Deputado federal defende articulação política, equilíbrio entre produção e meio ambiente e investimentos em infraestrutura – Nilson Figueiredo
Com seis mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, Vander Loubet, presidente estadual do PT em Mato Grosso do Sul, afirmou, durante sabatina ao jornal O Estado, que pretende levar ao Senado a experiência acumulada ao longo da atividade parlamentar.
Durante entrevista, o parlamentar defendeu uma atuação pautada pelo diálogo entre diferentes grupos políticos e econômicos e afirmou que “o Senado precisa de senadores assim, com essa experiência, com essa capacidade”.
Entre as principais propostas apresentadas pelo petista estão a recuperação da malha ferroviária, a consolidação do corredor de saída para o Pacífico, a modernização da circulação de cargas no Mercosul (Mercado Comum do Sul), a regionalização da saúde e o reforço da segurança na faixa de fronteira. Loubet também falou sobre sua relação com produtores rurais e ambientalistas e defendeu a possibilidade de conciliar preservação ambiental e produção. Ao tratar dos conflitos fundiários, destacou que “acredita muito nas negociações”.
Na disputa eleitoral, o candidato justificou o apoio recebido de prefeitos de diferentes partidos pela atuação que construiu ao longo dos anos nos municípios. Também comentou sobre o comando da legenda e a candidatura de Fábio Trad ao Governo.
Confira a entrevista:
O Estado – O senhor está no sexto mandato consecutivo como deputado federal e soma mais de duas décadas de atuação no Congresso. O que considera a principal entrega desse período para Mato Grosso do Sul e o que ainda ficou pendente que pretende levar como prioridade para o Senado?
Vander – Mato Grosso do Sul precisa de um parlamentar com capacidade de articulação. Além de fiscalizar, é preciso fazer com que os investimentos cheguem ao território. O Minha Casa, Minha Vida está chegando às aldeias, aos assentamentos, às cidades e às periferias. Na educação, trouxemos escolas em tempo integral e institutos federais. Foram dez nesse período e, agora, mais dois, chegando a 12 institutos no Estado. Também trabalhei para trazer a UFGD, a Universidade Federal da Grande Dourados, e muitos investimentos em infraestrutura.
Agora mesmo, esse financiamento de R$ 1 bilhão, de US$ 200 milhões para o Governo do Estado, teve minha intervenção junto ao presidente Lula. Ele poderia esperar passar as eleições, mas não olhou a disputa eleitoral, e sim a necessidade do investimento.
Também intermediei a negociação de uma fazenda no Cone Sul, onde havia um conflito entre produtores e indígenas que durava 28 anos. O presidente Lula propôs a compra da área e fez um acordo no STF (Supremo Tribunal Federal). Hoje, os indígenas vivem com tranquilidade e o produtor recebeu o dinheiro e seguiu sua vida.
Essa capacidade de negociar eu tenho. As pessoas sabem que sou de esquerda, mas sabem que respeito quem pensa diferente. O Senado precisa de senadores com essa experiência para fazer as reformas, atender o setor produtivo e garantir direitos para quem precisa ser incluído.
Recentemente, houve um conflito envolvendo produtores e ambientalistas na região do Rio Miranda. A presidência do Sindicato Rural me chamou, fui com o presidente da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) e buscamos uma solução.
Em período eleitoral, não é possível resolver um debate tão complexo de qualquer maneira. Levamos a discussão para o ano que vem para tentar resolver respeitando o meio ambiente, mas também mantendo a produção, porque as duas coisas são importantes para o Estado.
Foi o que fizemos na Lei do Pantanal. Envolvemos ambientalistas e produtores rurais e construímos uma solução que virou legislação estadual. É assim que pretendo trabalhar: trazer todos os setores para a mesa.
O Estado – O senhor apresenta essa capacidade de articulação como uma credencial para chegar ao Senado. O que um mandato de senador permitiria fazer por Mato Grosso do Sul que o senhor não conseguiu fazer como deputado federal?
Vander – Precisamos sair dessa polarização. Tenho minhas posições políticas e convicções, mas sei separar aquilo que penso, respeitando quem pensa diferente. Isso pode agregar muito ao Senado.
