Estado pode voltar a ficar sem deputadas; especialistas e parlamentares apontam machismo e falta de apoio partidário
A Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) pode voltar a não ter nenhuma mulher entre os 24 deputados estaduais a partir de 2027. Embora o cenário dependa do resultado das eleições de 2026, a participação feminina na disputa e os obstáculos historicamente enfrentados pelas candidatas mantêm aceso o alerta para um possível retrocesso na representação das mulheres no Parlamento estadual.
Atualmente, apenas três mulheres ocupam cadeiras na Casa: Lia Nogueira (PSDB), Gleice Jane (PT) e Mara Caseiro (PL), o equivalente a 12,5% da composição parlamentar, sendo que a última tentará o cargo para deputada federal.
A baixa presença feminina no Legislativo contrasta com o perfil do eleitorado sul-mato-grossense. Dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostram que as mulheres representam 53% dos eleitores do Estado, enquanto os homens correspondem a 47%.
Apesar de serem maioria entre os votantes, elas continuam ocupando uma parcela reduzida dos cargos eletivos. O cenário evidencia os desafios para transformar candidaturas em mandatos e reforça o debate sobre a ampliação da presença nos espaços de poder.
No Centro-Oeste, a representatividade nos parlamentos estaduais também permanece reduzida. Goiás possui quatro deputadas estaduais entre os 41 parlamentares; o Distrito Federal conta com quatro mulheres na Câmara Legislativa; e Mato Grosso tem uma representante na Assembleia Legislativa, Janaina Riva (MDB), atualmente licenciada do mandato.
Barreiras começam antes da campanha
Para o cientista político e professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Ailton de Souza, a baixa presença de representantes do sexo feminino no Legislativo estadual é resultado de um processo histórico que começa antes mesmo das campanhas eleitorais.
“Quando a gente olha as estatísticas das mulheres no Parlamento, especialmente falando de Mato Grosso do Sul, é notório que existe uma sub-representação feminina. Os números são muito incipientes. Desde a primeira legislatura nós temos um número quase inexistente.”
Segundo o pesquisador, a desigualdade começa na formação das chapas partidárias, já que os homens ainda predominam entre os interessados em disputar uma vaga. Além disso, fatores culturais, como o machismo estrutural, a resistência de parte do eleitorado em votar em candidatas e a dupla jornada de trabalho dificultam o ingresso e a permanência delas na política.
“Ao não ter um maior número de candidatas eleitas, nós fazemos uma manutenção dessa política historicamente masculina. Há necessidade de romper esse ciclo.”
Embora a legislação determine um percentual mínimo de candidaturas femininas e a destinação de recursos para esse grupo, Ailton avalia que as medidas ainda são limitadas.
“Essas políticas contribuem para aumentar a presença da mulher, mas ainda são insuficientes. É preciso investir na formação de novas lideranças e estimular a participação feminina desde cedo.”
Na avaliação do cientista político, ampliar a ocupação feminina nos espaços de poder depende de mudanças que vão além da legislação eleitoral. Para ele, é necessário fortalecer a formação de lideranças, ampliar a atuação das candidatas dentro dos partidos e criar condições para que elas disputem eleições em igualdade de condições.
Sem essas mudanças, afirma ele, a tendência é que a sub-representação permaneça nos próximos ciclos eleitorais.
Partidos e estrutura ainda são desafios
Uma das três representantes que ocupam cadeiras na Assembleia, a deputada Lia Nogueira (PSDB) avalia que o Estado avançou pouco na ampliação da participação das mulheres no Parlamento. “Nós tivemos, pela segunda vez na história da Assembleia, três mulheres. Só que já houve legislaturas em que não havia nenhuma. Houve avanço, mas ainda muito tímido.”
Na avaliação da parlamentar, o principal entrave continua sendo o machismo estrutural, aliado à falta de apoio efetivo das legendas durante as campanhas.
“Não adianta uma mulher ser colocada apenas para cumprir a cota. Quando começa a campanha, muitas vezes ela fica em segundo plano, sem estrutura e sem apoio.”
A deputada Gleice Jane (PT) também demonstra preocupação com o próximo pleito. Segundo ela, além das barreiras históricas, as candidatas enfrentam um ambiente político mais hostil. “Estamos vivendo uma onda de retrocessos. Pela primeira vez vamos disputar uma eleição em um contexto que questiona a presença das mulheres na política.”
Para a parlamentar, essas dificuldades também aparecem dentro das próprias legendas.
“Existem inúmeras histórias de candidaturas laranjas e até de mulheres pressionadas a repassar recursos destinados às próprias campanhas. A luta dentro dos partidos também é permanente.”
Já a deputada Mara Caseiro (PL) reconhece avanços, mas afirma que a ocupação de cargos eletivos por mulheres ainda está distante do ideal. “A representatividade feminina não reflete a presença das mulheres na sociedade. Precisamos incentivar essa participação porque a política se fortalece quando reúne diferentes visões e experiências.”
Para Mara, o desafio agora é transformar as cotas em oportunidades concretas de disputa. “Mais do que cumprir cotas, é preciso investir na formação de lideranças, oferecer estrutura e criar oportunidades para que as mulheres disputem eleições em condições competitivas.”
Pioneira na política sul-mato-grossense, a ex-senadora e ex-deputada federal Marisa Serrano avalia que, apesar dos avanços, a participação das mulheres na política ainda está distante de refletir o peso que elas têm no eleitorado.
“Não evoluímos o que precisaríamos em relação ao número de eleitores do nosso Estado. Na Câmara dos Deputados, de oito vagas, apenas uma é ocupada por mulher. Na Assembleia Legislativa, das 24 cadeiras, apenas três são ocupadas por mulheres. Ainda é muito pouco.”
Na análise de Marisa, além de enfrentar o preconceito histórico, é preciso assegurar que as candidatas tenham condições efetivas de competir. “Precisamos assegurar que os recursos destinados às campanhas realmente cheguem às candidatas. A questão financeira sempre foi um dos maiores entraves para ampliar a representação feminina, e a visibilidade também faz diferença.”
Apesar das diferentes leituras sobre o cenário eleitoral, especialistas e parlamentares ouvidos pelo jornal O Estado convergem em um ponto: ampliar a participação das mulheres na política depende de mudanças estruturais que vão além das cotas previstas na legislação. Entre os desafios estão a distribuição efetiva dos recursos de campanha, o fortalecimento das candidaturas dentro das siglas e o enfrentamento da violência política de gênero, considerados fatores essenciais para garantir condições mais equilibradas na disputa eleitoral.
Na avaliação de Ailton de Souza, ampliar a ocupação feminina no Legislativo não significa apenas aumentar números, mas tornar o debate político mais representativo.
“Quanto mais mulheres tivermos na Assembleia Legislativa, maior será a sensibilidade com políticas públicas voltadas às mulheres. Muitas vezes essas leis acabam sendo definidas por maiorias masculinas, sem a vivência necessária para compreender essas demandas.”
Com o período de convenções partidárias em andamento, iniciado em 20 de julho e previsto para seguir até 5 de agosto, as legendas definem as chapas que disputarão as eleições de 2026. O resultado desse processo ajudará a indicar se Mato Grosso do Sul conseguirá ampliar a ocupação feminina na Assembleia Legislativa ou voltará a enfrentar um cenário sem representantes mulheres no Parlamento estadual.
Danielly Carvalho
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