Cadê a transparência? Gastos da presidência da MSGás são retiradas do Portal da Transparência

FOTO: ROBERTA MARTINS
FOTO: ROBERTA MARTINS

Denúncia afirma que dados de viagens e diárias foram retirados do ar após reportagens sobre despesas de Cristiane Schmidt

Uma denúncia enviada à redação do O Estado acusa a MSGás de retirar do Portal da Transparência informações sobre gastos com viagens da diretoria após a repercussão de reportagens sobre a presidente da estatal, Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt.

Conforme a queixa, os registros sobre diárias, passagens e estadias deixaram de ser divulgados depois que vieram a público informações sobre a quantidade de viagens realizadas pela presidente da empresa ao longo de 2025.

Na denúncia consta que as informações eram publicadas normalmente até agosto do ano passado. “Quando foi noticiado nos jornais de que a presidente da MSGás gastava muito com passagens e não mora em Mato Grosso do Sul, a página que demonstra os gastos foi tirada do ar”.

A reportagem acessou o Portal da Transparência da MSGás e constatou que não há registros de despesas com viagens após agosto de 2025. Documentos obtidos pelo jornal mostram que, até então, a estatal divulgava planilhas com valores de diárias, destinos e justificativas das viagens realizadas por diretores e funcionários. Questionamos a companhia sobre a falata de dados atualizados no portal, mas até o fechamento da matéria não tivemos retorno.

Entre janeiro e agosto de 2025, a diretora-presidente da companhia aparece em viagens para Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Manaus, Salvador, Natal, Cuiabá, João Pessoa, Bonito e Maceió. O Rio de Janeiro concentra a maior parte das viagens registradas nas planilhas.

Em 16 de janeiro de 2025, Cristiane Schmidt recebeu R$ 1,3 mil em diária para participar de reunião na Commit, no Rio de Janeiro. Duas semanas depois, entre 29 e 31 de janeiro, voltou à capital fluminense para participação em evento promovido pela Firjan e em encontro da Associação Comercial do Rio de Janeiro, com pagamento de R$ 2,6 mil em diárias.

Em fevereiro, outra viagem ao Rio de Janeiro durou quatro dias. Segundo a justificativa registrada na planilha, a presidente participou de reunião na Abiogás e de encontro com o presidente da Suzano. O deslocamento gerou pagamento de R$ 2,6 mil.

Entre 20 e 25 de fevereiro de 2025, a diretora-presidente voltou a viajar para o Rio de Janeiro. A estatal registrou pagamento de R$ 4,29 mil em diárias. A justificativa menciona reunião com diretor da TBG, participação no evento “Warm Up Gas Week”, em São Paulo, e viagem a Brasília para posse do secretário estadual da Fazenda no Comsefaz.

Os documentos mostram ainda uma viagem entre 18 e 25 de março envolvendo agendas no Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus. Nesse caso, a presidente recebeu R$ 10,4 mil em diárias. Entre os compromissos listados pela companhia estão reuniões no BNDES, assembleia da Abegás, participação no evento “Amazon Oil, Gas and Energy” e encontro com a empresa Naturgy.

Outro registro aponta deslocamento de dez dias ao Rio de Janeiro entre 9 e 19 de maio de 2025. O pagamento foi de R$ 5,2 mil em diárias. Segundo a planilha, a agenda incluiu reunião no BNDES, participação no evento Conexão ATGAS e seminário do Instituto Brasileiro de Petróleo.

Há ainda registros de viagens para participação em seminários sobre energia, fóruns tributários, reuniões em empresas privadas, encontros promovidos por associações do setor e eventos organizados por instituições como Fundação Getulio Vargas, Mitsui, BNDES e Firjan.

Na denúncia foi citada a reportagem publicada em outubro de 2025 por outro veículo de comunicação que revelou que Cristiane Schmidt passou 66 dias úteis daquele ano fora de Campo Grande. Ainda de acordo com a queixa, após a repercussão, o tema deixou de ser explorado pelo veículo por influência do governo estadual.

Segundo a publicação mencionada, a diretora-presidente ficou ausente da Capital em 26,1% dos dias úteis entre janeiro e agosto e recebeu R$ 57,2 mil em diárias no período. No levantamento divulgado à época, o valor representava cerca de 30% de todo o gasto da MSGás com viagens naquele intervalo.

Salário que chega a mais de R$ 1 milhão

O reajuste salarial aprovado para a diretoria da estatal no ano passado também é citado na denúncia. “Sem contar que a arrecadação do Estado vem caindo, governador Riedel aumenta o funcionalismo em 3,4% e sua amiga Cristiane Schmidt em 60%”.

Os valores citados fazem referência ao reajuste aprovado em assembleia da companhia realizada em agosto de 2025. Na ocasião, o salário-base da diretora-presidente passou de R$ 35 mil para R$ 58,5 mil mensais.

Conforme os dados divulgados à época, somados benefícios, gratificações, férias, vale-alimentação, plano de saúde e participação nos lucros, a remuneração anual da presidente da estatal ultrapassaria R$ 1,2 milhão.

A mesma assembleia também aprovou reajustes para outros integrantes da diretoria e alterou os valores pagos aos conselheiros da empresa.

A reportagem também teve acesso a documentos que regulamentam o pagamento de diárias da companhia. O material detalha os valores previstos para viagens nacionais e internacionais e estabelece faixas diferentes conforme o cargo ocupado pelo funcionário.

As tabelas dividem os pagamentos entre diretores, assessores, gerentes e demais funcionários da estatal. Nos deslocamentos ao exterior, os valores destinados à diretoria aparecem sempre nas maiores faixas previstas pela norma interna da empresa.

Diárias para o exterior

Em viagens para países como Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido e Japão, por exemplo, a política da companhia prevê pagamento de US$ 420 por diária para diretores. Para assessores e gerentes, o valor cai para US$ 390. Já os demais funcionários recebem US$ 370.

Em outro grupo de países, que inclui Canadá, México, Rússia e Emirados Árabes, a diária destinada a diretores é de US$ 330. Para gerentes e assessores, o valor previsto é de US$ 320, enquanto os demais viajantes recebem US$ 310.

O documento também prevê pagamento de meia diária em casos específicos, como no dia de saída do país, retorno ao Brasil ou quando hospedagem e alimentação são custeadas por terceiros.

Além da ausência dos registros no portal, a denúncia afirma que os funcionários da estatal não têm a quem recorrer internamente para questionar a situação. “Ficamos todos com as mãos amarradas”.

Por Djeneffer Cordoba

 

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