Vitor Hugo Aguilar de Souza e o olhar artístico em Corumbá
A série Conhecendo Mestres em Artes apresenta trajetórias de artistas formados pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), destacando suas contribuições para a arte, a educação e a cultura local. Nesta edição, conheceremos o trabalho de Vitor Hugo Aguilar de Souza, artista plástico muralista e professor da rede municipal, cuja produção dialoga diretamente com os espaços urbanos e a vivência cultural Pantaneira.
Trajetória, Arte e Fenomenologia: O Olhar que Habita o Mundo Cultural
Vitor Hugo nasceu em Santo André (SP), fez de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, seu lar e seu chão criativo há mais de 18 anos. Nesse tempo, consolidou a atuação como professor na rede municipal de ensino, lecionando há mais de uma década para alunos do Ensino Fundamental I. Atuar em Corumbá, o “Coração do Pantanal”, é reconhecer-se em um verdadeiro “ninho” cultural, um ponto de acolhimento e gestação definido pela constante migração e pela multiculturalidade vibrante que a habita. Vitor Hugo destaca que sua atuação como docente e artista plástico muralista nasce de inquietações profundas sobre como as produções escultóricas e pictóricas nos espaços urbanos dialogam com quem transita por eles, especialmente sob o olhar dos discentes sobre os espaços onde moram.

Acervo do Artista
Perguntas ao Artista.
De que maneira suas obras e intervenções urbanas se conectam com a identidade cultural local e o ambiente escolar?
Mestre Vitor Hugo: Nesse contexto, não compreendo minha produção de forma isolada, mas como parte de um ecossistema visual que inclui monumentos e manifestações da cultura popular. Como artista plástico, minhas intervenções urbanas buscam a representação de símbolos da cultura local que emergem da minha percepção: figuras que representam segmentos culturais ou manifestações de crenças populares, como o Banho de São João, os Cururueiros mestres da viola de cocho, além da fauna e flora pantaneiras. Essas e outras inquietações são o motor do meu trabalho docente, onde busco integrar o ambiente vivente do entorno com o mundo desses discentes de forma lúdica, transformando a cidade em uma extensão viva da sala de aula.

Qual foi o impacto da sua formação no Mestrado Profissional em Artes da UFMS para a sua trajetória pessoal e profissional?
Mestre Vitor Hugo: Essa percepção de que o mundo é algo a ser descoberto no contato direto com o que nos cerca e na forma como as coisas ganham sentido para nós impulsionou-me ao Mestrado Profissional em Artes (PROF-ARTES), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Artes da FAALC (Faculdade de Artes, Letras e Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Minha entrada na primeira turma representou um atravessamento pedagógico e pessoal; uma oportunidade que gerou um impacto de tal magnitude que os reflexos dessa experiência faz parte de minha construção como ser, seja lecionando, seja nas materializações das minhas produções artísticas até hoje.
Este percurso foi acompanhado de perto pela orientação do Prof. Dr. Paulo César Antonini de Souza. Ser orientado por ele foi uma experiência marcante que se reflete na seriedade com que trato a pesquisa, ecoando sempre em minhas práticas e reflexões. Além disso, o convívio com os colegas de turma foi fundamental. Atravessamos o início do mestrado ainda sob os impactos da pandemia, o que fortaleceu os laços de amizade, o aprendizado compartilhado e a colaboração mútua, tornando o percurso um movimento coletivo de crescimento.
Através dessa rede de trocas, integrei por meio de meu orientador no NINFA – CNPq (Núcleo de Investigação de Fenomenologia em Arte). Sendo a fenomenologia parte fundamental na construção de minha pesquisa: compreendi que a investigação é um campo aberto sobre o sensível. Essa vivência fundamenta meu entendimento sobre o mundo cultural. Para Merleau-Ponty, o mundo cultural é o horizonte onde as coisas deixam de ser objetos isolados e passam a ser carregadas de significações humanas vividas. É nesse campo de convivência com os outros que as significações se constituem e são descobertas como algo que já está ali, aguardando nosso olhar.
A partir desse amadurecimento, minha investigação intitulada “O olhar no ensino de arte: sei que vi, mas nunca reparei” propõe-se como um campo de possibilidades para entender a estética urbana de Corumbá não como um dado pronto, mas como um fenômeno em constante construção. Ao observar como a arte nos espaços públicos muitas vezes se torna invisível, percebe-se a potência de uma mediação que promova o que Paulo Freire define como a conscientização e a leitura de mundo. Esse diálogo entre a experiência sensível de Merleau-Ponty e a autonomia Freireana sugere que o olhar do discente, ao ser provocado, colabora para que ele deixe de ser um mero espectador da paisagem para tornar-se um sujeito que habita e significa o seu território. Assim, o que se apresenta não são respostas definitivas, mas um atravessamento de experiências onde a sala de aula e a rua se fundem, permitindo que o processo educativo seja um exercício contínuo de pertencimento e de reencantamento com o cotidiano local.

Como a sua rotina entre as salas de aula e os muros de Corumbá reflete a continuidade dessa pesquisa e qual o papel do olhar atento na sua produção atual?
Mestre Vitor Hugo: Hoje, a continuidade dessa pesquisa se materializa na minha prática diária, onde a sala de aula e os muros da cidade intensificam mais ainda meu olhar, vivências artísticas e pedagógicas. Minhas produções pós-mestrado são atravessadas por essa fenomenologia do cotidiano; elas carregam as marcas das trocas, dos olhares de meus alunos e da própria mutabilidade de Corumbá. Entendo que ser um “ser vivente” nestes espaços urbanos exige uma postura de constante abertura ao novo, reconhecendo que cada pincelada no muro ou cada aula mediada contribui para que o mundo cultural local continue a se desvelar. Como se trouxe ao final de minha investigação, o olhar não é apenas um ato biológico, mas um compromisso ético e estético de habitar conscientemente o mundo. Assim, sigo produzindo e ensinando, convicto de que a experiência estética é o que nos permite, enfim, não apenas ver, mas verdadeiramente reparar na vida que pulsa ao nosso redor.

Acervo do Artista: Mestres Hudson Campos a esquerda, Vitor Hugo, Alex Barbosa e Dr. Paulo César Antonini a direita.
A trajetória de Vitor Hugo evidencia como arte, educação e território se entrelaçam na construção de um olhar sensível sobre a cidade. Sua produção reafirma o papel do artista-professor como mediador de experiências estéticas e culturais no cotidiano escolar e urbano. A série seguirá apresentando outros Mestres em Artes formados pela UFMS, ampliando o reconhecimento dessas trajetórias no cenário sul-mato-grossense.
Confira a pesquisa completa do Artista Vitor Hugo: Acesse o Repositório UFMS
Por Por Alex Barbosa de Lima