Ser mãe não é para toda mulher, e está tudo bem!

Foto: Freepik
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O que antes parecia ser uma obrigação hoje já não faz parte da vida de muitas mulheres: a maternidade

A maternidade parece ser algo natural, mas não é. Trata-se de uma escolha individual, mas que muitas vezes é encarada como uma imposição social às mulheres, e aquelas que escolhem dizer não acabam sendo tratadas como solitárias, egoístas e sem sentimento. O “instinto materno” não é algo que nasce com as mulheres, não há comprovação científica disso. É algo aprendido em uma cadeia de eventos que coloca as mulheres como responsáveis pelo cuidado e pelo lar.

Além disso, é preciso olhar também para a revolução sexual feminina. Durante muito tempo, a sexualidade das mulheres esteve diretamente associada à reprodução. Em sociedades mais conservadoras, o sexo era visto principalmente como uma obrigação dentro do casamento e um meio para gerar filhos, enquanto o prazer feminino era ignorado ou até reprimido. Com as transformações sociais, o avanço dos métodos contraceptivos e as conquistas dos movimentos feministas, as mulheres passaram a ter mais autonomia sobre o próprio corpo e suas escolhas. Hoje, a sexualidade também é entendida como parte da identidade, do afeto e do prazer, desvinculando a ideia de que toda mulher nasceu para ser mãe ou de que a maternidade deve ser uma consequência inevitável da vida sexual feminina.

A professora de sociologia e inglês, Carla Edwigs, de 45 anos, escolheu livremente não ser mãe, nunca. Não é uma fase: é uma decisão sobre estilo de vida. A prioridade da cientista social sempre foi construir uma carreira. “Eu queria trabalhar e construir um patrimônio seguro, também teve a questão do casamento, a pessoa certa, e quando me dei conta eu percebi que nunca tive vontade de ter filhos, que parecia mais uma convenção social. Quando eu cheguei aos 35 anos, tive consciência plena de que não me arrependeria da decisão”, conta.

Cansada de ser questionada por sua escolha, Carla rebate a pergunta que sempre lhe fizeram. “E por que ser mãe? Por uma obrigação da sociedade? Para ser mãe tem que ser um ser humano disponível em tempo integral, é uma responsabilidade muito grande e tem que ser levada a sério não é só “ah porque eu amo”. Muitas mulheres que têm filhos não nasceram pra ser mães, eu vejo que quem sofre as consequências são os filhos por uma série de fatores. Mãe e pai ausentes, brigas, falta de planejamento para educar, não se preocupam com a educação dos filhos na escola e no meio social”, desabafa.

Em meio à pressão de familiares e amigos, a professora afirma que se sente constantemente julgada. “Mas quando fui questionada logo perguntei: alguém de vocês vai me ajudar a cuidar? Vai me ajudar financeiramente? Então ninguém fala mais nada. Eu já sou bem resolvida, julgamentos nunca me afetaram profundamente”. Ela afirma que escuta questionamentos do tipo “não vai deixar uma semente no mundo?”, “sua geração vai acabar em você”, ou o clássico: “quem vai cuidar de você na velhice?”. Para ela, esses não são motivos válidos para optar pela maternidade.

Ter a liberdade de poder dizer “não” à procriação foi uma conquista das mulheres ao longo do tempo, diz Carla. “Eu passei pela transição de uma sociedade mais conservadora para uma sociedade mais liberal, onde mulheres trabalham, estudam, podem usar métodos contraceptivos sem julgamento e isso ajudou muito”. Hoje, ela reconhece que tem um ótimo casamento e relacionamentos fortes com familiares e, por esse motivo, não se sente vazia, como muitos julgam. As relações de afeto também podem ser construídas de outras formas.

E, para mulheres que se sentem pressionadas, Carla faz um apelo. “Mulheres, sigam seus sonhos, suas intuições, quando essa vontade parte de você, sem pressão ou influências, não tem arrependimentos, filhos não são garantia de cuidado na velhice, ou de geração futura, filhos devem ser fruto de decisão, amor, tempo e muita responsabilidade, se você não tem a intenção se ser mãe, está tudo bem”.

Maternidade: instrumento de controle
Conforme Vivian da Veiga Silva – socióloga, docente da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/Campus do Pantanal. Historicamente, foram produzidos e reproduzidos diversos discursos que estabeleceram a ideia da maternidade como o foco central das vidas das mulheres.

“Isso decorre da possibilidade feminina de gestação e a interpretação filosófica, médica, religiosa e científica de que essa é a principal função social das mulheres e de que o instinto materno e de cuidados seria natural e parte central da essência feminina. Desde a década de 1960 e o surgimento/popularização dos anticoncepcionais, a maternidade se tornou algo opcional e facilmente evitado”, explica.

Aliado a isso, a especialista destaca que houve fortalecimento dos debates feministas sobre como a obrigação da maternidade é algo construído social, cultural e historicamente, fazendo com que a procriação e a socialização das crianças recaísse exclusivamente sobre as mulheres.

“No entanto, isso não colocou fim a ideia de que a maternidade é o destino feminino. Atualmente, as mulheres ainda são julgadas e cobradas a partir desse critério: as mulheres que são mães são cobradas e julgadas pelo sucesso ou fracasso da socialização dos filhos; as mulheres que não são mães são julgadas por não exercerem sua função natural e taxadas como egoístas. O inverso não se aplica aos homens, que não são cobrados ou julgados em virtude da paternidade. Portanto, a imposição da maternidade às mulheres ainda é utilizada como instrumento de controle e julgamento”, finaliza.

Por Maria Gabriela Arcanjo

 

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