Artista de MS leva exposição para a Pinacoteca de São Paulo em feito único

A artista: Natural de Aparecida do Taboado, Alice Yura voa alto e leva sua arte para São Paulo - Foto: Interpolada/divulgação
A artista: Natural de Aparecida do Taboado, Alice Yura voa alto e leva sua arte para São Paulo - Foto: Interpolada/divulgação

Primeira artista de MS a realizar uma exposição individual na Pinacoteca de São Paulo, Alice Yura, une memória, identidade e participação do público em um dos principais museus da América Latina

 

Para quem nunca visitou a Pinacoteca de São Paulo ou sente falta da experiência de percorrer um dos maiores museus da América Latina, eu trago aqui, para você leitor do Jornal O Estado, um pouco dessa vivência a partir da exposição “Um ato fotográfico”, da artista sul-mato-grossense Alice Yura.

Natural de Aparecida do Taboado, a artista se torna a primeira de Mato Grosso do Sul a realizar uma exposição individual no museu, com uma proposta que une fotografia, memória e identidade, além de promover oficinas abertas ao público durante o período expositivo.

Foto: Interpolada/divulgação

Em cartaz no edifício Pina Contemporânea, a mostra nasce do aprofundamento de sua pesquisa artística, que articula imagens recentes de um conjunto de arquivos pessoais herdados ao longo da vida. Fotografias, documentos e objetos se conectam para construir uma narrativa que ultrapassa o registro visual e se aproxima de um campo mais amplo de investigação sobre memória e autobiografia.

A exposição se estrutura a partir de ensaios que colocam o corpo da artista como ponto central das obras, conectando histórias familiares e explorando temas como ancestralidade, imigração e papéis de gênero. Como desdobramento, um estúdio fotográfico instalado no espaço convida o público a participar da proposta, enquanto Alice Yura também conduz oficinas gratuitas, ampliando a experiência para além da contemplação.

Identidade e memória

Em entrevista ao Jornal O Estado, a artista Alice Yura destacou o caráter íntimo e familiar da exposição. Segundo ela, a construção da mostra parte de reflexões sobre identidade e memória, elementos centrais em sua produção artística, que dialogam não apenas com sua trajetória pessoal, mas também com experiências coletivas.

“Eu acho que identidade e memória são temas muito presentes nos meus trabalhos e que se conectam com todas as pessoas, mesmo que cada uma tenha sua própria história. A exposição parte de uma experiência pessoal, mas não fica limitada a isso, ela busca criar uma conexão mais ampla, tocando em questões coletivas e sociais que fazem parte da vida de todo mundo”, afirma.

Ao expandir a narrativa da mostra, Alice também incorpora discussões sobre corpo e representação, especialmente na série “Resta de Carnaval”. Nesse conjunto, a artista propõe um diálogo direto com a história da arte ocidental, tensionando padrões estabelecidos e reposicionando novos corpos e vivências no centro da construção imagética.

“Eu gostaria que, a partir desses trabalhos, as pessoas pudessem construir um novo imaginário sobre as histórias de pessoas trans. Durante muito tempo, esses corpos foram retratados de forma pejorativa ou até caricata. O que eu faço aqui é colocar o meu corpo, enquanto mulher trans, no centro dessa narrativa, em diálogo com a iconografia da história da arte ocidental. É uma forma de dar a esse corpo o lugar que ele merece, não como algo vulnerável ou descartável, mas como parte fundamental da construção visual e simbólica da arte”, destaca Alice.

Representatividade

A presença de Alice Yura na Pinacoteca de São Paulo também marca um momento simbólico para a produção artística de Mato Grosso do Sul. Ao ocupar um dos principais espaços expositivos do país com uma mostra individual, a artista amplia a visibilidade de narrativas e linguagens que partem do Centro-Oeste.

“Está sendo uma experiência de muita alegria e satisfação. Eu me sinto feliz e honrada em poder levar o nome de MS e de Aparecida do Taboado para um museu com tanta visibilidade. É uma oportunidade de mostrar que a arte contemporânea produzida no nosso estado vai além dos estereótipos, abordando temas como imigração, formação das famílias e o uso da fotografia na construção artística. Acho que isso fortalece e amplia a forma como o nosso estado é visto dentro do cenário da arte”, afirma.

Foto: Interpolada/divulgação

Curadoria

Em entrevista ao Jornal O Estado, o curador Thierry Freitas, detalhou o processo de construção da exposição . Segundo ele, o trabalho de curadoria partiu de um acompanhamento de longa data da produção da artista e de um diálogo iniciado anos antes, quando uma obra dela passou a integrar o acervo do museu, especialmente por afinidades com temas como corpo, família e memória.

“O processo de curadoria vem de uma relação que já tínhamos com o trabalho da Alice há algum tempo. Esse diálogo começou há cerca de dois ou três anos, quando adquirimos uma obra dela para o acervo da Pinacoteca. O trabalho dela dialoga muito com questões que são importantes para nós, como as diferentes noções de família e a representação do corpo. A partir disso, a gente passou a acompanhar mais de perto a produção dela e a pensar na possibilidade de uma exposição.”

Ele explica que o convite se concretizou a partir da nova Galeria Praça, espaço inaugurado recentemente no edifício Pina Contemporânea, pensado justamente para projetos que permitem maior experimentação curatorial.

“Essa exposição acontece nesse espaço mais recente do museu, que tem um caráter mais experimental. A produção da Alice se encaixou muito bem nessa proposta, porque ela trabalha com recortes que dialogam entre diferentes momentos da sua trajetória. A gente conseguiu construir uma mostra que conecta trabalhos mais recentes com obras de anos anteriores, criando um diálogo direto entre eles, o que, para nós, é um dos pontos mais interessantes da exposição”, destaca.

Foto: Interpolada/divulgação

Segundo ele, a mostra se desenvolveu ao longo do tempo como um organismo vivo, passando por diferentes versões até chegar ao formato atual, construído em diálogo direto entre curadoria e artista.

“Essa é justamente a beleza de fazer uma exposição: ela vai se construindo como um organismo vivo. As ideias vão se cruzando, se transformando, às vezes se refazendo ao longo do processo. Essa exposição já teve vários formatos até chegar ao que está hoje, que foi o que mais nos satisfez.”

Ele também ressaltou a participação ativa da artista na concepção da mostra, especialmente no que diz respeito à relação com o público.

“A conversa com a Alice influenciou diretamente a exposição. Ela é uma artista que também atua como educadora, e isso aparece muito no trabalho dela. Desde o início, ela trouxe a ideia de um estúdio fotográfico dentro da mostra, para que o público pudesse participar, produzir imagens e fazer parte desse processo. Isso acabou se tornando um eixo central da exposição”, finaliza.

Foto: Interpolada/divulgação

Serviço

A exposição “Um ato fotográfico”, da artista Alice Yura, segue em cartaz na Pinacoteca de São Paulo até o dia 13 setembro. As inscrições para as oficinas e informações detalhadas estão disponíveis no site da Pinacoteca: https://pinacoteca.org.br/programacao/atividades/oficinas/no-atelie-com-alice-yura/.

 

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