Flora é a 10ª tatu-canastra capturada e monitorada pelo ICAS no Cerrado

Nova fêmea passa a integrar estudo pioneiro no Parque Natural Municipal do Pombo, em Três Lagoas (MS), que busca compreender o uso da paisagem e contribuir para a conservação da espécie

Uma nova tatu-canastra (Priodontes maximus) passou a integrar o monitoramento realizado pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) no Cerrado de Mato Grosso do Sul. Flora, uma fêmea adulta de 26 quilos, foi capturada no último domingo (6), no Parque Natural Municipal do Pombo, em Três Lagoas (MS), e se tornou o 10º indivíduo acompanhado pelo projeto na região.

A captura representa mais um avanço no trabalho desenvolvido pelo ICAS no parque, onde o monitoramento da espécie começou em 2022. A iniciativa busca compreender como os tatus-canastra utilizam a paisagem do Cerrado e quais áreas são essenciais para sua sobrevivência, especialmente diante da fragmentação dos habitats naturais.

“Chegar ao décimo indivíduo monitorado é um marco importante porque cada animal acrescenta novas informações sobre essa população. Estamos construindo, ao longo dos anos, uma base de dados que nos permite compreender melhor como os tatus-canastra vivem no Cerrado, quais áreas utilizam e como se deslocam por uma paisagem que vai muito além dos limites do parque”, explica Gabriel Massocato, coordenador de campo das ações do Projeto Tatu-Canastra no Cerrado.
Monitoramento pioneiro no Cerrado

O trabalho de pesquisa desenvolvido pelo ICAS utiliza transmissores GPS para acompanhar os deslocamentos dos animais e identificar áreas de uso preferencial, padrões de movimentação e possíveis corredores ecológicos que conectam o Parque Natural Municipal do Pombo a outros fragmentos de vegetação nativa da região.

Essas informações são especialmente importantes porque o parque está inserido em uma paisagem marcada por diferentes usos do solo. Ao revelar quando, onde e de que forma os tatus-canastra se deslocam, os pesquisadores conseguem identificar áreas estratégicas para manter a conectividade entre habitats.

“Quando acompanhamos um animal por GPS, ele acaba nos mostrando quais caminhos são utilizados pelos tatu-canastras. Conseguimos observar até onde ele vai, quais fragmentos utiliza e quais áreas podem ser fundamentais para conectar o parque a outros remanescentes de Cerrado. Esse conhecimento é essencial para pensarmos em estratégias de conservação que considerem não apenas a área protegida, mas toda a paisagem do entorno”, destaca Massocato.

Além do acompanhamento por GPS, o projeto mantém 80 armadilhas fotográficas instaladas no Parque Natural Municipal do Pombo. A combinação dessas duas ferramentas permite reunir informações complementares sobre a população de tatus-canastra e sobre a biodiversidade presente na unidade de conservação.

As câmeras já registraram outras espécies de grande importância para a conservação, como o cachorro-vinagre, o lobo-guará, o teiú-mascarado e o tatu-de-sete-bandas. Esses registros reforçam a relevância do Parque do Pombo como refúgio para a fauna silvestre e para a conservação da biodiversidade do Cerrado sul-mato-grossense.

Flora passa a integrar o estudo

Durante a captura de Flora, a equipe realizou os procedimentos necessários para que a nova fêmea pudesse integrar o monitoramento de longo prazo. Participaram desta ação de captura, os médicos-veterinários Raquel Bonato e Henrique Rivas, as biólogas Amanda Melo e Millena Castro, além de uma voluntária argentina, Juana Lima que acompanha as atividades de campo.

Arnaud Desbiez, presidente do ICAS, explica que a chegada de Flora amplia o conjunto de dados sobre os indivíduos monitorados e ajudará os pesquisadores a compreender com mais detalhes as características, os deslocamentos e o uso da paisagem por essa população de tatus-canastra no Cerrado.

“Não estamos acompanhando apenas dez animais isoladamente. Cada novo indivíduo nos ajuda a entender melhor uma população sobre a qual ainda sabemos muito pouco no Cerrado. Quando reunimos os dados de diferentes animais ao longo do tempo, começamos a identificar padrões e também diferenças importantes no uso da paisagem. É esse conhecimento que pode orientar decisões mais eficientes para proteger a espécie”, afirma Arnaud.

