Crimes migram para o digital e somam 1.063 casos em três meses
Os crimes virtuais, aqueles praticados pela internet, têm crescido em Mato Grosso do Sul e indicam uma mudança no perfil dos golpistas, com migração do meio físico para o digital. Nos três primeiros meses do ano, o Estado ultrapassou dois mil casos de estelionato, sendo que as ocorrências pela internet cresceram cerca de 20% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública).
Entre janeiro e março de 2026, Mato Grosso do Sul registrou 2.230 ocorrências de estelionato, sendo 1.063 cometidas pela internet. No mesmo período de 2025, foram contabilizados 2.321 casos, dos quais 892 ocorreram em ambiente digital. Na prática, quase metade dos golpes acontecem no meio virtual.
A urgência como armadilha
O estelionato segue entre os crimes mais registrados em Mato Grosso do Sul e está entre as ocorrências mais frequentes no Estado.
Em entrevista ao O Estado, o delegado titular da 5ª Delegacia de Polícia Civil e especialista em crimes cibernéticos e inteligência artificial, Leandro Costa de Lacerda Azevedo, afirma que houve um aumento significativo desse tipo de crime, após a pandemia.
“Vivemos hoje uma escalada de crimes cibernéticos, que ganhou força após a pandemia da Covid-19. Em Mato Grosso do Sul, acompanhamos a tendência nacional, sobretudo nos crimes patrimoniais eletrônicos. Os dados revelam um crescimento acentuado e retratam uma realidade alarmante”, afirma.
Segundo o delegado, o fenômeno não se restringe à Capital. “A internet derrubou fronteiras físicas e permite que o golpista atue em escala, atingindo milhares de pessoas ao mesmo tempo. A Capital concentra o maior volume, mas o interior também registra números expressivos. O risco está em qualquer lugar com acesso à internet”, explica.
Golpes mais comuns
De acordo com o especialista, três modalidades têm se destacado no Estado e se revezam como o “golpe da vez”:
Falso advogado: criminosos monitoram processos judiciais públicos e entram em contato com as vítimas se passando por seus advogados, utilizando fotos e logotipos reais de escritórios. Informam que a causa foi ganha e exigem o pagamento de falsas taxas, como “custas” ou impostos via PIX, para liberação do valor.
Falsa central de atendimento: golpistas ligam simulando o setor de segurança de bancos, muitas vezes utilizando números oficiais das instituições. Alegam uma suposta fraude e induzem a vítima a transferir dinheiro para uma “conta segura” ou a instalar aplicativos que permitem acesso remoto ao celular.
Falso intermediário: comum em plataformas de compra e venda, o criminoso clona anúncios reais com preços mais baixos e intermedia a negociação entre comprador e vendedor. O pagamento é feito ao golpista, enquanto o vendedor entrega o produto acreditando que o valor foi recebido.
Sem perfil único e com foco emocional
Ao contrário do que muitos pensam, não existe um perfil demográfico único de vítima. Segundo o delegado, é mito acreditar que apenas pessoas idosas ou inexperientes caem em golpes virtuais. “O que os criminosos exploram não é o sistema tecnológico, mas sim as nossas vulnerabilidades comportamentais e emocionais, a chamada engenharia social”, afirma.
De acordo com ele, a maior incidência de vítimas ocorre entre pessoas de 19 a 30 anos, justamente o público mais conectado, que passa mais tempo na internet e realiza transações com frequência, muitas vezes no “piloto automático”.
O principal sinal de alerta, segundo o delegado, é o senso de urgência imposto pelos golpistas. “Emergência e urgência não combinam com transferência. Os criminosos criam narrativas para gerar medo ou sensação de oportunidade imperdível, fazendo com que a vítima aja sem pensar”, alerta.
A recomendação é simples. “Recebeu uma mensagem inesperada com apelo emocional ou cobrança de alguém pedindo valores? Pare. Pense. Ligue para a pessoa por um número já conhecido. Na dúvida, não transfira”.
O que fazer ao cair no golpe
O tempo é decisivo. Em casos envolvendo PIX, a orientação é acionar imediatamente o MED (Mecanismo Especial de Devolução), disponível no aplicativo do banco, geralmente na opção de contestação de transferência. “Acionando o MED rapidamente, o banco consegue bloquear o valor antes que ele seja sacado”, explica o delegado.
Após isso, a vítima deve registrar boletim de ocorrência e preservar todas as provas, como conversas, e-mails, comprovantes e chaves PIX utilizadas.
A reportagem foi às ruas da Capital para ouvir moradores sobre experiências com golpes pela internet.
Rosineide dos Santos, 50 anos, autônoma
“Fui vender uma TV pela internet e uma pessoa negociou comigo, dizendo que outra iria buscar o produto, mas pediu para eu não comentar nada. Não desconfiei. Quando percebi, já tinha feito o PIX e era um golpe. O comprador não tinha nada a ver com a negociação. No fim, a pessoa que recebeu a TV foi honesta e me pagou o valor, parcelado. Deu certo, mas foi um susto. Infelizmente, esse tipo de golpe acontece”.
Matheus Willian, 18 anos, vendedor
“Minha avó caiu em um golpe ao pagar a parcela de um carro com um QR Code falso. O dinheiro, em vez de ir para a loja, foi para um golpista, e ela acabou tendo prejuízo. Depois, descobrimos que a compra de um terreno, que seria para realizar o sonho dela de ter uma chácara, era fraudulenta. Tivemos que ir à delegacia, foi uma dor de cabeça enorme”.
Barbara Cyanne, 18 anos, balconista
“Entrei em uma plataforma de apostas online após recomendação. No começo, consegui sacar valores pequenos, mas depois passaram a exigir novos depósitos para liberar quantias maiores. Acabei não recebendo e perdi cerca de 200 reais. Não fui a única. Meu ex-marido também caiu no golpe, e juntos tivemos um prejuízo de quase 500 reais. É uma situação complicada, porque parece confiável no início, mas depois o dinheiro simplesmente não volta”.
Por Geane Beserra
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