Precisamos exigir a recuperação urgente da malha ferroviária. A privatização não deu certo, a ferrovia foi devolvida ao DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e ao Governo Federal e existe uma nova modelagem. Precisamos fazer com que ela contemple todo o Estado. São cerca de 1.600 quilômetros de ferrovia e precisamos recuperar essa estrutura.
Hoje, cargas que saem de Corumbá chegam a ser transportadas por 400 a 600 caminhões ao dia. Isso também é uma agressão ao meio ambiente. Precisamos de uma ferrovia de carga funcionando.
Precisamos avançar na duplicação de rodovias, melhorar a segurança e reduzir acidentes. Também quero trabalhar para resolver conflitos indígenas, como o da Fazenda Buriti, em Sidrolândia. Se resolvermos os conflitos por meio da negociação, conseguimos reduzir a tensão no campo e evitar confrontos. Eu acredito muito nas negociações e é por isso que quero ser senador.
O Estado – Sua candidatura tem recebido apoio de prefeitos de diferentes partidos, inclusive gestores ligados à direita e a grupos adversários do PT. Como o senhor explica essa aproximação e até que ponto esse apoio está relacionado à sua atuação parlamentar e à destinação de recursos aos municípios?
Vander – O prefeito Juliano Ferro (PL), de Ivinhema, definiu isso muito bem quando disse que um passarinho precisa de duas asas, da direita e da esquerda, para voar. Na política não é diferente.
Os prefeitos e as prefeitas precisam de um interlocutor e sabem que sou alguém seguro para ajudá-los, independentemente da cor partidária. Sempre trabalhei dessa forma. Se o Lula for eleito, eles querem ter segurança de contar com um senador que abra as portas do Governo Federal, como fiz durante este governo. Isso mostra maturidade e pragmatismo.
Como deputado, procurei me diferenciar pela presença nos municípios e pela quantidade de investimentos que conseguimos levar. É no município que o cidadão vive. É lá que precisam chegar o ônibus escolar, a escola em tempo integral, o posto de saúde, o asfalto, as casas e os equipamentos de cultura e esporte.
O Estado – Além de candidato ao Senado, o senhor preside o PT em Mato Grosso do Sul e construiu sua trajetória dentro do partido desde os primeiros anos da legenda no Estado. Caso eleito, como pretende separar o papel de dirigente partidário da atuação como senador?
Vander – Voltei a ser presidente do PT depois de 28 anos. Voltei para reestruturar o partido, modernizá-lo e levá-lo para disputar a narrativa no Estado, que perdemos nas duas últimas eleições.
Quando trouxemos o Fábio Trad para ser candidato a governador e colocamos a Dona Gilda como vice, demos musculatura ao projeto. Estamos fazendo uma transição e trazendo novos quadros. Acredito que o Fábio tenha chances reais de levar a eleição para o segundo turno.
No PT, vamos reformular o partido e fazer a transição para novas lideranças. Já renovamos muito em Campo Grande e em Dourados. Estou animado com a política interna do partido e com a possibilidade de, como senador, atender o Estado e construir novas alianças nos municípios.
O Estado – Emendas parlamentares movimentam milhões de reais todos os anos. Quais critérios o senhor pretende adotar para definir quais municípios e áreas de Mato Grosso do Sul receberão esses recursos?
Vander – Tenho uma experiência muito grande nisso. Como coordenador da bancada, tive o trabalho com as emendas de bancada reconhecido nacionalmente. Precisamos priorizar projetos estruturantes. Temos o viaduto da Coca-Cola em Campo Grande, outro viaduto na região onde funcionava a Uniderp e investimentos na BR-419, que vai ligar Rio Verde, Anastácio e Porto Murtinho.
Emendas de bancada devem ser destinadas a obras estruturantes, aquilo que fica e moderniza o Estado. Já as emendas individuais precisam atender às demandas específicas dos municípios. O parlamentar vai ao município, vê as necessidades e recebe a cobrança dos prefeitos e vereadores. É preciso conciliar as duas coisas: grandes obras com as emendas de bancada e demandas locais com as emendas individuais.
Nunca tive escândalo relacionado às minhas emendas. Não tenho emendas secretas, todas são transparentes e, em seis mandatos, nunca tive qualquer questionamento em relação a uma emenda minha.
O Estado – A transparência das emendas parlamentares, principalmente das chamadas “emendas Pix”, ganhou espaço no debate nacional. O senhor defende regras mais rígidas para fiscalização e prestação de contas desses recursos? O que precisa mudar?
