Empresárias se posicionam diante da escalada da violência em MS e transformam negócios em espaços de apoio e conscientização
Diante do aumento dos casos de feminicídio e violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul, empresários de Campo Grande têm utilizado as redes sociais de seus próprios negócios para se posicionar, cobrar ações do poder público e, principalmente, incentivar mulheres a romperem o silêncio.
A mobilização ganha força em um momento crítico. Em apenas três dias, o estado registrou ao menos seis casos graves de violência contra mulheres, incluindo mortes e tentativas de feminicídio na Capital e no interior. Dados recentes também colocam Mato Grosso do Sul entre os estados com as maiores taxas do país, com 181 mulheres assassinadas entre 2021 e 2025.
É nesse cenário que empresas locais passaram a assumir um papel que vai além do comércio.
Posicionamento que vem do público
A loja Prisma Cosméticos, tradicional em Campo Grande, decidiu se manifestar publicamente a favor das mulheres nos casos de violência doméstica, se colocando como um local seguro em que elas podem ser orientadas sobre como buscar ajuda. Nas redes sociais, uma postagem traz os dados alarmantes de agressões, feminicídios e tentativas de feminicídio, alertando para a importância da denúncia para o enfrentamento desse problema.

Foto: Nilson Figueiredo
Ao jornal O Estado, a proprietária da loja, Silvana Mariotti Dalle Grave, explicou que a ideia da postagem é fazer o papel social da empresa, orientando mulheres quanto à gravidade do que é a violência doméstica, uma vez que a maior parte da clientela e do quadro funcional é formado por mulheres de todas as classes sociais, níveis de instrução e que possuem diferentes realidades.
“Aqui a maior parte das funcionárias são mulheres, as gerentes das lojas são mulheres e todo mundo pode conhecer outras mulheres que são violentadas, então, a gente tem esse papel social de falar sobre esse tema, porque, às vezes, a gente passa do lado de uma pessoa e nem sabe que ela pode sofrer violência, então, podemos orientar”, pontuou.
Silvana relatou ainda que, mesmo antes da ideia do post, já presenciou situações em que clientes e funcionárias sofreram algum tipo de violência, evidenciando a necessidade de compartilhar informações e orientar as mulheres inclusive sobre os tipos de violência que existem e que nem sempre agressões são apenas físicas.
“Temos que mostrar também que antes de chegar ao ponto do homem bater ou matar uma mulher, o homem já dá sinais e pratica outras agressões, como xingar, diminuir a mulher, quase nunca começa com agressões físicas”, pontou.
A postagem teve bastante repercussão, especialmente entre o público feminino, de quem a loja recebeu apoio e parabenizações. De acordo com Silvana, ainda não houve relatos de mulheres que buscaram ajuda da loja para realizar uma denúncia, mas, caso aconteça a vítima será bem recebeida e orientada.
“Todos os dias a gente apresenta nossos produtos e estamos na vida dessas mulheres por meio das nossas redes sociais, então, a gente tem que fazer ações que cheguem longe e eu tenho certeza que, de alguma forma, a gente vai ajudar alguma mulher com essa orientação”, finalizou.
Para postagens futuras, o marketing da loja promete continuar a trazer luz para este e outros assuntos de relevância social, usando a ajuda do público nas redes e das clientes para perpetuar informações que podem salvar vidas.
Relato pessoal que virou rede de apoio
Outro exemplo é o da empresária Luana, da loja Riqueza Detalhes, especializada em brindes e personalizados. Ela decidiu romper o silêncio de forma ainda mais direta: gravou um vídeo contando a própria história de violência doméstica.
“Você sabia que eu já sofri violência doméstica? Essa mulher forte, trabalhadora, inspiradora, já foi muito frágil”, disse.
No relato, Luana expõe a dificuldade de falar sobre o tema e busca acolher outras mulheres que vivem situações semelhantes.
