Entre tragédias, perdas e resgates, profissionais da emergência enfrentam uma batalha silenciosa contra o adoecimento mental

Foto: Marcos Maluf
Foto: Marcos Maluf

Quando as sirenes se calam, permanecem as marcas emocionais de quem dedica a própria vida a salvar outras pessoas.

O entra e sai acelerado de ambulâncias deu lugar a um silêncio pesado. No quintal da residência, olhos atentos e marejados acompanhavam o trabalho incansável dos colegas de farda. Enquanto mãos ágeis repassavam equipamentos de resgate, outros profissionais permaneciam ao fundo, em oração silenciosa, com os olhos fixos na vítima. Não havia distinção de cargos, patentes ou corporações. Existiam apenas técnica e urgência na tentativa de salvar um menino de apenas dois anos, localizado afogado na piscina de casa, no bairro Vivendas do Bosque, em Campo Grande.

Após mais de uma hora de manobras ininterruptas de reanimação — e contrariando o desejo, a esperança e a fé de todos que ali estavam —, o médico constatou o óbito. Em segundos, a esperança deu lugar ao silêncio. Alguns choravam discretamente. Outros apenas abaixavam a cabeça. Ali já não existiam apenas socorristas e profissionais altamente treinados; existiam pais, mães, filhos, tios e tias que olhavam para o corpo sem vida da criança com a dor imprevisível de quem entende que nem toda batalha termina em salvamento.

Lágrimas furtivas, abraços demorados e olhares distantes mostravam que o fim daquela ocorrência não se encerrava no boletim de atendimento. Aquela cena seguiria viva nos pensamentos, nas lembranças e na memória dolorosa dos profissionais de resgate. Para quem é treinado sob o rigor da disciplina para salvar e proteger, o fracasso muitas vezes nem sequer é verbalizado. Contudo, quando ele se impõe, deixa marcas profundas que vão muito além dos relatórios burocráticos: fica perpetuado na mente, na memória emocional e na pele de cada agente.

O IMPACTO NA SEGURANÇA PÚBLICA

A exposição diária a cenários de extrema dor, violência urbana e tragédias humanas cobra um preço alto e invisível da saúde mental dos trabalhadores de emergência e da segurança pública. Dados compilados pelo 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam um diagnóstico alarmante: o suicídio permanece como a principal causa de morte entre policiais civis e militares no Brasil. O levantamento evidencia que o maior risco enfrentado por esses profissionais nem sempre está no confronto armado da rotina operacional, mas no sofrimento psíquico acumulado ao longo da carreira.

O estudo aponta ainda que, entre as mortes violentas intencionais envolvendo agentes policiais, a esmagadora maioria ocorre durante os períodos de folga, e não no exercício do serviço. Em 2025, foram registrados 110 suicídios de policiais no país — sendo 89 policiais militares e 21 policiais civis. Embora o dado represente uma redução de 12,7% em relação aos 126 casos contabilizados em 2024, especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública alertam que o problema permanece estrutural e crônico. Desde 2017, a tendência histórica aponta para o crescimento sustentado dos casos no país, a despeito das oscilações anuais.

Segundo os pesquisadores, o fenômeno não pode ser interpretado isoladamente por fatores pessoais. Ele resulta da combinação entre vulnerabilidades individuais e fatores do ambiente institucional: exposição contínua ao trauma, jornadas exaustivas, cultura organizacional que desestimula a demonstração de fragilidade emocional, assédio moral e escassez de suporte psicológico e médico contínuo.

Em Mato Grosso do Sul, o cenário também reflete essa urgência. O peso dessas ocorrências não termina quando a sirene é desligada; em muitos casos, acompanha o profissional por anos. O Anuário registrou dois suicídios de policiais em 2025 (um militar e um civil), contra quatro casos no ano anterior, o que representou uma queda de 50%. A taxa estadual recuou de 0,54 para 0,27 óbitos por mil policiais da ativa. Apesar da diminuição pontual, os dados reforçam a necessidade premente de consolidação de políticas públicas permanentes voltadas ao cuidado psíquico de quem atua na proteção da sociedade.

