Da psicanálise encarnada à urgência decolonial

Foto: Reprodução
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Uma urgência atravessa as páginas de “Decolonizing Psychoanalytic Technique” (2024), de Daniel José Gaztambide. Não é um manual técnico voltado para o aprimoramento clínico de praticantes, mas um resgate vital da importância da psicanálise como interlocutora dos contrastes e da fecundidade do nosso chão histórico. O livro não nasce na Viena imperial, mas evoca a sombra frondosa de uma mangueira em Porto Rico, da brisa caribenha na sacada de uma casa pertencente a um líder revolucionário. É desse Sul global, de países e gente muito bela, estilhaçados por relações coloniais que os sangram, que o autor situa o exercício psicanalítico contemporâneo. Nós, que amamos Freud, Lacan e as nossas histórias, precisamos aprender a ser árvore e a projetar uma sombra e uma guarida.
A premissa é simples: a psicanálise tradicional sofre de um “circuito rompido”. A interseccionalidade de classe, raça e cultura se perdeu. Durante décadas, a prática e a teoria da escuta clínica filosofou sobre uma “condição humana” abstrata, ignorando o lugar de onde se fala, o povo a que se pertence e a dor sistêmica que nos atravessa. Gaztambide, ancorado em sua própria história e na observação das dinâmicas silenciosas do racismo, ensaia uma reconexão desse circuito, convidando  Frantz Fanon como um ancestral para o centro da clínica. Ao colocar o cânone de Freud “no divã de Fanon”, o autor realiza uma torção que nos obriga a enxergar o profundo vínculo entre o mundo interno  e o externo (como na fita de Moebius). O sofrimento e a dor individual não derivam de relações íntimas isoladas, mas imbricadas em complexas interações entre nossos núcleos mais íntimos e os dinamismos das condições materiais opressivas em que (r)existimos.
Urge ouvir o que a carne grita, nas frestas que escapam ao fundamentalismo da hegemonia. Em uma passagem da obra, Gaztambide resgata a visão clínica de Fanon para nos lembrar que, sob o peso esmagador da colonialidade, “quando estamos com a língua atada, o corpo fala” (p. 175). Nossos países são marcados pelo que Fanon chamou de “morte diária”, simbólica, encenada quando as dores do colonizado são descartadas ou quando o trauma do racismo e da miséria são enquadrados e “laudados” como desajustes individuais. Corporificar a técnica significa despatologizar o homem e a mulher que sentem, lutam, trabalham e chacoalham nos ônibus, entendendo que ansiedade e depressão são, frequentemente, respostas estruturais a um sistema adoecedor.
A urgência do ensaio de Gaztambide reside na capacidade de arrastar a clínica de volta para a esfera do corpo a corpo, atravessada pela dor, pelo prazer e pelas cores da pele da vida periférica. Ele destaca (p. 19) que o estado de “colônia” não é abstração estática do passado, mas sobrevive, asfixiante, onde quer que a exploração e a violência sejam sentidas: das favelas de São Paulo a Porto Rico. Para o autor, a técnica clínica tem de abandonar o escudo do “não-saber” complacente. Na página 175, somos confrontados com a crítica de Fanon aos terapeutas que se defendem do medo a implicar-se: “Acontece que é a SUA culpa” (p. 14). O psicanalista decolonial deve abrir mão do papel de detentor da verdade e escutar cada história em seu complexo quadro e em sua dura unicidade, aceitando a sua importância política: o diagnóstico pode virar arma colonial.
O reconhecimento que brota numa estrutura de severa desigualdade corre o risco de ser envenenado, reafirmando os interesses de quem domina (pág. 212). O respeito performativo pode ocultar “o mais profundo desprezo… o sadismo mais elaborado” (p. 34). O lugar de cura pela palavra e de escuta das mil camadas do desejo, transforma-se num laboratório onde as pessoas reencontram forças de “resistência, oposição, desafio” (p. 173). Ao encarnarmos a coragem dessa psicanálise vulnerável germinada na terra ferida, consolidamos a noção de que o alívio de nossa gente e a transformação da estrutura social formam exatamente a mesma substância ética, indissociável de nossa sobrevivência e da liberdade no Sul global. Assim, a clínica torna-se uma frondosa imitação da mangueira, do baobá, de árvores da vida.
Josemar de Campos Maciel é Doutor em Psicologia (PUC-Campinas) e professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local da UCDB. Email: maciel50334@yahoo.com.br
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.

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