Mais pesticida, mais praga: estudo revela paradoxo no manejo da soja

Pesquisadora Eliana Fontes, coordenadora técnico-científica do projeto - Foto: Regenera Cerrado
Pesquisadora Eliana Fontes, coordenadora técnico-científica do projeto - Foto: Regenera Cerrado

Estudo em 13 fazendas identifica mais tesourinhas e inimigos naturais em sistemas com bioinsumos e manejo regenerativo

Um estudo conduzido pelo Projeto Regenera Cerrado comprovou que a agricultura regenerativa é uma alternativa técnica e economicamente viável para o controle de pragas em lavouras comerciais de soja. A pesquisa demonstrou que áreas que substituem defensivos sintéticos de alta periculosidade por práticas regenerativas apresentam maior abundância de predadores naturais, como as tesourinhas (Dermaptera), reforçando o controle biológico no campo.

As tesourinhas, insetos predadores generalistas, alimentam-se de pragas recorrentes nas lavouras de soja e milho. Segundo os pesquisadores, áreas com maior presença desses inimigos naturais registraram redução significativa de pragas que comprometem a fotossíntese, o desenvolvimento das plantas e a produtividade.

De acordo com a pesquisadora Eliana Fontes, coordenadora técnico-científica do projeto e coautora do artigo, os resultados ajudam a romper paradigmas no agronegócio.

“É uma prova concreta da viabilidade da agricultura regenerativa em sistemas comerciais. Esses predadores passam a atuar de forma contínua no controle de pragas, reduzindo a dependência de intervenções químicas e fortalecendo a resiliência do sistema produtivo.”

O estudo comprovou que sistemas conduzidos com práticas regenerativas reduzem a dependência de inseticidas de amplo espectro sem comprometer a produtividade. Dessa forma, o agroecossistema passa a atuar como aliado do produtor no controle de pragas.

Manejo regenerativo e convencional

A pesquisa analisou a adoção de práticas regenerativas em 13 fazendas no Mato Grosso e no sul de Goiás, comparando talhões com maior uso de bioinsumos e redução de químicos com áreas sob manejo convencional.

O foco foi avaliar a substituição de insumos sintéticos por bioinsumos, tanto na fertilidade do solo quanto no controle de pragas e doenças. Segundo Eliana Fontes, a proposta era verificar se a natureza “recompensaria” o produtor que adotasse práticas regenerativas.

“Os resultados mostraram que, nas áreas com maior uso de bioinsumos e menor uso de químicos, houve maior abundância de tesourinhas e de outros inimigos naturais. Isso indica maior presença de controle biológico natural e reforça que a adoção dessas práticas favorece o equilíbrio ecológico nas lavouras.”

Outro dado relevante apontado pela pesquisa é o chamado “paradoxo dos pesticidas”: áreas com uso de herbicidas de maior risco ambiental apresentaram redução na abundância de inimigos naturais e, paradoxalmente, maior presença de pragas.

O estudo também evidenciou que o sucesso da agricultura regenerativa vai além da simples substituição de insumos. Fatores como cobertura permanente do solo, manutenção da palhada e menor revolvimento criam microclimas favoráveis à permanência de inimigos naturais durante todo o ciclo da cultura e na entressafra.

Segundo a pesquisadora, o modelo pode ser aplicado em outras regiões do Brasil, inclusive no Mato Grosso do Sul, desde que respeitadas as características locais de solo e clima.

Mudança de mentalidade e desafios

Para preservar insetos benéficos, o produtor precisa ajustar o manejo. A lógica, segundo os pesquisadores, não é eliminar todas as espécies, mas manter o equilíbrio ecológico. Insetos herbívoros servem de alimento para predadores e parasitoides; quando o sistema está equilibrado, as populações permanecem em níveis baixos e estáveis, evitando surtos de pragas.
Entre as principais barreiras para adoção do sistema estão o receio de prejuízos e o desconhecimento técnico. “No modelo convencional, o agricultor segue um calendário previsível de aplicações. Já o manejo regenerativo exige monitoramento constante e maior conhecimento técnico para decisões baseadas no nível de infestação.”
Para ampliar a adoção, a pesquisadora defende maior investimento em difusão de conhecimento, dias de campo e troca de experiências entre produtores.

Sobre o projeto

Idealizado em 2022 pelo Instituto Fórum do Futuro, o Regenera Cerrado tem como propósito disseminar práticas de agricultura regenerativa validadas cientificamente, oferecendo um modelo escalável de produção de soja e milho.
Na segunda fase, o projeto conta com patrocínio da Cargill, coordenação técnico-científica da Embrapa e execução operacional do Instituto BioSistêmico, além de parceria com sete instituições nacionais e 10 fazendas na região de Rio Verde (GO).
O artigo completo está disponível na plataforma ScienceDirect(DOI:10.1016/j.biocontrol.2025.105936).

 

Por Ana Krasnievicz

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