Especialistas expõem falhas estruturais na rede de proteção infantil após morte de Manu
As mortes brutais de Sophia, em 2023, e de Emanuelly Victória Souza, de apenas 6 anos, na última quarta-feira (27), reacendem uma ferida ainda aberta em Campo Grande: a fragilidade da rede de proteção à infância. Apesar de promessas do governo e da prefeitura para criar estruturas integradas de prevenção e acolhimento, nenhuma saiu do papel, e as consequências continuam sendo devastadoras.
Para Jean Ocampos, pai de Sophia, a notícia da morte de Emanuelly trouxe de volta a dor que vive desde 2023.
“Ontem, na hora que eu fiquei sabendo sobre o caso da Emanuelly, eu fiquei muito triste. Parece que eu tinha voltado ao dia 26 de janeiro de 2023, quando recebi a pior notícia da minha vida”, desabafa.
Jean cobra ações efetivas e critica a ausência de medidas preventivas:
“Enquanto o Estado e o município não trabalharem com prevenção, infelizmente as vidas das crianças continuarão sendo tiradas dessa forma. Se alguém fizer uma denúncia, tem que ser investigado. Se houver risco, tem que retirar a criança do local. Não dá mais para esperar”.

Conselho tutelar sabia das condições em que criança vivia e pai nega situação de maus-tratos – Foto: Roberta Martins
Promessas que não viraram realidade
Logo após a morte de Sophia, o Governo do Estado anunciou a criação do Centro Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente, que reuniria em um só espaço delegacia especializada, psicólogos, defensoria, Ministério Público, Conselho Tutelar e perícia. A prefeitura também lançou o projeto da Casa Sophia, um complexo de prevenção e acolhimento para vítimas de violência.
Três anos depois, nenhum dos projetos saiu do papel.
Para a advogada Janice Andrade, ativista pelos direitos das crianças, essa morosidade é reflexo da negligência histórica do poder público.
“Praticamente nada foi feito de concreto para melhorar e integrar a rede de proteção. A Casa de atendimento à criança foi uma promessa para acalmar a imprensa e a sociedade. As crianças continuam sendo negligenciadas pelo Estado, e o resultado, infelizmente, é a morte”, critica.

Local onde a criança foi encontrada morta – Foto: Nilson Figueiredo
Rede fragmentada e denúncias ignoradas
O caso de Emanuelly, sequestrada, estuprada e morta por Marcos Willian Teixeira Timóteo, de 20 anos, escancara as falhas sistêmicas. A menina vivia em situação de risco extremo desde 2020, mas continuou exposta, mesmo após três denúncias de maus-tratos apenas em 2025. Segundo Janice, o Conselho Tutelar falhou no acompanhamento.
“Não podemos mais apostar com a vida das crianças e normalizar maus-tratos. Tivemos denúncias gravíssimas, inclusive de abuso sexual dentro de escola particular, arquivadas pelo MP sob alegação de falta de provas. Os relatos da vítima foram completamente ignorados pelo órgão que tem o dever de protegê-la”, denuncia.
O perfil do assassino e os limites do sistema
Para compreender o caso, ouvimos a psicóloga Carlota Philippsen. Ela explica que o histórico de Marcos Willian, que aos 14 anos estuprou um bebê de 1 ano e 5 meses e foi internado duas vezes na Unei, revela falhas profundas na política socioeducativa.
“As medidas socioeducativas, do jeito que são aplicadas hoje, não educam. Eu trabalhei nas Uneis, e posso dizer: não há acompanhamento psicológico eficiente, não há projeto de ressocialização. Esses adolescentes saem ainda mais distantes da sociedade e vulneráveis à violência. É erro em cima de erro”, avalia.
Carlota também chama atenção para o contexto social e cultural que forma indivíduos violentos:
“Vivemos numa sociedade que não protege as crianças. Garotos crescem sem acolhimento, sem afeto, aprendendo que violência é normal. Se não mudarmos essa cultura, vamos continuar produzindo agressores e vítimas”, alerta.
Colapso na proteção infantil
Somente em 2025, mais de 700 crianças foram registradas como vítimas de violência em Mato Grosso do Sul. Para Janice Andrade, o cenário é de colapso:
“O Conselho Tutelar é ineficiente, o MP não cumpre sua função e as instituições normalizam a violência contra crianças. É um ciclo perverso de omissão e impunidade”.
O que fazer agora?
Diante da crise, os especialistas são unânimes: ações emergenciais são urgentes. Janice defende punição de agentes públicos omissos e afastamento de conselheiros tutelares negligentes. Jean pede prevenção real e mais investigação de denúncias. Carlota vai além e propõe mudanças culturais profundas:
“A proteção à infância precisa ser responsabilidade de toda a sociedade. Não podemos delegar isso só aos pais. Onde há criança, deve haver cuidado coletivo”.
Conselheiros Tutelares sob pressão
O MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul) instaurou procedimento para apurar a atuação do Conselho Tutelar Sul no caso envolvendo a criança Emanuelly Victória Souza Moura. O objetivo é verificar se houve omissão no cumprimento das atribuições legais do órgão e, em caso positivo, se essa omissão guarda relação com o desfecho trágico noticiado. O procedimento tramita em caráter sigiloso, conforme previsto em lei, e todas as providências cabíveis serão adotadas a partir da apuração dos fatos. Neste momento, o caso encontra-se em fase de investigação.
Ontem (29), durante a entrega do conjunto de obras na Região do Lagoa e anuncio de novos investimentos, o presidente da Câmara, o vereador Epaminondas Neto (PSDB) confirmou a importância de se apostar nas campanhas educativas e destacou que apesar da revolta, o momento é de pensar em como melhorar a qualidade de trabalho dos conselhos tutelares que em sua visão estão sobrecarregados e precisam de um olhar de cuidado por parte do poder público.
“Precisamos de projetos de conscientização bem feitos om politica publica empregada, temos o exemplo do Maio Laranja e Leis temos muitas no Brasil, falta uma politica publica estruturada, transversal que atenda até a ponta. Lei não é o problema, mas o compromisso da política pública é o que precisamos. O conselho muitas vezes está sobrecarregado, desassistido em sua estrutura, na minha avaliação o conselho é um órgão da justiça com o custeio do município, mas é da Justiça e isso não funciona, tinha que ser 100% de um dos dois”, disse.

