Exposição na galeria de vidro joga luz as violências visíveis e invisíveis contra a mulher
Além do prazer contemplativo que a arte pode proporcionar, é preciso trazer temas relevantes e mostrar a realidade de grupos oprimidos, por exemplo, como na exposição ‘A violência nossa de cada dia’, do arquiteto e artista visual Fernando Castilho, que estreia nesta quarta-feira (15), na Galeria de Vidro, em Campo Grande.
Em sua primeira exposição, Fernando parte do universo da violência contra mulher para provocar reflexão sobre as violências visíveis e invisíveis que atravessam todos nós. Com linguagem acessível e formas descomplicadas, o artista concentra-se no essencial: denunciar sistemas de violência, explícitos e implícitos na sociedade, em um conjunto de vinte obras em acrílica sobre papel.

Fotos: Acervo pessoal Fernando Castilho
Do visível ao escondido
A indignação diante da violência de gênero, do machismo estrutural e da misoginia foi o ponto de partida para FerCastilho criar composições visualmente impactantes, marcadas por cores intensas, gestos rápidos e texturas densas. Ponto de partida porque, ao se misturar com o tema, o artista mergulha e expande as possibilidades de fruição da obra, propondo uma reflexão sobre os movimentos e as marcas da violência — visíveis e invisíveis — que atravessam o cotidiano não apenas ao que diz respeito a gênero, mas que perpassam a vida de todos nós.
“Não se trata apenas da violência explícita, mas daquela que se infiltra nas palavras, nos gestos e nos silêncios. Uma violência difusa, naturalizada, que habita nossas relações profissionais, familiares e sociais – muitas vezes sem que reconheçamos como tal”, explica Fernando.
“Nas obras, eu trabalho com a figura da mulher para além da representação, mas, sim, como território simbólico das marcas das violências que ocorrem no nosso cotidiano. Aproprio-me da figura feminina para expor as violências que todos cometemos, a nós mesmos e aos outros, diariamente, muitas vezes, sem darmos conta. Reconhecer o machismo estrutural como componente da nossa cultura social é fundamental para conseguirmos mudar a realidade”, complementa.
Clareza
Para que as obras possam transmitir o tema, em níveis objetivos e subjetivos, o artista usa formas que são acessíveis, descomplicadas e focadas no essencial, além de cores agressivas, gestos violentos e texturas. “Uma descarga pura de adrenalina, criando tensão visual, provocando sentimentos fortes e desconfortos. Essa experiência faz o espectador conectar-se com a obra em um nível mais profundo, ativando emoções intensas e reflexões sobre as suas agressividades adormecidas. Reconhece-las é o primeiro passo para combate-las”, explica em entrevista ao Jornal O Estado.
As obras buscam tensionar esse campo invisível, convocando o espectador a um deslocamento: do olhar que observa para o olhar que se reconhece implicado. Que violências carregamos? Em que medida participamos dela? E, sobretudo, como interrompê-la?
“O propósito da exposição é levar o espectador a uma conscientização de que a violência não é um ato externo, cometido por “outros”, mas sim um componente estrutural da psique humana e das relações sociais, é um processo profundo de responsabilização e reconhecimento da nossa própria sombra. Reconhecer a violência em nós mesmos – os pensamentos de vingança, a raiva, a inveja – é o primeiro passo para não agir. A conscientização permite transformar o ímpeto destrutivo em ações construtivas e laços sociais mais éticos”, diz o artista.

Fotos: Acervo pessoal Fernando Castilho
Dois tipos de arte
A trajetória de Fernando começou como arquiteto e urbanista, inclusive com trabalhos como a revitalização da Morada dos Baís. Para ele, o arquiteto é um profissional que “aprende a esculpir o vazio, transformando a técnica em poesia habitável”, criando espaços que tocam a alma.
“A composição arquitetônica e a composição artística compartilham a base fundamental de organizar elementos visuais para criar harmonia, equilíbrio e significado. Ambas visam criar experiencias esteticamente qualificadas. Nessa exposição o arquiteto e o artista visual se misturam na busca de uma expressão artística que reflete a vida humana”.
Ele comenta que, após mais de 30 anos dedicado a arquitetura e ao ensino, essa nova estrada nas artes visuais representa uma gama totalmente nova de possibilidades.
“A semente das artes visuais foi plantada em mim durante a minha formação como arquiteto. Passei mais de 40 anos regando essa sementinha com meu fazer arquitetônico e na minha atuação como docente. Aprendi muito sobre o ser humano e seus desejos e também que a interação com o outro é motor do desenvolvimento cognitivo, emocional e da constituição do próprio conhecimento. A exposição para mim é meu ‘elixir da vida’ se o vento soprar a favor, será a imortalidade e rejuvenescimento eterno (risos), finaliza.
Mais do que denunciar, a exposição propõe um gesto de consciência – um convite a romper com a repetição silenciosa da crueldade e a imaginar outras formas de estar no mundo.
Sobre o artista
Fernando Castilho se formou em arquitetura e urbanismo no Rio de Janeiro em 1980, tendo sido aluno das artistas plásticas e carnavalescas Rosa Magalhães e Maria Augusta Rodrigues. Deu aula no curso de arquitetura por mais de três décadas, foi coautor da revitalização Morada dos Baís e Anexo (1993) e integrou a equipe que elaborou o Plano Local das Zonas de Interesse Cultural do Centro – ZEICs Centro – em Campo Grande. Participou da II Bienal de Arquitetura de São Paulo (1993) com o trabalho Fragmentos Neobarroco e da Exposição Alterações Climáticas: a paz e os seres vivos, em Campo Grande (2024). “A violência nossa de cada dia” marca sua estreia como artista visual.
Serviço
Vernissage: 15 de abril, quarta-feira, às 19h. De 15 de abril a 4 de maio, segunda à sexta-feira das 7h30 às 20h; sábado das 7h30 às 12h, gratuito. A Galeria de Vidro está localizada na Avenida Calógeras, 3015, dentro da Plataforma Cultural.
Por Carolina Rampi
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