Corpo Fantasma – Protótipo A

Foto: Lunar Fotografia/Divulgação
Foto: Lunar Fotografia/Divulgação

Espetáculo explora o corpo como laboratório de experimentação, unindo dança, literatura e artes visuais em diálogo com história, folclore e o tempo

 

Em Campo Grande, um projeto artístico em desenvolvimento vai investigar as mudanças e possibilidades do corpo humano por meio da dança, literatura e artes visuais. Com o título provisório Corpo Sobre Penas, a obra é idealizada pelo artista sul-mato-grossense Halisson Nunes e tem previsão de estreia ainda neste primeiro semestre.

A iniciativa, contemplada pelo FMIC (Fundo Municipal de Investimento à Cultura), combina referências de clássicos literários e artísticos para investigar como o corpo se molda e se reinventa em diferentes contextos.

Foto: Lunar Fotografia/Divulgação

Inspirado em obras como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, nos Retirantes de Portinari e nas construções do Frankenstein, o projeto propõe uma reflexão sobre o corpo enquanto campo de múltiplas forças. Halisson Nunes explica que a intenção não é reproduzir essas obras, mas dialogar com os conceitos centrais de escassez, travessia, sobrevivência e transformação.

O espetáculo nasce de um processo criativo que une dança, literatura e artes visuais, explorando o corpo como espaço de sobreposição de partes e experiências. Segundo o artista, a ideia é provocar no público uma percepção ampliada sobre a corporalidade e sua relação com o tempo e o ambiente.As apresentações estão programadas para ocorrer no Hotel Gaspar, em Campo Grande, um local carregado de história e simbolismo.

Trabalho e pesquisa

A proposta inicial de Halisson Nunes, concebida em 2024, passou por atualizações ao longo de 2025. Após uma residência artística em Piracaia, em janeiro, com o artista paulista Fernando Martins, surgiu o convite para que ele contribuísse na direção artística e na criação da trilha sonora do projeto.

Desde então, a comunicação entre os artistas se manteve constante, garantindo que a essência do trabalho e os temas discutidos permanecessem conectados ao longo do processo.

Para o Jornal O Estado, Fernando conta que As obras de Cândido Portinari, especialmente a série Retirantes, inspiram a construção do corpo na dança a partir de tensões entre deslocamento e ausência de horizonte. Nessa perspectiva, corpo e ideias se desdobram, recolhendo forças e suspendendo movimentos superficiais, para que cada gesto seja carregado de presença e significado. A pesquisa estética propõe que o essencial emerja, revelando uma poética marcada pelo cansaço, pela fome e pela suspensão de perspectivas, criando uma languidez que percorre cada gesto.

“Cada movimento é pensado para carregar potência e necessidade de vida. Trabalhamos esticando o tempo de resposta, ampliando a presença e permitindo que cada micro-movimento fale por si, como linguagem do corpo”, explica o artista.

A metáfora do corpo “costurado”, inspirada em Frankenstein, serve como reflexão sobre identidade e o excesso de informação no mundo contemporâneo. No espetáculo, o corpo se desmonta e se recompõe, criando sentido e identidade a partir de fragmentos reunidos em gestos precisos. Cada movimento conecta-se ao próximo, formando um ciclo que transforma o corpo em linguagem e expressão artística.

“Trabalhar o corpo como um campo de edição nos permite selecionar, costurar e dar continuidade aos gestos, encontrando novos caminhos de criação em meio ao excesso de informação que nos cerca”, afirma Fernando.

Fernando Martins – Foto: Lunar Fotografia/Divulgação

Arte e trajetória

Com 39 anos de trajetória na dança nacional e internacional, Fernando Martins destaca que o tempo é elemento central no processo.

“Algo importante aqui é a presença da ‘lentidão’ como prática na criação. Em um contexto onde tudo nos empurra para respostas rápidas e produções aceleradas, escolher a lentidão é quase um gesto político. A lentidão cria um espaço de escuta: do corpo, do outro, do que ainda não tem nome. Sem ela, corremos o risco de apenas reproduzir formas já dadas, de montar corpos e discursos sem perceber de onde vêm suas partes”.

Intercâmbio artístico: MS e SP – A pesquisa segue em expansão, com a ida de Halisson Nunes para São Paulo. O deslocamento de território impacta diretamente o processo criativo, “Quando o corpo muda de lugar, ele muda a forma de perceber e reagir. Isso faz o trabalho crescer e ganhar novas camadas”, destaca Fernando.

A escolha pela lentidão no processo criativo transforma a experiência do público, deslocando o foco da narrativa linear para a produção de intensidades. No espetáculo, o objetivo não é contar uma história, mas criar forças que atravessam o público e provocam movimento, mesmo sem compreensão racional completa. Essa abordagem valoriza o tempo de percepção e sustenta um campo sensível em que cada gesto em cena gera impacto direto.

“A lentidão permite que o espectador sinta, e não apenas entenda. Cada intensidade que emerge do corpo em cena cria deslocamentos, mesmo o não sentir é parte dessa experiência”, revela o artista.

Hotel Gaspar

As apresentações do espetáculo Corpo Sobre Penas acontecerão no histórico Hotel Gaspar, espaço carregado de significado por sua associação à transitoriedade, tema central da obra. Desde sua inauguração em 1956, o local foi ponto estratégico de chegada e partida de viajantes, conectado à antiga estação da Ferrovia Noroeste do Brasil.

Chamado carinhosamente de “pai dos viajantes”, o hotel foi cenário de encontros, despedidas e muitas histórias de deslocamento. “O espaço conversa diretamente com a ideia de retirância que atravessa o projeto. Embora atualmente não funcione como hotel, ele recebe esta intervenção especial, mantendo viva sua relevância histórica”, explica Halisson.

Ainda em fase de finalização, Corpo Sobre Penas coloca o corpo como protagonista da narrativa e será apresentado gratuitamente ao público. As sessões contam com a parceria da Central Única das Favelas (CUFA), que organiza a arrecadação de alimentos e itens de higiene durante os eventos.

O projeto Corpo Fantasma é financiado pelo Fundo Municipal de Investimentos Culturais e recebe apoio da Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande, vinculada à Prefeitura, fortalecendo a cena artística local e promovendo cultura acessível à comunidade. (Com Assessoria).

 

Por Amanda Ferreira

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