Santiago Belacqua: artista português veio a Campo Grande para COP15 e mostra que arte também aborda o meio ambiente

Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

Campo Grande recebe, até o dia 31 de março a visita do artista plástico português Santiago Belacqua, reconhecido internacionalmente por sua produção em arte sacra contemporânea. A vinda do artista é resultado de uma articulação liderada pela escritora e produtora cultural Delasnieve Daspet, em parceria com a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), e reúne uma programação que conecta exposições, música, espiritualidade e debate ambiental.

Foto: arquivo

Um dos pontos altos da agenda será a participação de Belacqua na COP15, onde apresentou nesta segunda-feira (23), na UFMS, a obra ‘Salvator Mundi – O calor humano derrete o gelo’. A tela propõe uma reflexão sobre os impactos das ações humanas no planeta e a relação entre fé, natureza e responsabilidade coletiva.

“Essa tela retrata a humanidade que sente as alterações climáticas influenciando negativamente muitas regiões do planeta, e os animais, seguramente, deparam-se com problemas de adaptação às novas circunstâncias que nunca lhes serão explicadas. Então, terão de mudar ou desaparecer”, afirma o artista.

Em entrevista ao jornal O Estado, o artista explica a vernissage de lançamento foi pensada para ser apreciada por uma pessoa de cada vez, sem a presença de fotógrafos e registro em celular da tela, valorizando a experiência individual. “Cada visitante vai fazer sua própria leitura. A obra foi feita para ser sentida e não explicada”, diz. A proposta busca resgatar a experiência individual com a arte. “Um quadro não é pintado para muitas pessoas, é pintado para um olhar. Quando alguém entra, aquele momento é só dela. Não há fotografias, não há distrações. É sobre sentir e levar aquilo consigo”, complementa.

ExposIção

Outro destaque é a exposição “Amarras”, que será inaugurada no dia 26 de março, na ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul). A mostra traz uma abordagem simbólica sobre a relação entre o ser humano e a fauna, com foco em espécies que enfrentam mudanças em seus habitats.

“Procuro mostrar, simbolicamente, a dependência que existe da fauna em relação ao ser humano. ‘Amarrei’ 18 animais com cordas, quase todos são espécies migratórias, incluindo a Cegonha e Tuiuiú! Também estão outros de Mato Grosso do Sul que não são migratórios como a Arara Azul, a Onça, o Cavalo Pantaneiro, e espero que nunca sejam obrigados por nós a mudar de habitat”, explica Belacqua.

A escolha das obras do artista português Santiago Belacqua para a programação em Mato Grosso do Sul está diretamente ligada à realização da COP15, que neste ano reforça o debate sobre a conservação da biodiversidade e a relação entre sociedade e meio ambiente. Diante dessa temática, a escritora Delasnieve Daspet apresentou ao artista elementos da fauna típica sul-mato-grossense, compartilhando fotografias de animais da região como ponto de partida para a criação artística.

Na ALEMS, a exposição ainda contará com o intercâmbio com outros artistas regionais. Patrícia Helney, Fernando Angeloni, Marcos Aurélio de Oliveira, Erika Rando, Ana Maria Rabacow, Alan Vilar e Lucia Monte Serrat. O artista vê a troca como uma oportunidade de valorização mútua. “É honroso partilhar esse espaço com artistas locais, porque ele já pertence a eles. É uma troca importante, onde todos crescem e ganham visibilidade”.
Ele destaca a conexão direta entre arte e debate global. “Não poderia ser apenas uma exposição qualquer. A coleção foi pensada para dialogar com a COP15, com temas como espécies migratórias e alterações climáticas. As peças encaixaram perfeitamente nesse contexto”.

Participação

A vinda do artista ao Estado também resultou na construção de uma agenda cultural e institucional intensa, que inclui a abertura da Semana Santa na Igreja de São José, com participação do cônego Paulo Roberto de Oliveira, além de atividades em parceria com a Academia Feminina de Letras e Artes, a Assembleia Legislativa, a Câmara Municipal e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Também estão previstas visitas institucionais e encontros com representantes do poder público municipal.

A iniciativa também busca projetar artistas sul-mato-grossenses no cenário internacional. Durante exposição prevista na Assembleia Legislativa, um grupo seleto de artistas locais devem apresentar trabalhos considerados de destaque. A expectativa é que um ou mais desses nomes possam ganhar visibilidade fora do país a partir dessa conexão.

Além da agenda institucional e artística, a parceria entre Delasnieve e Belacqua se estende à literatura. Os dois estão lançando, em Portugal, uma obra conjunta que reúne poesias da escritora, marcadas por temas como espiritualidade, interioridade e contemplação, acompanhadas por pinturas do artista. A proposta é criar um diálogo entre palavra e imagem, em uma publicação bilíngue que une a linguagem escrita à expressão visual.

