Conforme o dicionário de sinônimos, benzer significa: abençoar e sagrar. Já pelo dicionário online da lingua portuguesa, o ato de benzer siginifica “invocar a proteção do céu sobre pessoas ou coisas”. Esse tipo de conhecimento, que passa de geração a geração recai, indiscutivelmente sob os ombros das mulheres de uma família ou comunidade. Esse é um dos temas abordados pelo espetáculo ‘Enquanto Houver Rezas’, da Cia Perspectiva, que estreia nos dias 8 e 9 de maio, no Teatro Aracy Balabanian, em Campo Grande.
O espetáculo trará para os palcos uma criação que atravessa memória, cultura popular, ancestralidade e o lugar das mulheres que aprendem, desde cedo, a cuidar, rezar, benzer e preservar saberes.
Com dramaturgia e direção de Natan Soares, a montagem acompanha Maria, Rosa e Esperança em um universo formado por cantos, plantas, gestos de cuidado, fé cotidiana e pequenas práticas de cura presentes na cultura popular brasileira. A peça investiga a relação entre mulheres de diferentes idades, o conflito geracional, o desgaste de quem cuida demais e a delicada tarefa de manter vivos conhecimentos que passam de boca em boca, de mão em mão e de corpo em corpo.
Mais do que narrar uma história, ‘Enquanto Houver Rezas’ constrói uma atmosfera íntima e profundamente brasileira, em que música, silêncio e presença física transformam a cura em linguagem compartilhada. A montagem lança luz sobre o esforço de preservar os saberes das benzedeiras diante do risco do apagamento e das tensões entre gerações, revelando como essas práticas populares podem ser mantidas, transformadas e atualizadas no contexto contemporâneo. Ao mesmo tempo, a obra toca em questões atuais sobre o esgotamento e a invisibilidade do cuidado feminino.
Destaque
O cenário é um dos pontos focais do espetáculo, sendo uma extensão da dramaturgia da peça, mas sem representações integrais, ficando no campo do subjetivo, remontando um quintal, a sala da casa da vó, um abrigo. A intenção é que o público reconheça ali algo na própria história: uma avó, uma mãe, uma vizinha, uma mulher que cuidava com as mãos e ensinava sem precisar explicar demais, criando um recorte poético do lugar da reza e da benzedura.
Pensado por Natan Soares o cenário é um espaço simbólico, construído para acolher a cena e dialogar com espaços alternativos, ampliando as possibilidades de circulação do espetáculo. Para a companhia, essa construção representa um gesto novo e de grande dimensão, tanto na trajetória da própria Perspectiva quanto na cena teatral do estado.
‘Enquanto Houver Rezas’ também se sustenta em um encontro intergeracional que atravessa as trajetórias das três intérpretes. Iza Soares, que interpreta Maria, vive sua primeira peça no teatro, o que traz à montagem uma camada de descoberta e entrega. Debora Januário, no papel de Rosa, trabalha a tensão entre cuidado e esgotamento. Já Pietra Silva, intérprete de Esperança, ocupa o lugar da escuta, da aprendizagem e da continuidade.
A relação entre as três mulheres cria um retrato sensível da cultura popular brasileira. Em cena, rezas, plantas, cantos e atividades cotidianas revelam uma forma de conhecimento presente na experiência vivida. O espetáculo também destaca o peso de se doar demais e a urgência de preservar os saberes herdados antes que eles desapareçam.
Para Natan Soares, a peça nasce do desejo de tornar visível aquilo que tantas vezes é ignorado.
“A peça fala de benzedeiras, mas fala também de família, de transmissão, de memória e do peso de se doar demais. A gente quis construir uma cena onde o público reconheça algo que talvez já tenha vivido dentro de casa, com uma avó, uma mãe, uma vizinha… as atrizes se doaram bastante e ajudaram também na construção do todo.”
A atriz Iza Soares destaca a dimensão pessoal desse trabalho, já que esta é sua primeira experiência no teatro “Fazer Maria em Enquanto Houver Rezas é muito especial para mim porque é minha primeira peça. E começar com uma personagem que carrega tanto cuidado, tanta força e tanta memória é um presente enorme. Maria me ensina sobre tempo, sobre escuta e sobre o valor de quem sustenta o outro sem aparecer.”
Debora Januário, que interpreta Rosa, vê na personagem uma camada muito humana da obra. “A Rosa traz o esgotamento de quem cuida de todo mundo e, ao mesmo tempo, a vontade de não continuar repetindo isso sem descanso. Ela é muito próxima da realidade de muitas mulheres. É forte, mas também cansada, cheia de afeto, de medo e de dúvida.”
Para Pietra Silva, que vive Esperança, a peça fala sobre o futuro sem romper com o passado. “A Esperança representa alguém que aprende olhando, ouvindo e vivendo junto. Ela é o futuro, mas um futuro que não esquece de onde veio. É uma personagem que carrega o que recebeu e tenta transformar isso em continuidade.”
Da memória para os palcos
A Cia. e Produtora Perspectiva vem consolidando sua trajetória em Campo Grande/MS como um coletivo de jovens artistas comprometido com diversidade e valorização de narrativas ligadas ao cotidiano, ao território e à cultura popular. Ao longo de sua caminhada, a companhia vem desenvolvendo espetáculos, ações formativas e oficinas, além de iniciativas como o Sarau Perspectivas, voltado ao encontro entre diferentes linguagens e públicos, e projetos de pesquisa corporal que fortalecem sua atuação artística. Sob direção de Natan Soares, a Perspectiva também assina trabalhos como a adaptação sulmato-grossense de Don Juan, reafirmando uma linguagem própria em que estética, pensamento e território caminham juntos.
Em ‘Enquanto Houver Rezas’, essa pesquisa ganha uma dimensão ainda mais ampla. A montagem foi pensada para teatros, mas também para espaços alternativos, ampliando seu alcance e sua vocação de encontro com diferentes públicos. É um espetáculo que convida o público a reconhecer, em cena, uma memória comum, um Brasil de conhecimentos populares e poéticos.
A obra lança uma pergunta que atravessa toda a experiência: como os conhecimentos da cultura popular continuam vivos?
A resposta aparece na cena, nos gestos, nas músicas, nas plantas, no cuidado e nas relações entre mulheres que seguem ensinando sem pedir palco para isso. É um espetáculo para lembrar o valor do cuidado, refletir sobre o peso que ele assume na vida das mulheres e perceber que certas memórias só existem enquanto alguém decide não as deixar desaparecer.
Ingressos estão disponíveis na Plataforma Sympla, com valor de R$30,00 inteira, e R$15,00 meia-entrada. Nos dias do espetáculo, o público também é convidado a participar de uma campanha do agasalho, contribuindo com a doação de roupas de frio em bom estado. A ação amplia, para além da cena, o gesto de cuidado que atravessa a obra.
A dramaturgia fica por por conta de Natan Soares. O elenco conta com Débora Januário, Iza Soares e Pietra Silva; a produção é de Manu Silva, bem como no Cenário, que também traz Osmano da Silva Thiago Bartô e Natan Soares. Figurino e Sonoplastia é de Dayane Bento e Natan Soares, respectivamente.
Serviço: O espetáculo ‘Enquanto Houver Rezas’ será nos dias 8 e 9 de maio, às 19h30, no Teatro Aracy Balabanian, no Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande. Mais informações e atualizações podem ser consultadas nas redes sociais da Cia Perspectiva: @produtoraperspectivas e @ciaperspectiva
Por Carolina Rampi