“É ruim de contar. É vergonhoso. Mas eu tô fazendo isso pra você se sentir acolhida. Você não tem com quem contar, tem vergonha, tem vários motivos pra continuar nessa situação. Mas não deve ser assim. Pode contar comigo. Vamos lutar juntas”, afirmou.
Ao jornal O Estado, ela contou que a violência aconteceu há cerca de cinco anos, durante o primeiro casamento, e que por muito tempo manteve a situação em segredo.
“A gente teve que esconder tudo, até o divórcio. Depois eu fiquei mais firme. Acho que isso pode dar força para outras pessoas”, disse.
Segundo a empresária, a repercussão do vídeo foi imediata e trouxe à tona histórias de outras mulheres. “Muita gente abriu o coração. Eu tento responder, dar alguma orientação, mas sei que é muito difícil sair dessa situação”, relatou.
Luana também afirma que decidiu entrar na política como forma de ampliar essa luta. “Eu estou cansada de ver isso acontecer. As mulheres precisam de apoio real”, disse.
Violência tem padrão e exige atenção
Especialistas apontam que os casos de feminicídio, na maioria das vezes, não começam com a morte, mas com ciclos de violência que se agravam ao longo do tempo.
Segundo profissionais da rede de atendimento, o rompimento do relacionamento é um dos momentos mais críticos, quando o agressor perde o controle sobre a vítima e pode reagir com violência extrema.
Por isso, campanhas de conscientização e o incentivo à denúncia são considerados fundamentais para interromper esse ciclo.
Pressão por respostas
Além de acolher vítimas, comerciantes também cobram ações mais efetivas do poder público, especialmente diante de falhas na rede de proteção já apontadas por levantamentos recentes.
Casos de mulheres que buscaram ajuda, solicitaram medidas protetivas e ainda assim foram vítimas de feminicídio evidenciam a necessidade de reforço nas políticas públicas.
Enquanto isso, iniciativas como as de empresários locais mostram que o enfrentamento à violência de gênero também passa pela sociedade civil.
Onde buscar ajuda
A violência contra a mulher pode ser denunciada de forma gratuita e sigilosa pelo telefone 180, que funciona 24 horas por dia. Em casos de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.
Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira oferece atendimento especializado, com suporte psicológico, jurídico e social para vítimas.
Para muitas mulheres, no entanto, o primeiro passo ainda é o mais difícil – e, cada vez mais, ele pode começar com uma mensagem vista nas redes sociais de um comércio local.
Mulher é atropelada na BR-262 em tentativa de feminicídio
Uma mulher ainda não identificada deu entrada na Santa Casa, na noite de sexta-feira (8), após ser jogada na rodovia BR-262, na região do Núcleo Industrial Indubrasil, em Campo Grande, pelo então marido, de 44 anos, em uma tentativa de feminicídio.
De acordo com o boletim de ocorrência, a vítima ouviu o marido confessar que teria matado uma pessoa em Mato Grosso e, não concordando com a situação, ela disse que terminaria com ele e, no meio da discussão, ela fugiu e foi perseguida por ele, que não aceitou o fim da relação. Ao que tudo indica, o suspeito a empurrou para a rodovia no momento em que passava um veículo.
A PM (Polícia Militar) foi acionada pelo filho da vítima para prestar socorro e ao chegar no local a encontrou às margens da via, com fraturas e ferimentos. O estado de saúde é grave.
Logo após, os agentes foram ao endereço informado na ligação e encontraram o suspeito, que tentou enganar a polícia usando nomes diferentes, mas, ao cair em contradição, informou seu nome correto. Em checagem ao Sigo (Sistema Integrado de Gestão Operacional), conferiram que o homem tinha um mandado de prisão em aberto contra si e na residência foram encontradas munições calibre 22.
Ele foi encaminhado para a DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), usando algemas, onde prestou depoimento. A vítima ainda não foi ouvida dado o estado de saúde.
Por Suelen Morales e Ana Clara Santos