Vander – É preciso aprimorar o que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, fez. Houve parlamentares mandando recursos para outros Estados. Isso é um absurdo. Pode existir o repasse por Pix, mas tem que haver projeto e plano de aplicação. Precisamos fortalecer as instituições responsáveis pela fiscalização.
É por meio do fortalecimento das instituições que combatemos a corrupção e damos transparência. Os recursos precisam chegar aos municípios, porque são importantes para atender as necessidades da população. O problema era que não se sabia o caminho do dinheiro. Agora, precisa existir um plano de aplicação e, sem isso, o recurso não deve ser liberado. Precisamos acompanhar o dinheiro desde a saída do orçamento até a execução.
O Estado – Quais pautas legislativas serão prioridade no seu mandato e que impacto concreto elas podem trazer para Mato Grosso do Sul?
Vander – Minha pauta será trabalhar os grandes projetos estruturantes de que o Brasil precisa e trazer esses projetos para Mato Grosso do Sul.
Precisamos consolidar urgentemente o corredor de saída para o Pacífico. Temos cerca de 1.800 quilômetros até o Chile e precisamos reduzir o tempo gasto no transporte das nossas commodities. Para isso, é necessário desburocratizar o processo e evitar que as cargas fiquem paradas por vários dias nas divisas.
Precisamos também consolidar o Mercosul e modernizar a legislação para permitir que as cargas circulem com mais eficiência entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. É necessário discutir as regras para caminhões, circulação e procedimentos aduaneiros.
Outra questão é a segurança da fronteira. Precisamos de atuação integrada entre Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal e forças de segurança estaduais. Temos uma extensa faixa de fronteira e precisamos investir em tecnologia e equipamentos. O crime organizado possui recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados. O Governo Federal disponibilizou recursos para financiar equipamentos aos Estados e precisamos acompanhar essa aplicação.
O Estado – Como pretende equilibrar os recursos para a saúde com outras demandas de Mato Grosso do Sul, como infraestrutura, segurança, educação, geração de emprego e desenvolvimento dos municípios?
Vander – Nas emendas, 50% são obrigatoriamente destinados à saúde. O que precisamos fazer é aplicar bem esses recursos e ter uma política de regionalização.
Vejo que o Governo do Estado peca nisso. Uma pessoa que precisa de atendimento de média ou alta complexidade não pode ser obrigada a percorrer centenas de quilômetros quando existe uma unidade mais próxima em outra região. É preciso organizar os serviços de acordo com a distância e a necessidade da população. Temos um volume enorme de recursos nas emendas individuais e de bancada e precisamos utilizar esse dinheiro com planejamento.
Precisamos fortalecer a atenção básica, as UBSs, a média e a alta complexidade e criar uma regionalização que funcione de verdade. Não é admissível que pessoas de Bela Vista ou Porto Murtinho tenham que percorrer 700 ou 800 quilômetros para conseguir atendimento.
O Estado – O mandato de senador dura oito anos. Ao final desse período, quais resultados o eleitor poderá cobrar do senhor para avaliar se o mandato realmente trouxe avanços para o Estado?
Vander – O eleitor pode me cobrar uma atuação parlamentar baseada na experiência que construí ao longo dos anos. Uma das coisas que quero defender é o fim da escala 6×1. Nós já votamos na Câmara, mas o Senado não teve coragem de votar. Defendemos dois dias de folga por semana, sem redução de salário, com uma transição que respeite o micro e o pequeno empresário. Isso permite que o trabalhador tenha tempo para se qualificar, estudar, ficar com a família e fazer outras atividades. Precisamos aproveitar a tecnologia para que as pessoas possam trabalhar e viver melhor.
Também defendo mudanças na tributação. Já votamos a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e precisamos avançar para alcançar R$ 10 mil. Quem paga proporcionalmente mais impostos ainda é o trabalhador. Precisamos reduzir a carga tributária de quem está embaixo e aumentar para quem está em cima. Dessa forma, teremos mais condições de financiar políticas públicas e fazer com que os investimentos cheguem aos municípios.
É isso que quero que o eleitor cobre de mim: trabalho para que a saúde, os investimentos e as oportunidades cheguem onde a população está.
Danielly Carvalho e Brenda Leitte