Um refúgio para a biodiversidade do Cerrado

Com mais de 80 km² de vegetação nativa preservada, o Parque Natural Municipal do Pombo é um dos maiores remanescentes protegidos de Cerrado da região e representa um importante refúgio para o tatu-canastra e outras espécies da fauna sul-mato-grossense.

Administrado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Agronegócio (SEMEA) de Três Lagoas, o parque possui 8.032 hectares de Cerrado nativo e abriga espécies ameaçadas de extinção, como tatu-canastra, cachorro-vinagre e lobo-guará.

“O Parque do Pombo é uma área protegida com um número expressivo de indivíduos de tatu-canastra, uma espécie que também exerce um papel muito importante como engenheira do ecossistema, já que suas tocas são utilizadas como abrigo por diversos outros animais. Por isso, conservar o tatu-canastra também significa contribuir para a proteção de muitas outras espécies que compartilham esse ambiente”, explica Mariana Dutra, Auxiliar de Fiscal Ambiental, da SEMEA de Três Lagoas.

Desde 2022, o ICAS, por meio do Projeto Tatu-Canastra, trabalha em parceria com a SEMEA para estudar e proteger uma das últimas grandes populações viáveis da espécie na região. A continuidade do monitoramento permite compreender como os animais utilizam a Unidade de Conservação, incluindo seus deslocamentos, áreas de uso e até mesmo se ultrapassam os limites do parque.

“A captura de mais um tatu-canastra reforça a importância de mantermos a proteção dessa área de forma contínua. O monitoramento nos ajuda a entender por onde esses animais circulam, quais áreas utilizam e aspectos de seus hábitos alimentares e reprodutivos. São informações importantes para proteger não apenas o tatu-canastra, mas toda a biodiversidade que encontra refúgio no parque”, destaca Mariana.

O monitoramento desenvolvido no Parque do Pombo também amplia a experiência acumulada pelo Projeto Tatu-Canastra em outros biomas. Criado inicialmente no Pantanal, o trabalho de longo prazo permite comparar aspectos ecológicos, comportamentais e de saúde da espécie em diferentes paisagens.

Além do acompanhamento direto dos tatus-canastra, armadilhas fotográficas instaladas em diferentes pontos do parque geram informações sobre diversas espécies. A parceria entre pesquisadores e poder público permite que esse conhecimento científico também seja incorporado ao planejamento e à gestão da Unidade de Conservação.

“A parceria entre a SEMEA e o ICAS une a gestão da Unidade de Conservação ao conhecimento científico dos pesquisadores. Os dados obtidos podem orientar ações de proteção da área, prevenção de incêndios e trabalho com os proprietários do entorno. Essa troca entre pesquisadores e gestores públicos é fundamental para transformar os resultados científicos em decisões e políticas ambientais”, afirma Mariana.

Para os pesquisadores, compreender como o tatu-canastra utiliza ambientes tão distintos é fundamental para desenvolver estratégias de conservação adequadas à realidade de cada região.

“Nosso objetivo é transformar os dados coletados em conhecimento que possa ser aplicado à conservação. Flora agora passa a contar mais uma parte dessa história. Quanto mais conhecemos esses animais e os caminhos que percorrem, melhores são as nossas condições de identificar o que precisa ser protegido para garantir que essa população continue existindo no Cerrado”, conclui Massocato.

 

TATU-CANASTRA: O MAIOR TATU DO MUNDO

O tatu-canastra (Priodontes maximus) é o maior tatu existente e uma das espécies mais emblemáticas da fauna sul-americana. De hábitos predominantemente noturnos e difícil observação na natureza, pode atingir cerca de 1,5 metro de comprimento e pesar dezenas de quilos.

A espécie também exerce um importante papel ecológico. Por sua capacidade de modificar o ambiente ao escavar grandes tocas, o tatu-canastra é considerado um engenheiro do ecossistema. Essas estruturas oferecem abrigo, alimento ou condições favoráveis para mais de trezentas espécies de vertebrados e invertebrados.

Ao mesmo tempo, características de sua história de vida, como reprodução lenta e nascimento de apenas um filhote por gestação, tornam suas populações particularmente sensíveis às alterações do ambiente. A perda e fragmentação de habitats, por isso, estão entre os desafios para sua conservação.
Proteger o tatu-canastra significa também conservar áreas naturais e a conectividade necessária para inúmeras outras espécies que compartilham os mesmos ambientes.

 

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