“Campo Grande não é mais uma cidade morena, é uma cidade negra.” A afirmação do artista e produtor Fábio Castro dá o tom da segunda edição da Pretou – Mostra de Artes Pretas, que chega ampliada e ainda mais diversa, reunindo artistas e públicos em torno da produção negra em Mato Grosso do Sul. A programação começa na sexta-feira (17) e vai até o sábado (18), no Teatro do Mundo.
A Pretou se consolida como um espaço de encontro, visibilidade e afirmação. Mais do que um evento cultural, a mostra se firma como um território de diálogo social, onde diferentes linguagens artísticas se cruzam para evidenciar histórias, memórias e potências muitas vezes invisibilizadas.
Idealizador do projeto, Fábio destaca que a criação da mostra nasce da necessidade de ocupação. “Sentia falta de um espaço onde artistas negros pudessem se apresentar e se ver como protagonistas das próprias histórias. A Pretou surge como esse espelho, mas também como um movimento contrário às narrativas que insistem em nos colocar à margem”.
A segunda edição da mostra amplia esse propósito, pontua Fábio. “A gente cresce em estrutura e também em presença. Campo Grande tem uma população majoritariamente negra e parda. São cerca de 475 mil pessoas que se declaram negras ou pardas. A Pretou vem para tensionar isso e colocar essas experiências no centro”.
Multilinguagens
A diversidade da programação se traduz na presença de artistas que atuam em diferentes frentes, com atividades distribuídas ao longo dos dois dias.
A abertura da mostra acontece ao som da DJ Lady Afro, que se apresenta na sexta-feira, das 16h às 18h, transformando a pista em espaço de afirmação e resistência. Com sets que transitam entre afrobeat, funk, hip hop e dancehall, ela leva ao público não apenas música, mas também ancestralidade.
“Quando eu toco, penso na energia da pista, mas também na representatividade. Ser uma mulher preta, periférica e LGBTQIAPN+ ocupando esse espaço é uma forma de resistência”, destaca.
Para ela, a Pretou fortalece esse movimento coletivo. “São espaços como esse que abrem caminhos para outros artistas. A gente se vê, se reconhece e entende que pode estar ali também”.
Na gastronomia, a pesquisadora e engenheira agrônoma Hilbaty Rodrigues conduz a oficina “Mato não! Comida”, na sexta-feira (17), das 17h às 19h. A atividade propõe um olhar sensível sobre alimentação, território e memória, a partir das PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais). “Quando trabalhamos com PANCs, falamos de plantas que sempre estiveram nos territórios, mas foram invisibilizadas ao longo do tempo. Isso provoca uma reflexão: por que algumas coisas são vistas como alimento e outras como ‘mato’?”, questiona.
A proposta vai além da teoria. “A ideia é experimentar, sentir, provar. Mostrar que esses saberes seguem vivos e podem fazer parte do nosso cotidiano de forma acessível”, explica.
No campo das artes cênicas, o ator e pesquisador Marcelo de Jesus conduz a palestra “Dramaturgias Negras”, no sábado (18), das 17h às 18h30. A atividade aborda o teatro como ferramenta de reflexão e transformação social.
“O teatro tem a potência de discutir o mundo a partir do corpo. E quando esse corpo é negro, ele carrega uma história e uma experiência que precisam ser vistas e ouvidas. Falar de dramaturgia negra é falar de presença, memória e disputa por espaço”, afirma.
Para ele, a Pretou cumpre um papel essencial. “Existe um apagamento das experiências negras em Mato Grosso do Sul, e eventos como esse ajudam a trazer essas narrativas para o público, não só no campo teórico, mas como vivência.”
Pretou
Durante os dois dias, a mostra também reúne exposição de artes visuais com novos talentos do Estado, apresentações musicais, oficina gastronômica, exibição de cinema negro com debate, além de literatura, poesia e performances. A programação começa sempre às 16h, com a abertura da feira criativa de empreendedores e a exposição de artes visuais de artistas negros.
Entre os destaques da sexta-feira estão a exibição de filmes de cineastas negros sul-mato-grossenses, a partir das 18h, a roda de conversa “Letra Preta” às 20h15, o Slam Camélias às 21h, e o show com Afrofino, às 21h30.
No sábado, a programação inclui apresentação da DJ TGB, a partir das 16h, a dança “Corpos em Território”, às 19h, e o show da artista SoulRa, que encerra a mostra às 21h.
Com atividades acessíveis em Libras e uma proposta que integra diferentes linguagens, a Pretou se firma como um espaço de encontro entre arte e identidade.
“Mais do que apresentar trabalhos, a Pretou constrói um território onde histórias negras são contadas por quem as vive — e onde o público é convidado não apenas a assistir, mas a reconhecer, refletir e fazer parte desse movimento”, conclui Fábio Castro.
A Pretou é uma realização da Touché e Vitrine do Mato. A mostra conta com financiamento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), do MinC (Ministério da Cultura), do Governo Federal, via edital da Fundac (Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande), da Prefeitura de Campo Grande. Informações pelo Instagram: @vitrinedomato.
Confira a programação completa:
17 de abril (sexta-feira)
16h – Exposição Preta (Artes Visuais)
16h – Feira Criativa (Artesanato, Moda e Design)
16h às 18h – DJ Lady Afro (Música)
17h às 19h – Oficina “Mato não! Comida”, com Hilbaty Rodrigues (Gastronomia) – acessível em Libras
18h às 20h – Exibição de Cinema Preto + roda de conversa (Audiovisual) – acessível em Libras
20h às 20h15 – DJ Lady Afro (Música)
20h15 às 21h – Letra Preta (Literatura)
21h às 21h30 – Slam Camélias (Poesia)
21h30 às 23h – Show com Afrofino (Música)
18 de abril (sábado)
16h – Exposição Preta (Artes Visuais)
16h – Feira Criativa (Artesanato, Moda e Design)
16h às 17h – DJ TGB (Música)
17h às 18h30 – Palestra “Dramaturgias Negras”, com Marcelo de Jesus (Teatro) – acessível em Libras
19h às 19h30 – Dança “Corpos em Território”
20h às 20h30 – Performance “Mulheres e Estrelas” (Teatro)
21h – Show “Do Interior”, com SoulRa (Música)
Serviço: A Pretou – II Mostra de Artes Pretas será realizada nos dias 17 e 18 de abril, no Teatro do Mundo, localizado na Rua Barão de Melgaço, 177, Centro de Campo Grande, com entrada gratuita e classificação livre.
Por Carolina Rampi
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