A linha de frente da enfermagem

Se nas corporações policiais o sofrimento mental desponta nas estatísticas violentas, na enfermagem ele se manifesta pelo esgotamento assistencial diário. O adoecimento psíquico de enfermeiros, técnicos e auxiliares que atuam na urgência, emergência, UTIs e no APH-SAMU (Atendimento Pré-Hospitalar) tornou-se pauta central para a saúde pública e para o Cofen (Conselho Federal de Enfermagem).

Estudos científicos nacionais e internacionais confirmam que a enfermagem de urgência está entre os grupos profissionais mais expostos ao adoecimento psíquico. Revisões da literatura apontam prevalências elevadas de ansiedade, depressão, Síndrome de Burnout, fadiga por compaixão e TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático). Essa vulnerabilidade se liga diretamente à natureza do trabalho: responsabilidade assistencial direta, necessidade de decisões clínicas rápidas sob forte pressão e contato frequente com o sofrimento e a morte.
Segundo o Cofen, a rotina desses profissionais reúne fatores que potencializam o adoecimento emocional: contato permanente com traumas graves, jornadas prolongadas, equipes reduzidas, privação de sono e a convivência constante com familiares em sofrimento.

“Imagens de enfermeiros e socorristas chorando ou se abraçando após ocorrências de grande impacto revelam a dimensão humana da enfermagem. O profissional é preparado técnica e cientificamente, mas isso não anula suas emoções. Manifestar dor ou buscar o abraço do colega não é sinal de fragilidade, mas de empatia e compromisso com a vida”, destaca a posição institucional do Cofen em nota oficial enviada ao Jornal O Estado, reafirmando a importância de fortalecer a assistência psicossocial dentro da Rede de Atenção às Urgências.

A VISÃO DA PSIQUIATRIA

A dimensão ocupacional do problema ganha contornos concretos nos registros previdenciários. Em entrevista ao Jornal O Estado, o presidente da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), Antônio Geraldo da Silva, afirmou que dados do Ministério da Previdência Social mostram que as categorias de enfermagem figuram entre as que mais se afastaram do trabalho por transtornos mentais no Brasil: técnicos de enfermagem ocupam o 6º lugar no ranking geral de afastamentos, auxiliares o 18º e enfermeiros o 22º.

Os diagnósticos mais frequentes nos afastamentos da categoria são transtornos de ansiedade e depressão, seguidos por transtorno afetivo bipolar, dependência química, estresse grave e insônia.

“É fundamental pontuar que o trabalho em si não adoece; o que adoece é a nossa relação com as condições e exigências do trabalho. O excesso de jornada, as cobranças sobrepostas e o envolvimento emocional intenso influenciam a saúde mental e podem levar ao esgotamento funcional. Tratar da saúde psíquica do profissional de saúde — quebrando o estigma da busca por ajuda e garantindo acesso ao tratamento psiquiátrico adequado — é também uma medida indispensável para garantir a segurança e a qualidade do atendimento oferecido ao paciente”, pontua o presidente da ABP.

CUIDAR DE QUEM CUIDA

A dimensão das estatísticas nacionais reflete-se no dia a dia da capital sul-mato-grossense. Para mitigar o impacto emocional nas portas de entrada da saúde, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande) estruturou o programa Cuidar de Quem Cuida, regulamentado como política permanente para atender mais de 8 mil servidores municipais, com suporte em psicoterapia, psiquiatria e PICS (Práticas Integrativas e Complementares em Saúde).

Ao longo de sua trajetória, a iniciativa já realizou mais de 20 mil atendimentos. O reflexo da busca por socorro transparece nos números: no primeiro quadrimestre de 2026, foram registrados 2.097 atendimentos — um crescimento de 17,2% em relação ao mesmo período de 2025 (1.789 registros). Além disso, em 2026, a rede foi reforçada com o projeto Acolhimento Seguro, direcionado especificamente às 10 unidades de urgência e emergência da capital (UPAs e CRSs), onde a incidência de incidentes e esgotamento é historicamente mais alta.

Para Esthepani Guimarâes Uchôa – Enfermeira Técnica do Trabalho da Gersau/Sesau (Gerência de Saúde do Servidor) e também enfermeira plantonista na ponta do atendimento, o aumento na procura pelos serviços não sinaliza apenas adoecimento, mas a gradual quebra do preconceito em relação à saúde mental.

