Filme de Marineti Pinheiro e Israel Miranda registra a trajetória de Roberto Higa e seu papel na construção da memória de Campo Grande
A trajetória de Roberto Higa revela uma vida dedicada à fotografia e à construção da memória de Campo Grande. Nascido em 1951, ele transformou desafios pessoais em combustível para uma carreira marcada por registros históricos e superação, inclusive após enfrentar um câncer de orofaringe.
Com mais de quatro décadas de atuação, o fotojornalista documentou momentos decisivos da formação de Mato Grosso do Sul e se tornou um dos principais nomes da imagem no estado. O documentário A Campo Grande de Roberto Higa, dirigido por Marineti Pinheiro e Israel Miranda, revisita sua história e seu acervo. Ao longo de um ano, a equipe acompanhou o fotógrafo em casa e em diferentes espaços da cidade, registrando sua rotina, memórias e reflexões. Após uma exibição inicial restrita na última sexta-feira (13), o filme deve ganhar sessão aberta ao público em breve.
Durante a exibição, Celso Arakaki destacou o trabalho marcante de Roberto Higa, fotojornalista que dedicou toda a sua carreira a registrar e construir a memória de um Estado que, até então, ainda buscava sua identidade. Foto por foto, Higa ajudou a formar o que hoje conhecemos como Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.
“Roberto Higa é fotógrafo e memorialista. Pode até parecer redundância, mas no caso dele não é. Ele estava lá. Se duvidar, foi ele quem mandou os apóstolos todos para o outro lado na cobertura da Santa Ceia… Não perde a pose. Fotografou tudo. Estou ansioso para ver o documentário da dupla. Desde já, parabéns pelo filme”.
Ponto de partida do Projeto
O ponto de partida do projeto é a interpretação singular de Roberto Iga sobre Campo Grande. Mais do que retratar a cidade, ele construiu uma memória visual que acompanha suas transformações sociais, políticas e urbanas.
O documentário assume como fio condutor algumas de suas imagens mais representativas, como o registro da demolição do antigo relógio da Rua 14, captado ao longo de um dia e uma noite inteiros, e fotografias que revelam infâncias à margem do rio, cenas de vulnerabilidade e momentos decisivos da formação do Estado.
A obra também resgata acontecimentos históricos, como a criação de Mato Grosso do Sul, além de retratos de personalidades e espaços que moldaram a identidade regional. Higa transitou por diferentes realidades: frequentou ambientes da elite política e econômica, acompanhou o crescimento urbano, registrou o surgimento de bairros populares como as Moreninhas e documentou áreas institucionais como o Parque dos Poderes. Sua câmera esteve tanto nos salões mais influentes quanto nas periferias invisibilizadas.
“Eu quis ouvir as histórias por trás de cada fotografia, entender o que estava além do enquadramento. Ele não apenas registrou a cidade,ele viveu cada momento, circulou por todos os espaços, das áreas mais nobres às periferias. Essas imagens ajudam a compreender como a cidade se transformou e como ele se tornou parte dessa própria história”, conta Marineti para a reportagem do Jornal O Estado.
Produção
A realização do documentário foi atravessada por um momento delicado na vida de Roberto Iga. Logo após a estruturação do projeto, o fotógrafo recebeu o diagnóstico de câncer na garganta e iniciou um tratamento intenso de quimioterapia. A equipe optou por respeitar o tempo e os limites impostos pela doença, mas decidiu manter no filme as imagens em que ele aparece com sonda, como registro honesto daquele período.
“Ele poderia ter interrompido tudo, mas disse que não deixaria essa história inacabada. Mesmo debilitado, fazia questão de falar sobre cada fotografia, de lembrar detalhes, de reconstruir cenas inteiras. A câmera era ligada e bastava uma pergunta para que ele começasse a narrar”, explica Marineti.
Mesmo fragilizado, Higa fez questão de cumprir o compromisso assumido com a diretora, reafirmando o senso de responsabilidade que sempre marcou sua trajetória em Campo Grande. As gravações ocorreram, em grande parte, em sua própria casa, um espaço de acolhimento constante, onde equipe e familiares compartilham conversas, memórias e afetos.
“Havia dias mais difíceis, limitações físicas, lapsos de memória, mas também uma lucidez emocionante quando se tratava da própria obra. Registrar esse momento foi delicado, porém necessário porque também faz parte da história”, completa a diretora.
Admiração
O encerramento do filme reafirma uma admiração construída muito antes das gravações. O vasto acervo de Roberto Higa muitas vezes subestimado até por ele próprio revela uma dimensão histórica que ultrapassa o campo da fotografia e se consolida como patrimônio cultural de Campo Grande e de MS.
A convivência além das câmeras aprofundou esse reconhecimento: as visitas, as conversas e a escuta atenta transformaram o processo em uma experiência pessoal marcante entre Marineti e Higa. Ao longo da trajetória como documentarista, a diretora já havia se aproximado de figuras emblemáticas da cultura regional, como Delinha, Beth e Betinha e fotógrafos lambe-lambe, sempre guiada pelo desejo de preservar memórias.
“Conviver com ele foi um privilégio imenso. Cada encontro era uma aula de história e de sensibilidade. Ele é uma memória viva, alguém que atravessou décadas observando, registrando e refletindo sobre tudo ao redor”, detalha.
Em Higa, encontrou não apenas um artista, mas uma consciência crítica forjada pela vivência nos bastidores da política e do jornalismo, alguém que acompanhou por dentro as engrenagens do poder e as transformações sociais.
“Só posso sentir gratidão por ele, pela Sandra e por todos que caminharam conosco nesse processo. Que o público possa assistir ao filme não apenas para conhecer sua trajetória, mas também para reconhecer e agradecer a importância desse legado”.
A Grande Foto
Higa já fotografou de tudo: do belo ao feio, do novo ao velho, do começo ao fim. E assim foi construindo seu nome. O fotojornalista passou por diversos veículos locais, como Correio do Estado, Diário da Serra, Estado da Manhã e também atuou como fotógrafo do governo do estado de Mato Grosso do Sul, e também figuras politicas como Pedro Pedrossian e Lúdio Martins Coelho.
“Ser fotógrafo não se limita a fotografar apenas as coisas bonitas. No interior, você não tem a oportunidade de dar uma primeira página como um grande jornal. Você acaba ‘enchendo linguiça’ com o que tem. Então, eu fotografava mulher bonita, mulher feia, cenas tristes, cenas alegres, tudo isso eu coloquei na cabeça e comecei a fazer. Esse foi meu diferencial, deixar minha marca em tudo que fazia”, destaca.
Até hoje, Higa continua fotografando tudo o que considera interessante, acreditando que até o que não gosta tem valor, pois isso o mantém motivado. Enquanto vê outras pessoas parando de buscar desafios e deixando o tempo passar, ele segue em busca do novo, como sempre fez. Para ele, o dinheiro é apenas uma consequência da busca constante por algo que o faça viver intensamente, sem jamais se acomodar.
“Eu nunca deixei de acreditar que a grande foto ainda estava por vir. Às vezes, me lembro de uma palestra de José Hamilton Ribeiro, jornalista que perdeu uma perna na Guerra do Vietnã. Ele dizia que a grande reportagem nunca se perde; você tem que estar sempre à procura dela. Por isso, nunca saio de casa sem a câmera – um dia, a grande foto vai surgir. Quando eu aposentar minha máquina, aí sim vou saber que a minha jornada acabou”, finaliza.
Por Amanda Ferreira
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