que cada edição tenha momentos inéditos e diferentes.
Com trajetória consolidada na televisão, internet e nos palcos, Maurício Meirelles iniciou a carreira na publicidade antes de migrar para a comédia, em 2007. Desde então, participou de programas humorísticos em grandes emissoras brasileiras e conquistou espaço entre os principais nomes do humor nacional. Nas redes sociais, acumula milhões de seguidores e também ganhou reconhecimento com especiais de stand-up e projetos voltados ao entretenimento digital.
Cultura da comédia
Em meio às discussões sobre os limites do humor na atualidade, Maurício Meirelles contou para o Jornal O Estado, que acredita na liberdade criativa como parte essencial do trabalho dos comediantes.
“O comediante precisa ter espaço para criar sem tantas restrições. No fim das contas, o excesso do politicamente correto acaba valorizando ainda mais o meu trabalho, porque muita gente procura justamente esse tipo de humor mais ácido de maneira consciente”.
Ao falar sobre os diferentes formatos em que atua, Maurício Meirelles destacou que o teatro é o espaço onde se sente mais confortável para explorar um humor mais ácido. Segundo o artista, a troca direta com o público presente cria uma conexão mais espontânea e reduz a possibilidade de interpretações equivocadas sobre suas piadas e ironias.
“No palco existe uma relação mais próxima com quem já conhece o meu trabalho e entende o tipo de humor que faço. Na TV, no YouTube e nas redes sociais, o conteúdo acaba chegando a pessoas que não acompanham minha carreira, e isso pode gerar interpretações fora do contexto. No show ao vivo, essa comunicação acontece de forma muito mais natural”, afirma.
Repertório de piadas
Durante a entrevista, Maurício Meirelles também comentou sobre as mudanças naturais no repertório ao longo da carreira. O humorista explicou que suas apresentações acompanham as próprias transformações pessoais e profissionais, mas ressaltou que evita criar pensando em limitações impostas pelo receio de críticas ou reações do público.
“Minha comédia muda o tempo inteiro porque eu também estou em constante mudança. Isso acontece naturalmente. Mas, na hora de escrever, não fico preso a essa preocupação do que pode ou não pode, porque esse excesso de cuidado acaba bloqueando a criatividade”, declara.
Ao relembrar situações curiosas vividas nas turnês pelo país, Maurício Meirelles contou que os maiores perrengues aconteceram no início da carreira, período em que ainda aceitava diferentes condições de produção sem muita experiência nos bastidores dos espetáculos.
“No começo acontece de tudo e você vai aprendendo com o tempo o que aceita ou não. Uma vez, por exemplo, o produtor disse que tinha conseguido parceria para o jantar depois do show. Quando cheguei, descobri que o jantar era na casa da avó dele”, brinca.
No espetáculo “Surto Coletivo”, Maurício Meirelles transforma situações do cotidiano em ponto de partida para as piadas e improvisos apresentados no palco. Entre os temas abordados estão questões ligadas ao estresse da rotina, burnout, inseguranças pessoais, sonhos e até os conflitos provocados pela polarização política, assuntos que o humorista utiliza para criar identificação imediata com o público.
“Cada cidade acaba trazendo histórias diferentes para o show. O texto nunca é totalmente fechado, porque gosto de inserir referências locais e situações que as pessoas me contam sobre a região. Como existe muita interação com a plateia, acabo conhecendo mais sobre quem está ali e também sobre a cidade. E eu adoro conversar com os jovens para tentar entender melhor essa geração”.
Para o público de Campo Grande
Está não é a primeira vez do artista aqui em Campo Grande, Maurício garantiu que o público pode esperar momentos diferentes a cada sessão, especialmente por conta das interações ao vivo e do quadro “Webbullying”, uma das marcas registradas de seus espetáculos. O humorista ressaltou, porém, que a participação da plateia acontece de forma espontânea, sem obrigatoriedade para quem prefere apenas assistir ao show.
“Cada apresentação acaba sendo única por causa da interação com o público. O ‘Webbullying’ sempre rende situações inéditas, mas participa apenas quem quiser entrar na brincadeira. E, mesmo depois de tantos anos de carreira, ainda sinto aquele frio na barriga antes de subir ao palco, porque sempre quero entregar o melhor e proporcionar diversão para quem saiu de casa para assistir ao espetáculo”, conta.
Ao comentar sobre as características culturais de Mato Grosso do Sul, Maurício Meirelles revelou que já possui certa familiaridade com alguns costumes da região e destacou o carinho que recebe do público sul-mato-grossense durante as passagens pelo Estado.
“Eu gosto muito de tereré. Na última vez em que estive por aí, ganhei de um fã um copo personalizado e guardo até hoje. Confesso que não uso, mas virou uma lembrança especial que ficou comigo”, revela.
Em tom descontraído, Maurício Meirelles entrou na brincadeira ao comentar sobre Campo Grande e aproveitou para fazer referência a uma confusão comum envolvendo o Estado de Mato Grosso do Sul. O humorista também afirmou que gosta de aproveitar as viagens para conhecer hábitos e sabores típicos de cada região por onde passa.
“Se eu tivesse que resumir Campo Grande em uma piada, seria: ‘não é a capital de Mato Grosso e claro que toparia experimentar tereré ou sobá depois do show. Eu adoro conhecer comidas e costumes locais quando estou viajando”, finaliza.
Serviço: A apresentação acontece no Teatro Dom Bosco, localizado na Avenida Mato Grosso, 225, região central de Campo Grande, às 21h. Os ingressos estão disponíveis pela plataforma oficial do artista, no site www.mauriciomeirelles.com.br. Classificação indicativa 16 anos.
Amanda Ferreira e Marcelo Rezende