Entre pedras e caminhos: a Rota Bioceânica, uma rota que sempre existiu

Há caminhos que não aparecem nos mapas. Não porque não existam, mas porque são antigos demais para caber nas nossas formas modernas de desenhar o mundo. Caminhos que não foram projetados, mas vividos. Que não nasceram de acordos diplomáticos, mas de passos.

Muito antes de alguém falar em integração continental, a América do Sul já se conectava por dentro. Há cerca de 10 a 12 mil anos, ou mais, grupos humanos percorriam o que hoje chamamos de Mato Grosso do Sul, Paraguai e norte da Argentina, seguindo corredores naturais entre o Cerrado, o Pantanal e as paisagens que, mais adiante, se transformam na aridez andina. O território não era fixo — era construído no movimento. E o movimento deixa marcas. Nas rochas de Alcinópolis, no Mato Grosso do Sul, especialmente em sítios como a Gruta da Mesa e o Templo dos Pilares, persistem pinturas e gravuras rupestres que não são apenas imagens: são gestos fixados no tempo. Linhas, formas geométricas, figuras zoomórficas, antropomórficas, se sobrepõem como se diferentes gerações conversassem entre si pela similaridade dos símbolos encontrados. Ali, a rocha não guarda apenas desenhos — guarda memória. E não está sozinha.

Seguindo esse mesmo eixo, a paisagem se transforma, mas o caminho continua.

No Cerro Corá, entre colinas cobertas por vegetação, também aparecem grafismos gravados em rocha. Pegadas, sinais, marcas repetidas que parecem indicar passagem, orientação, presença.

Mais adiante, já no território argentino, em regiões como Antofagasta de la Sierra, o cenário muda. O verde cede lugar ao árido, ao aberto, ao mineral. Mas os grafismos permanecem. Pinturas e gravuras surgem nos abrigos rochosos, compondo repertórios que, mesmo adaptados ao ambiente, dialogam com aqueles encontrados a leste. O que muda é a paisagem. O que permanece é a lógica do caminho.

As pinturas e gravuras rupestres distribuídas entre Brasil, Paraguai e Argentina sugerem algo maior do que coincidência. Indicam que essas populações não apenas se deslocavam — compartilhavam formas de ver, marcar e compreender o mundo. Talvez essas marcas fossem caminhos. Talvez fossem histórias. Talvez fossem formas de dizer: “alguém esteve aqui — e isso importa”.

Hoje, esse percurso ganha um novo nome: Rota Bioceânica. Uma estrada que pretende ligar o Atlântico ao Pacífico, conectando Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. Uma obra de infraestrutura, sim — mas também um gesto de reconexão. Um projeto que atravessa biomas distintos — o Pantanal brasileiro, o Chaco paraguaio e as paisagens andinas — e que, por isso mesmo, carrega um potencial que vai além da economia. Porque essa rota não transporta apenas cargas. Ela transporta encontros.

Ela abre caminhos para o turismo cultural e de natureza, permitindo que pessoas atravessem territórios diversos e conheçam não apenas paisagens, mas modos de vida, histórias e formas distintas de habitar o mundo. Museus, sítios arqueológicos, comunidades locais — tudo passa a fazer parte de um percurso que, no fundo, sempre existiu.

Mais do que uma obra econômica, a rota fortalece o intercâmbio entre pessoas, saberes e experiências. Aproxima universidades, pesquisadores e comunidades. E, nesse movimento, ajuda a construir algo mais profundo: uma identidade sul-americana vivida, sentida, compartilhada.

E é nesse ponto que Mato Grosso do Sul ocupa um lugar estratégico. A região de Porto Murtinho tende a se transformar. De margem a eixo. Limite à travessia. A cidade passa a se abrir para o continente, intensificando suas conexões com os países vizinhos.

Mas toda travessia exige cuidado. A obra ainda enfrenta desafios — trechos a serem concluídos, especialmente na Argentina. E há impactos que exigem atenção: o risco de desmatamento, a pressão sobre biomas como o Pantanal e o Chaco, a expansão de fronteiras, que nem sempre respeitam os ritmos da natureza. A integração precisa ser também responsabilidade.

Afinal, os territórios que hoje atravessamos com máquinas já foram atravessados com conhecimento. Antes do asfalto, havia trilhas. Antes da engenharia, havia experiência da paisagem. Antes da integração econômica, havia comunicação. As pinturas e gravuras rupestres de Alcinópolis, de Cerro Corá e de Antofagasta são testemunhos disso. Elas não apenas ocupam a rocha — elas conectam lugares.

Talvez o que chamamos hoje de Rota Bioceânica seja apenas a atualização de um caminho muito mais antigo. Um caminho que sempre existiu. Porque, no fundo, a América do Sul nunca foi fragmentada. Ela sempre foi linguagem. Ela sempre foi encontro. Ela sempre foi travessia.

Lia Raquel Toledo Brambilla Gasques é Arqueóloga, Professora da FACH/UFMS e Pró-reitora de Extensão Cultura e Esporte da UFMS. E-mail: lia.gasques@ufms.br.

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.

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