Baixa Remuneração: trabalho sobra, salário não acompanha inflação e vagas abertas se acumulam em Campo Grande

vaga de emprego

Com mais de mil vagas abertas, trabalhadores relatam dificuldade para sobreviver com salários próximos do mínimo

Mais de mil vagas seguem abertas em Campo Grande em meio à dificuldade de contratação para funções com salários próximos do mínimo. Nesta semana, a Funsat anunciou oportunidades em mais de 100 profissões, grande parte delas sem exigência de experiência anterior.

Mesmo com o volume elevado de anúncios, parte das vagas permanece aberta por longos períodos. Entre as funções ofertadas estão atendente de padaria, consultor de vendas, garçom, costureira, auxiliar de manutenção predial, separador de material reciclável e repositor de mercadorias, em postos que ficam entre o mínimo nacional e o piso comercial.

O cenário aparece no mesmo momento em que a inflação volta a pressionar despesas básicas em Campo Grande. O IPCA da Capital subiu 1,02% em abril, acima da média nacional de 0,67%, puxado principalmente pela alimentação, que avançou 1,86% no mês.

Entre os produtos que mais subiram estão batata-inglesa, com alta de 23,81%, repolho (19,41%), cebola (18,70%) e tomate (10,11%). O grupo Transportes também pressionou o orçamento das famílias, com aumento de 3,09% na gasolina em abril, maior impacto individual no índice inflacionário do mês.

Na prática, o avanço dos preços aumenta a distância entre o custo de vida e os salários oferecidos em grande parte das vagas abertas no comércio e nos serviços. A aposentada e ex-enfermeira Lucie de Lima afirma que mesmo quando recebia o dobro do valor atualmente pago em parte das funções do varejo, o orçamento já não fechava.

“Já era difícil”, resume Lucie. Ao comentar salários na faixa de R$ 1,6 mil e R$ 1,7 mil anunciados atualmente, ela avalia que a remuneração se tornou um dos fatores para o desinteresse pelas vagas. “Com certeza, porque a pessoa trabalha e não consegue sobreviver com isso.”

Segundo ela, muitos trabalhadores procuram renda complementar para conseguir fechar as contas no fim do mês. Lucie também relaciona a dificuldade de contratação às jornadas extensas presentes em segmentos como supermercados, que operam em horários ampliados e escalas nos fins de semana.

A percepção se repete entre trabalhadores aposentados que continuam buscando renda complementar. A missionária integral Eneir da Silva, pensionista, afirma que ainda realiza diárias para complementar o orçamento e diz que mesmo recebendo acima dos salários ofertados em parte das vagas da Capital ainda enfrenta dificuldades financeiras.

“Nem mesmo a pensão dá. Então eu procuro fazer algo”, relata. “Nunca”, responde ao ser questionada se consegue viver com tranquilidade. Eneir associa os baixos salários às dificuldades enfrentadas por famílias de menor renda em Campo Grande.

“Eu fico pensando nessas pessoas que são menos favorecidas, que são os mais trabalhadores e os menos remunerados. Um pai de família, com dois filhos, como vai sustentar aluguel, água, luz, gás e internet?”, questiona.

Para ela, a quantidade de vagas abertas não necessariamente representa falta de trabalhadores, mas dificuldade de preenchimento. “Tem muita vaga em Campo Grande, mas são essas vagas que pagam esses valores. E essas vagas não são preenchidas”, afirma.

Eneir também aponta problemas ligados à qualificação profissional. “Eu penso que é pela remuneração e também acho que um ponto maior é a falta de capacitação de mão de obra”, diz.

Mercado abre vagas, mas renda segue pressionada

A percepção dos trabalhadores encontra respaldo nos dados econômicos do Estado. Mato Grosso do Sul encerrou o primeiro trimestre de 2026 com taxa de desocupação de 3,8%, uma das menores do país. Em Campo Grande, o índice ficou em 4,1%, segundo dados da PNAD Contínua.

Mesmo com baixa desocupação, o mercado de trabalho segue marcado por desigualdades de renda e concentração de vagas em ocupações de menor remuneração. Mato Grosso do Sul possui cerca de 1,42 milhão de pessoas ocupadas, sendo 727 mil no setor privado, 312 mil trabalhadores por conta própria e 218 mil servidores públicos.

O rendimento médio real habitual dos trabalhadores sul-mato-grossenses foi estimado em R$ 3.768 no primeiro trimestre deste ano. Os números, porém, variam conforme gênero e escolaridade, revelando diferenças significativas dentro do próprio mercado formal.

Homens recebem, em média, R$ 4.205 no Estado, enquanto mulheres têm rendimento médio de R$ 3.177, diferença de 24,5%. Entre trabalhadores com ensino médio completo, a renda média é de R$ 2.951. Já entre profissionais com ensino superior completo, o valor alcança R$ 6.298.

Relatório de transparência salarial aponta que o salário contratual mediano das mulheres equivale a 73% do recebido pelos homens. Na remuneração mensal média, elas recebem 80,7% da renda masculina, mesmo exercendo funções semelhantes em parte das atividades analisadas.

Na avaliação do economista Eugênio Pavão, o mercado formal em Mato Grosso do Sul passou a apresentar dois movimentos distintos. De um lado, vagas ligadas à construção civil e às indústrias instaladas no interior passaram a oferecer salários maiores para atrair trabalhadores locais e de outras regiões.

No comércio varejista e nos serviços permanecem vagas com remuneração próxima do mínimo. “As pessoas com salário mínimo sobrevivem e se endividam para pagar as contas e se alimentar”, afirma Eugênio Pavão.

Cesta básica consome mais da metade do salário

Segundo o economista, o aumento recente do salário mínimo chegou a melhorar temporariamente a relação entre renda e custo da cesta básica, mas a inflação voltou a reduzir o poder de compra. Dados do Dieese mostram que a cesta básica de Campo Grande atingiu R$ 826,89 em abril, após alta de 2,60% em apenas um mês.

Campo Grande registrou a quinta cesta básica mais cara entre as capitais pesquisadas. O levantamento aponta que um trabalhador remunerado pelo salário mínimo precisou comprometer 55,15% da renda líquida mensal apenas para comprar os alimentos básicos.

Para adquirir a cesta, foram necessárias 112 horas e 13 minutos de trabalho no mês. No acumulado do ano, os itens que mais subiram em Campo Grande foram tomate, com alta de 58,72%, feijão carioca (35,69%) e batata (22,79%).

Eugênio Pavão avalia que parte da pressão sobre os salários está ligada à própria estrutura econômica do mercado de trabalho. “A participação do trabalhador na massa salarial não muda muito, porque a divisão dos recursos fica entre o dono da terra, investidores e empreendedores”, afirma.

Parte da renda gerada em Mato Grosso do Sul, segundo ele, também acaba transferida para outras regiões por meio do envio de lucros para matrizes empresariais e investimentos realizados fora do Estado. O economista afirma ainda que setores com maior produtividade conseguem pagar salários mais elevados.

“A indústria lidera na produção, mas precisa escoar estoques. Comércio e serviços dependem diretamente da demanda”, explica. A abertura contínua de vagas ocorre em paralelo à alta do custo de vida e à dificuldade de contratação relatada por trabalhadores.

Para participar das seleções, os trabalhadores precisam manter cadastro atualizado no Sine (Sistema Nacional de Emprego). Os atendimentos ocorrem na sede da Funsat, na Rua 14 de Julho, no Polo Moreninhas e em postos instalados na Casa da Mulher Brasileira e na Secretaria-Executiva Municipal de Políticas Públicas para Mulheres.

Por Djeneffer Cordoba

 

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