Rins e fígado de mulher de 44 anos beneficiaram três pacientes que aguardavam na fila de transplante
Após três anos sem realizar o procedimento, o HU-UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados) retomou, no dia 4 de fevereiro, a captação de órgãos. A doação de rins e fígado de uma mulher de 44 anos, vítima de morte encefálica, beneficiou três pacientes que aguardavam na fila de transplante.
O procedimento reacende um debate necessário: a importância de comunicar aos familiares, ainda em vida, o desejo de ser doador de órgãos.
Em entrevista ao Jornal O Estado, a coordenadora da e-DOT (Equipe Hospitalar de Doação de Transplante) no HU-UFGD/Ebserh, enfermeira assistencial Ely Bueno da Silva Bispo, destacou que a doação ainda é cercada por desinformação e tabu. Segundo ela, é fundamental ampliar o debate desde a educação básica, para que a sociedade compreenda como funciona o processo.
“A doação é a base para que ocorram os transplantes. Muitas pessoas vivem em diálise, enfrentam insuficiência hepática ou cardiopatias graves e aguardam na fila com a expectativa de melhorar a qualidade de vida ou até mesmo sobreviver. Mas para que alguém receba um órgão, é necessário que ocorra uma morte encefálica e que a família autorize a doação”, explica.
Morte encefálica e autorização familiar
A especialista ressalta que a morte encefálica é uma condição específica, geralmente causada por traumatismo craniano, acidente vascular cerebral (AVC) ou outras lesões neurológicas graves. O diagnóstico segue protocolo rigoroso previsto em legislação, com a realização de exames clínicos e complementares por médicos diferentes.
Somente após a confirmação da morte encefálica é que se avalia se o paciente possui condições clínicas para ser doador. Existem contraindicações absolutas, como algumas infecções generalizadas sem resposta ao tratamento, determinados tipos de câncer e outras condições específicas. Mesmo quando todos os critérios são atendidos, a decisão final é da família.
“No Brasil, não existe um documento que garanta a doação apenas pela manifestação em vida. Quem autoriza formalmente são os familiares, conforme estabelece a legislação. Por isso, é essencial conversar sobre o assunto enquanto se está saudável e consciente”, reforça Ely.
A enfermeira alerta que muitos potenciais doadores deixam de ter os órgãos captados porque a família desconhece sua vontade.
“Às vezes, a pessoa tinha intenção de doar, mas nunca falou sobre isso. No momento da dor e do luto, a família prefere não autorizar por insegurança”, afirma.
Ela também esclarece que nem todas as mortes permitem a doação de órgãos vitais. Em casos de parada cardiorrespiratória, por exemplo, geralmente é possível doar apenas tecidos, como córneas, quando há banco habilitado.
Ampliação do serviço em Dourados
Há expectativa de ampliação da captação de córneas em Dourados. Equipes trabalham para estruturar o serviço de forma permanente, tanto no Hospital da Vida quanto no HU-UFGD, o que pode aumentar o número de beneficiados na região.
Um gesto que divide opiniões
A reportagem foi às ruas para ouvir a população sobre o tema. A maioria dos entrevistados afirmou ser favorável à doação e disse já ter conversado com familiares sobre o assunto. Outros admitem nunca ter pensado na possibilidade ou mencionam motivos religiosos para não autorizar.
Servidor público federal, Cristo da Silva, de 73 anos, defende a doação desde a época em que atuou como enfermeiro no serviço militar.
“O médico é o mecânico de Deus, que conserta a única máquina que Ele criou. Não existe autopeças para o corpo humano”, declarou.
Já Fabíola Paziani, de 54 anos, que trabalha no setor administrativo da Santa Casa, afirma que o contato com o ambiente hospitalar ampliou sua compreensão sobre a importância da doação.
“Mesmo atuando na área administrativa, participamos de formações e acompanhamos a realidade de quem espera por um órgão. Isso faz entender o quanto a doação pode transformar vidas”, pontuou.
Um gesto que salva vidas
A retomada da captação de órgãos no HU-UFGD reforça que a doação é um ato capaz de salvar múltiplas vidas. Mas, para que isso aconteça, o primeiro passo é simples: informar a família sobre o desejo de ser doador.
Sem essa conversa, mesmo diante de uma oportunidade de salvar vidas, a doação pode não acontecer.
FALA POVO
“Eu nunca pensei na questão de doação de órgãos, mas acho interessante quem doa, porque outras pessoas podem sobreviver. Eu sou cristã e, no momento, eu não doaria, porque não se pode ou não, mas acho bonito quem tem essa disposição e sei que muita gente necessita de órgão” — Angélica de Souza Pinto de Oliveira, 35 anos, trabalha com Serviço Social
“Já considerei e conversamos sobre isso em casa. Nós somos doadores de sangue e minha filha é doadora de medula, então, sempre conversamos e sabemos que é de extrema importância” — Fabíola Paziani, 54 anos, Gestora de creche
“Eu penso que é bom, mas não tenho certeza se doaria. Posso pensar na possibilidade”, — Adilson de Oliveira, 77 anos, vendedor ambulante
“Eu doaria sem pensar duas vezes, porque eu não vou precisar mais, então, acho que seria uma atitude inteligente doar para quem precisa”, — Steve Morelli, 25 anos, atendente
“Eu sou doador, inclusive na minha carteira de identidade está escrito que sou doador de órgãos e tecidos. Pra mim não é problema, porque eu já morri e tem muitas pessoas ainda que precisam viver um pouco mais. Eu acredito que isso daria esperança para outras famílias” — Alessandro Pereira dos Santos, 51 anos, empresário
“Eu defendo a causa desde os 35 anos e todos na minha família são doadores, porque defendo muito isso. O médico é o maior mecânico, mas ele precisa de peças e não existe autopeças de órgãos” — Cristo Da Silva, 73 anos, funcionário federal
Ana Clara Julião e Michelly Perez
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