Mesmo fora das cadeiras, suplentes têm relevância na política sul-mato-grossense

Foto: reprodução
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Votação expressiva, experiência pública e articulações partidárias ajudam candidatos a preservar espaço após as eleições

 

Não conquistar uma cadeira nas urnas não significa perder relevância política. Em Mato Grosso do Sul, 160 candidatos encerraram a disputa por vagas de deputado estadual e federal na condição de suplentes, segundo levantamento realizado pelo Jornal O Estado com base nos resultados divulgados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Entre eles estão ex-secretários, parlamentares que tentaram a reeleição e vereadores que mantêm bases eleitorais e podem participar de novas articulações durante a legislatura.

Para Shandor Torok Moreira, doutor em Ciência Política pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), pesquisador e procurador do Estado, a posição de um suplente deve ser analisada a partir de três fatores: “capital eleitoral próprio, capital de carreira e posição institucional”. A combinação desses elementos ajuda a entender por que alguns candidatos continuam disputando espaço com políticos eleitos, mesmo sem exercer as prerrogativas de um mandato.

A votação é um dos principais ativos. Na disputa federal, Jaime Verruck (Republicanos) recebeu 49.585 votos e foi o nono mais votado, enquanto Cassy Monteiro (PL) somou 44.865, alcançando a 11ª posição. Na eleição estadual, Luiza Ribeiro (PT) obteve 25.472 votos, mais do que seis dos 24 eleitos. Junior Mochi (MDB) recebeu 23.721, e Marcelo Miranda (PP), 23.112.

Os resultados mostram que a quantidade de votos, isoladamente, não determina quem assume uma cadeira. No sistema proporcional, a distribuição depende do desempenho dos partidos e das federações, e a votação individual também contribui para a eleição de outros integrantes da lista. “Esse estoque de votos é um recurso negociável”, explica Shandor. Para as legendas, candidatos competitivos ajudam a ampliar o resultado coletivo; para os próprios suplentes, a votação pode funcionar como credencial nas próximas disputas.

O capital eleitoral, porém, não explica sozinho a permanência desses políticos nas articulações. A experiência em cargos públicos também pode garantir acesso a redes de relacionamento, lideranças partidárias e setores econômicos. “Um suplente que já foi secretário, prefeito ou parlamentar carrega redes de relacionamento, conhecimento do processo decisório e, em muitos casos, uma máquina de campanha testada”, afirma o pesquisador.

É o caso de Verruck, ex-secretário da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), e de Eduardo Rocha (PSDB), que comandou a Casa Civil. Marcelo Miranda, ex-secretário de Esporte e Cultura, também ficou na suplência estadual. A passagem pelo Executivo pode facilitar o retorno à administração pública e manter esses nomes envolvidos em decisões políticas, independentemente de uma convocação para o Legislativo.

A experiência parlamentar também não garante a reeleição, mas pode preservar a capacidade de articulação. Na disputa pela Câmara dos Deputados, Dr. Luiz Ovando (PP) e Geraldo Resende (União), que já exerciam mandato, terminaram como suplentes. Na Assembleia Legislativa, o mesmo ocorreu com Junior Mochi (MDB) e Antonio Vaz (Republicanos). Para Shandor, a trajetória política precisa ser considerada junto à votação e à posição ocupada pelo candidato na estrutura partidária, já que esses recursos podem continuar relevantes mesmo após a perda de um mandato.

Influência não é o mesmo que notoriedade

Um suplente pode ter mais capacidade de articulação do que determinados parlamentares em exercício, desde que disponha de recursos políticos que não dependam diretamente da cadeira. Shandor distingue o poder formal do Legislativo, como votar, relatar projetos e participar de comissões, daquele construído por meio do controle de estruturas partidárias, da proximidade com o governo e da capacidade de mobilizar eleitores.

“Um secretário de Estado que decide convênios, licenciamentos ou obras tem mais capacidade de atender prefeitos e setores do que um deputado da base que precisa intermediar esses mesmos pedidos”, exemplifica. A comparação ajuda a explicar como um político sem mandato parlamentar pode ocupar uma posição estratégica na relação entre o governo, os municípios e os partidos.

Há, contudo, um limite nessa atuação. “Influência sobre a agenda legislativa exige presença: quem não está em plenário não relata, não vota e não preside comissões”, ressalta. A capacidade de articulação fora da ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) ou da Câmara dos Deputados não substitui as atribuições de quem ocupa uma cadeira.

Listas partidárias e chances de convocação

Foram identificados 132 suplentes na disputa por vagas na Assembleia Legislativa e 28 na Câmara dos Deputados. Na lista estadual, o Avante reúne 22 nomes, seguido por Republicanos e PSDB, com 19 cada. O MDB tem 18 suplentes, enquanto PT e PL somam 16 cada. PP e União contam com nove nomes cada, e Cidadania e PV, com dois cada.

Na disputa federal, o Republicanos lidera, com sete suplentes, seguido pelo PL, com seis, e pelo PP, com cinco. O PT reúne quatro nomes, enquanto União, PV e PCdoB têm dois suplentes cada.

A concentração de candidatos ajuda a compreender a estratégia das legendas. “Os partidos recrutam nomes com votação própria para engordar a soma da legenda; quanto mais candidatos competitivos, mais cadeiras a lista conquista, e necessariamente alguns desses candidatos ficam de fora”, explica Shandor. A presença de políticos experientes entre os suplentes pode, portanto, ser consequência da disputa por votos, e não necessariamente de um planejamento para mantê-los fora do mandato.

A possibilidade de assumir uma cadeira depende de outros fatores, sobretudo da posição na lista e do tamanho da bancada. Quanto maior o número de titulares eleitos por um partido, maiores podem ser as oportunidades de convocação em caso de afastamentos ou outras situações que abram vagas. Licenças para assumir secretarias, renúncias, perda de mandato e decisões judiciais podem alterar a composição das casas legislativas ao longo da legislatura.

A proximidade com o governo também pode influenciar esse cenário. A nomeação de deputados para cargos no Executivo, por exemplo, abre espaço para a convocação de suplentes. As eleições municipais de 2028 são outro ponto de atenção: parlamentares que conquistarem prefeituras poderão deixar suas cadeiras, abrindo caminho para novos integrantes. Ainda assim, ocupar uma posição na suplência não garante a posse, que depende das circunstâncias e da colocação na lista.

Para o eleitor, acompanhar esses nomes também significa compreender o percurso do próprio voto. No sistema proporcional, a votação de um candidato contribui para o desempenho coletivo da legenda e pode ajudar a eleger outros integrantes da lista. Se um titular deixar o cargo, um suplente poderá assumir a cadeira sem a realização de uma nova eleição para aquela vaga.

“Entender a suplência é entender para onde o próprio voto foi”, afirma Shandor. A substituição pode mudar quem exerce a representação política e quais posições chegam às decisões públicas. Por isso, acompanhar os suplentes permite observar não apenas quem venceu nas urnas, mas também como os resultados eleitorais continuam produzindo efeitos ao longo do mandato.

“A cobertura da suplência é parte da cobertura da eleição, e não um apêndice”, conclui o pesquisador.

 

Por Danielly Carvalho

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