David Bernardes, pai da vítima – Foto: Nilson Figueiredo
Velório de Emanuelly é marcado por comoção e defesa do padrasto contra acusações
A manhã desta sexta-feira (29) foi marcada pela despedida da menina Emanuelly Victória Souza, de 6 anos, estuprada e morta por estrangulamento na madrugada de quinta-feira (28), em Campo Grande. Familiares e amigos acompanharam o velório e o sepultamento da criança, realizado poucas horas após a liberação do corpo.
Muito abalada, a mãe da vítima não conseguiu conversar com a imprensa. O padrasto, por sua vez, se pronunciou emocionado, negando todas as acusações de maus-tratos e negligência em relação à enteada, morta por Marcos Wilian Teixeira Timóteo, conhecido como “Gordinho”, principal suspeito do crime.
Segundo ele, assumiu a paternidade da menina quando ela tinha apenas duas semanas de vida e desde então a tratava como filha. “Não sou o pai, mas peguei-a para criar. Tentaram tirá-la de mim, mas nunca conseguiram. Eu fazia de tudo por ela, nunca deixei faltar nada”, afirmou, lembrando que a criança era querida na escola e muito apegada à família.
O homem rebateu denúncias anteriores que o acusavam de descuido com a menina. “Disseram que ela estava com o braço quebrado, então eu fiz um milagre, porque não tinha hematoma, não tinha nada. Também falaram que ela faltava muito na escola, mas só teve duas faltas: uma no dia em que fomos ao Conselho Tutelar e a de ontem, quando infelizmente tudo aconteceu”, disse.
Ele contou ainda que acreditava que a criança estivesse com a avó no dia do crime, já que costumava passar longos períodos ao lado dela. A ausência só foi percebida quando familiares entraram em contato com a mulher, mãe do padrasto, e descobriram que a menina não havia dormido na casa dela.
O padrasto relatou temer novas intimações relacionadas ao caso e afirmou que pensa em mudar de endereço com a família. “Vou arrumar um jeito de sair dali, vou tirar minha família porque não vão nos deixar em paz”, desabafou.
Sobre a morte do suspeito, ocorrida após confronto com policiais, ele disse não sentir alívio. “A forma como ele morreu não se compara ao sofrimento que ela passou. Não há sentimento de justiça. Ela não foi a primeira vítima dele, mas não vamos esquecê-la. Minha filha era alegre, feliz, brincalhona.”
O crime
O corpo da criança foi encontrado na madrugada de quinta-feira (28), no banheiro de uma residência alugada na Avenida Joaquim Manoel de Carvalho, no bairro Vila Carvalho, em Campo Grande. A vítima estava enrolada em um cobertor, dentro de uma banheira, com sinais de estupro e estrangulamento.
A casa, onde Marcos Wilian Teixeira Timóteo morava, apresentava sinais de abandono. Cômodos revirados, quase sem móveis, paredes descascadas e improvisos para mobília mostravam um ambiente precário. No local, havia apenas papelão e uma pequena bacia em um dos quartos, além de uma panela esquecida no fogão da cozinha.
O sepultamento da menina foi marcado por forte comoção. Familiares choravam inconsoláveis, especialmente a mãe, que ficou desolada ao ver o caixão da filha ser fechado.
Por Suelen Morales, Juliana Aguiar e Ana Clara Julião
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