“Entendemos que os profissionais estão, finalmente, perdendo o receio de procurar ajuda. Mas raramente a demanda chega de forma espontânea. O servidor da urgência veste uma espécie de armadura, mas nem sempre está estruturado emocionalmente para as situações de crise às quais é exposto”, explica Esthepani.

A especialista enfatiza que no protocolo do Acolhimento Seguro, as equipes atuam ativamente nas unidades de emergência para identificar precocemente os sinais de sofrimento. A notificação costuma vir através das gerências e das chefias imediatas logo após ocorrências de grande impacto emocional.

“Geralmente o encaminhamento vem das chefias ou da indicação de colegas que já fazem acompanhamento com a gente. Nós levamos um treinamento de oito horas para dentro das unidades, com psicólogos e assistentes sociais de prontidão. É uma intervenção rápida para reestabelecer a mente do servidor de dentro para fora”, pontua Esthepani.

Ela relembra como a falta de autopercepção pode agravar quadros silenciosos de depressão, ansiedade e dependências.

“Muitas vezes, como plantonistas, usamos a capacidade e a carga de trabalho como muleta para mascarar o que realmente está difícil na nossa vida pessoal. Tratamos recentemente um servidor inteligentíssimo que estava em sofrimento mental profundo. Ele já está em acompanhamento multiprofissional com a gente há oito meses. Foi quando começamos a pontuar que ele precisava cuidar de si mesmo — da alimentação, do sono, do corpo — que ele começou a se enxergar de verdade e transformar sua rotina. É essa transformação que nos motiva a continuar”, relata a enfermeira.

INICIATIVAS INTEGRATIVAS E ACOLHIMENTO

O sofrimento emocional de quem atua na segurança pública nem sempre aparece em laudos ou estatísticas. Muitas vezes, ele se manifesta no silêncio de quem evita falar sobre uma ocorrência, nas noites mal dormidas ou na dificuldade de deixar para trás cenas que continuam se repetindo na memória. Em um ambiente marcado pela disciplina e pela resiliência, admitir que precisa de ajuda ainda é um desafio para muitos profissionais.

Foi para romper essa barreira que o CABS (Centro de Atenção Biopsicossocial), da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), levou aos municípios do interior, em 2025, a Carreta da Saúde. A iniciativa percorreu diferentes regiões de Mato Grosso do Sul oferecendo acolhimento aos policiais e bombeiros por meio de atendimentos multiprofissionais e práticas integrativas, criando um espaço seguro para que esses agentes pudessem falar sobre o sofrimento emocional sem medo de julgamentos.

A terapeuta floral Joseanne Cristina Roque, que participou da ação, explica que o maior desafio não é identificar o sofrimento, mas fazer com que ele deixe de ser silenciado.

“Quando chegamos às unidades, muitos profissionais dizem que está tudo bem. Mas, durante a conversa, percebemos o quanto eles carregam situações que nunca conseguiram elaborar. O nosso papel é oferecer um ambiente acolhedor para que eles se sintam seguros para falar sobre essas experiências e compreendam que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas um ato de cuidado consigo mesmo”, afirma.

Segundo Joseanne, um dos relatos mais recorrentes evidencia o quanto a empatia, indispensável para salvar vidas, também pode se transformar em um peso difícil de carregar.

“Muitos contam que, durante uma ocorrência, olham para a vítima e enxergam um filho, um sobrinho ou alguém da própria família. É essa sensibilidade que faz deles excelentes profissionais. Mas ninguém consegue absorver tanta dor sem consequências. Quem dedica a vida a proteger e salvar outras pessoas também precisa encontrar um espaço para cuidar da própria saúde mental.”

As sirenes voltaram a tocar poucas horas depois. Novos chamados chegaram pelo rádio. Outras vidas passaram a depender daquelas mesmas mãos. O protocolo permaneceu o mesmo. Mas quem deixou o quintal daquela casa já não era exatamente o mesmo profissional que havia chegado ali. Há feridas que não aparecem nos boletins de ocorrência, nem nos laudos médicos. Permanecem silenciosas, invisíveis, dentro de quem dedica a própria vida a salvar a dos outros.

Por Michelly Perez

 

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