A primeira mulher a disputar o Executivo do Estado foi Rita de Cássia Gomes Lima (Prona), em 1994
Sem mulheres na cabeça de chapa, a disputa pelo governo de Mato Grosso do Sul em 2026 volta a evidenciar a dificuldade de candidaturas femininas alcançarem o principal cargo do Executivo estadual. Até o momento, nomes como Eduardo Riedel (PP), Fábio Trad (PT), João Henrique Catan (Novo), Lucien Rezende (Psol), Renato Gomes (DC) e Jeferson Bezerra (Agir) aparecem como pré-candidatos, todos homens.
Na atual configuração, a única mulher em chapa majoritária é Gilda Maria dos Santos (PT), esposa de Zeca do PT, indicada como pré-candidata a vice-governadora na composição encabeçada por Fábio Trad (PT).
O cenário reforça um histórico de baixa participação feminina. A primeira mulher a disputar o governo do Estado foi Rita de Cássia Gomes Lima (Prona), em 1994. Anos depois, em 2002, a então deputada federal Marisa Serrano (PSDB) chegou ao segundo turno da eleição, registrando o desempenho mais expressivo de uma mulher na disputa pelo Executivo estadual.
Mesmo com esse avanço pontual, a presença feminina nunca se consolidou. Em 2022, por exemplo, duas mulheres voltaram a disputar o governo, Rose Modesto e Giselle Marques, mas nenhuma chegou à fase final da eleição.
Para a vereadora Luiza Ribeiro (PT), a ausência atual não é pontual, mas resultado de uma estrutura que limita a participação das mulheres desde a base. “Avalio como um reflexo de uma construção social que ainda coloca a mulher em um lugar muito restrito, ligado ao cuidado da casa, dos filhos e da família. Isso impacta diretamente na participação política”, afirma.
Ela destaca que o problema também passa pelos partidos. “Existe uma combinação de fatores. Um deles é a própria estrutura social, que ainda sobrecarrega a mulher com responsabilidades domésticas. Outro ponto é a organização dos partidos, que seguem, em sua maioria, com estruturas hierárquicas dominadas por homens”, diz.
Segundo a parlamentar, sem mudanças internas, o cenário tende a se repetir. “Falta incentivo, falta investimento e, principalmente, falta abrir espaço de fato”, completa.
Já a vereadora Ana Portela (PL) aponta que a presença feminina na política ainda carrega marcas de participação limitada. “Por muito tempo nós, mulheres, fomos convidadas para entrar nas eleições só para cumprir a cota, que é aquele percentual de 30% exigido pela Justiça Eleitoral”, afirma.
Ela avalia que, apesar das dificuldades, há uma mudança em curso. “Hoje eu vejo que cada vez mais as mulheres querem participar da política, até porque nós temos um olhar diferenciado para tudo que fazemos na vida”, diz.
Ao falar do próprio partido, Ana Portela destaca o incentivo a novas lideranças femininas. “Hoje a gente tem a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tem um movimento político feminino muito forte. Eu a vejo como uma liderança, e ela sempre defende que as mulheres precisam estar nos espaços de poder”, afirma.
“Tendo ela como referência, entendo que o meu partido quer, sim, eleger mais mulheres, não por serem mulheres, mas porque têm capacidade para ocupar esses espaços”, completa.
Mesmo assim, a vereadora reconhece que o avanço ainda depende de maior engajamento. “Acho que falta, dentro do nosso Estado, mais mulheres que queiram realmente lutar pelas pessoas e que entendam que a política impacta diretamente a vida da gente em tudo”, afirma.
Para as parlamentares, a repetição de chapas lideradas por homens não é apenas um reflexo eleitoral, mas resultado de barreiras estruturais que ainda limitam o acesso das mulheres aos espaços de poder. Sem mudanças internas nos partidos e maior incentivo às candidaturas femininas, a presença no topo das disputas segue como exceção no Estado.
Danielly Carvalho