Para Delasnieve, a presença de Belacqua no Estado representa uma oportunidade singular de intercâmbio cultural e valorização da arte local, reunindo diferentes iniciativas em torno de um mesmo propósito: ampliar horizontes e fortalecer conexões entre Mato Grosso do Sul e a Europa.

“É um momento muito especial, construído a partir de várias conexões que foram se somando. Conseguimos trazer o olhar de um artista internacional para a nossa realidade, especialmente para a relação do homem com os animais e com o meio ambiente. Ao mesmo tempo, abrimos portas para que artistas daqui também possam ser vistos lá fora. É um intercâmbio que fortalece a cultura em todos os sentidos”, destaca a escritora.

O encerramento acontece no dia 31 de março, no Teatro Glauce Rocha, com a apresentação da obra “Stabat Mater”, de autoria do artista. O espetáculo reúne o Coro Lírico CANT’ART, sob regência da maestrina Edineide Dias de Oliveira, o maestro Marcelo Fernandes e a Camerata de Madeiras Dedilhadas da UFMS, consolidando o diálogo entre artes visuais e música erudita.

Crítica

Segundo o artista, houve muitos empecilhos para a realização e entrega das obras de Portugal até o Brasil, situação que ele próprio culpa o país de origem, e considera uma ‘vergonha’ perante a cultura brasileira e ao evento em Mato Grosso do Sul.

“O apoio do Ministério da Cultura [português] e do Ministério do Meio Ambiente foram zero. Não pedi dinheiro, pedi apenas apoio na tramitação das obras. Para mim, isso foi uma grande ofensa do governo português com a COP 15 e com Campo Grande. É uma situação ridícula”, enfatizou.

Ainda conforme Santiago, o governo português cobrou mais de 900 euros para que as obras fossem trazidas para o Brasil. Porém, ele reforça que o problema não foi o valor para o despache, e sim a falta do carimbo diplomático. “ A ausência de resposta foi uma grande dificuldade, mas seguimos trabalhando para que tudo aconteça da melhor forma”. Para que tanto o vernissage quanto a mostra na ALEMS fossem realizadas, foi preciso haver adaptações. “Estamos reproduzindo as obras em tamanho original para garantir a exposição. Nada vai impedir que o projeto aconteça como foi pensado”.

Santiago Belacqua

Natural de Vila Nova de Famalicão, em Portugal, Belacqua iniciou sua trajetória artística após um momento pessoal marcante e consolidou-se como um dos nomes relevantes da arte sacra contemporânea. Seu trabalho ganhou projeção internacional a partir de 2013, quando foi convidado a produzir obras para o Papa Francisco, ampliando sua presença em importantes espaços culturais na Europa.

Esta será a primeira visita do artista a Mato Grosso do Sul. Sua passagem por Campo Grande reforça o intercâmbio cultural entre Brasil e Portugal e amplia o acesso do público sul-mato-grossense a uma produção artística de alcance internacional, além de abrir possibilidades para que artistas locais se conectem a circuitos culturais europeus.

Confira a programação:

23 de março (segunda-feira)
• Abertura da exposição “Salvator Mundi – O calor humano derrete o gelo” (COP15) – UFMS
• 17h – Recepção pela Associação Luso-Brasileira – Estoril

24 de março (terça-feira)
• Participação na COP15

25 de março (quarta-feira)
• 9h – Entrega do Título de Visitante Ilustre pela Câmara Municipal de Campo Grande

26 de março (quinta-feira)
Manhã – 8h30
• Abertura da exposição “Amarras” – Assembleia Legislativa de MS
• Apresentação cultural
• Homenagens
• Uso da tribuna por Santiago Belacqua
Noite – 19h
• Homenagem na Academia Feminina de Letras e Artes de MS (AFLAMS)
• Jantar do Prêmio Mulher Destaque 2026

27 de março (sexta-feira)
• 19h – Concerto Stabat Mater na Igreja São José
(com Coro Lírico CANT’ART, maestro Marcelo Fernandes e Camerata da UFMS)

28 de março (sábado)
• 10h – Visita ao Aquário do Pantanal
30 de março (segunda-feira)
• 11h – Recepção pela prefeita Adriana Lopes no Paço Municipal

31 de março (terça-feira)
• 19h – Concerto Stabat Mater no Teatro Glauce Rocha
(com maestro Marcelo Fernandes, Camerata da UFMS e CANT’ART).

Por Carolina Rampi

 

Confira as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *