Menina de 8 anos morre nos braços da mãe na UPA Leblon

Imagem Arquivo
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Quadro gripal evoluiu após quatro atendimentos em unidades de saúde até morte de menina em UPA de Campo Grande

Vinte e dois dias após o caso de uma criança que está sendo investigado sob suspeita de negligência médica, a família de Hannah Julia Romeiro Nolasco, de 8 anos, denuncia que a menina morreu na Unidade de Pronto Atendimento Leblon por falta de medicação, em Campo Grande.

No intervalo de cerca de cinco horas entre os atendimentos, após retornar à UPA Leblon devido ao agravamento do estado de saúde, Hannah morreu nos braços da mãe enquanto aguardava para receber o fármaco receitado pelo médico.

Segundo relatou à reportagem a dona de casa Sara Romeira, de 46 anos, a peregrinação em busca de atendimento começou no CRS Coophavila II (Centro Regional de Saúde), no dia 24 de abril, quando a menina apresentou sintomas gripais, como tosse e febre.

Na ocasião, o médico prescreveu soro e dipirona devido ao quadro febril. A mãe afirmou que, diante da demora para a aplicação da medicação, questionou uma enfermeira sobre o atendimento.

“Na CRS o atendimento com o médico foi rápido. Só que ela precisava tomar soro junto com a dipirona. Como estava com a febre muito alta, a [enfermeira] falou que iria demorar para dar a medicação porque a sala de hidratação estava cheia”, contou Sara e completou:

“Ainda questionei, minha filha estava com quase 39 graus de febre, eu precisava dar alguma coisa. Ela falou assim: ‘Volta e fala com o médico, pergunta se você pode dar dipirona em gotas para ela’”.

Após retornar ao consultório, Sara disse ter recebido autorização para administrar a medicação em gotas, conforme o peso da criança, e voltou para casa.

“[O médico] indicou repouso, passou remédio para enjoo porque ela não queria comer e também um xarope antialérgico”.

Segunda entrada

Mesmo após ser medicada, na segunda-feira (27), três dias depois do primeiro atendimento, a mãe afirma que Hannah acordou com os olhos inchados.

“O médico olhou os exames de sangue que foram feitos na UPA da Coophavilla e falou que era uma infecção viral, influenza”.

Novamente, foi recomendado repouso, além de outras medicações para tratar o inchaço nos olhos. Sara afirmou que procurou atendimento por causa da tosse persistente e da palidez da filha.

Já na terça-feira (28), por volta das 8h, Hannah acordou vomitando, com os lábios arroxeados e sem melhora na palidez. Segundo a mãe, houve cerca de cinco episódios de vômito, enquanto ela administrava remédios para enjoo e tentava manter a filha hidratada.

Por volta das 19h, a menina, retornou à UPA e recebeu pulseira amarela na triagem. Durante o atendimento, realizou exame de sangue, recebeu soro e, após ser medicada, teve alta.

No intervalo de aproximadamente cinco horas entre a saída da unidade e o retorno ao local, o quadro clínico apresentou piora acentuada.

Durante a madrugada de quarta-feira (29), Hannah não conseguia dormir. Na quarta entrada na unidade de saúde, passou por nova avaliação médica. Segundo a mãe, os profissionais descartaram meningite, embora a menina reclamasse de dores na nuca, nos braços e pelo corpo.

“Naquele dia só pesaram ela, não aferiram a pressão. Eu acredito que, se utilizassem aquele aparelho que mede a oxigenação, iria aparecer que ela estava com falta de ar”.

Falta de vaga

A médica solicitou medicação intravenosa, e Sara levou a filha até o setor indicado. No entanto, segundo ela, foi informada de que aquele não era o local correto para o procedimento.

“Mandaram eu ir para outra área. Quando cheguei lá, disseram que não havia vaga para atender. Não tinha maca no local de internação e mandaram eu voltar para a sala de medicação”.

Ainda sem definição e sem receber o medicamento, a criança desmaiou nos braços da mãe. Foi nesse momento, conforme o relato, que a equipe percebeu a gravidade da situação.

“Um paciente foi tirado da cama e colocaram a minha filha. Mas já era tarde. Naquele instante, eu acredito que ela morreu”.

A mãe descreveu momentos de correria dentro da unidade, além da dificuldade da equipe em encontrar uma veia da menina. Na sala de espera, os familiares foram informados de que Hannah seria entubada.

“Ficaram mentindo para a gente. Não fizeram nada, foi negligência total. Eu só queria que aplicassem a medicação nela, e isso não aconteceu”.

Após quatro passagens por unidades de saúde com sintomas gripais, Hannah morreu na unidade. Segundo a família, os médicos teriam informado que “o coraçãozinho dela estava fraco”.

Por volta das 6h05, Sara recebeu a confirmação de que não levaria a filha para casa. Questionada sobre a vacinação da menina, afirmou que o esquema vacinal estava em dia.

A família, que já conta com acompanhamento jurídico, afirma que ainda não recebeu posicionamento da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde).

Procurada pela reportagem para comentar o caso, a secretaria não respondeu até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.

Caso sob investigação

João Guilherme Pires, de 9 anos, morreu na Santa Casa de Campo Grande, no dia 7 de abril, após passar sete vezes por UPAs devido a uma fratura no joelho.

O caso segue sob investigação por possível falha no atendimento. O presidente da Associação de Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul, Valdemar Moraes de Souza, afirmou que, nesta sexta-feira (8), conseguiu retirar o prontuário junto à Sesau.

Segundo ele, na próxima semana deverá apresentar um posicionamento sobre o que, de fato, aconteceu com o menino.

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