Sabatina: Governador fala sobre desafios de Mato Grosso do Sul e propostas para novo mandato

Eduardo Riedel participou da Sabatina do Jornal O Estado - Foto: Nilson Figueiredo
Eduardo Riedel participou da Sabatina do Jornal O Estado - Foto: Nilson Figueiredo

Em sabatina, Riedel avalia alianças e detalha planos para economia e infraestrutura

O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), avaliou os resultados alcançados durante o mandato, além de apresentar em sabatina do Jornal O Estado, as prioridades para uma eventual segunda gestão. Ao longo da entrevista, o chefe d- Executivo falou sobre saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, industrialização, geração de empregos e a Rota Bioceânica. “A gente conseguiu transformar Mato Grosso do Sul em um Estado mais competitivo”, afirmou.

Na corrida eleitoral, o governador minimizou cenário de vantagem nas pesquisas de intenções de votos e ressaltou que a decisão caberá ao eleitor. “Pesquisa é uma fotografia, o que vai definir a eleição é o trabalho”, declarou. Riedel também reconheceu que a administração ainda tem pontos a avançar e admitiu: “Tem muita coisa para fazer, tem muito desafio pela frente”.

Um dos gargalos que Riedel pretende resolver em eventual segundo mandato é a malha rodoviária que segundo ele, ainda precisa de investimentos muito robustos para ser pavimentada na totalidade. Governador frisou ainda meta de ser carbono neutro em 2030 e reforçou o trabalho de compensação que vem sendo feito no Pantanal.

Confira a entrevista:

O Estado – O senhor chega à eleição liderando as pesquisas e apoiado por uma estrutura partidária forte (PP e União Brasil) com presença expressiva no Congresso. Considera que entra nesta disputa como favorito? E qual é hoje o maior risco para a sua reeleição?

Riedel – Acredito que o processo democrático nunca tem essa história de favorito. Temos um trabalho prestado de entregas, uma história e é isso que vai credenciar um nome e essa conjuntura partidária para o pleito eleitoral. A pesquisa hoje demonstra uma posição em relação ao pleito eleitoral, mas não considero sinal de favoritismo.

Entendo que é necessário continuar falando, conversando, demonstrando os nossos projetos, dizer sempre o que foi feito, o que foi construído e a linha que nós vamos adotar olhando para a frente. Mato Grosso do Sul fará 50 anos em 2027 e os próximos quatro anos serão muito importantes na consolidação de uma estrutura de Estado perante todo o cenário brasileiro e global.

O Estado – Até que ponto uma aliança dessa proporção, com forças políticas como Tereza Cristina e Reinaldo Azambuja, pode condicionar as decisões de um eventual segundo turno?

Riedel – O tamanho dessa coligação é fruto desse trabalho e de uma convergência de ideias e de propósitos. Tanto a Tereza Cristina (PP), que a gente tem uma longa história em conjunto, quanto o ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), que é candidato ao Senado, têm uma trajetória de projetos pensados lá atrás e fortalecidos ano após ano.

Eu participei do governo dele [Reinaldo] e ajudei a construir uma trajetória e uma linha para o Estado, onde esse trabalho evolui e se consolida em termos de desenvolvimento, crescimento e educação. Então, existe uma convergência de propósitos. São dois grandes parceiros, e, parceiros com pensamento semelhante ao nosso.

O Estado – Depois de toda essa trajetória dentro da administração estadual, de secretário a governador, qual problema de Mato Grosso do Sul o senhor reconhece que ainda não conseguiu resolver?

Riedel – Tem muitos. Tem uma malha rodoviária que precisa de investimentos muito robustos para ser pavimentada na totalidade. Também temos em andamento uma remodelação completa da saúde do Estado, uma nova arquitetura. Eu sou inconformado com como isso foi desenvolvido ao longo do tempo e precisamos mudar a nossa realidade.
Em cada área de ação da política pública, temos trabalho a fazer. O principal é ter o diagnóstico correto e avançar de maneira acelerada. Sempre digo que não existe obra acabada, senão não teria governo. Governos são para avançar em torno das políticas públicas demandadas pela sociedade.

A sociedade muda muito rápido e a gestão deve estar atenta para incorporar essas mudanças no ganho de eficiência. O recurso é escasso. Isso é uma obsessão minha: gastar melhor. Qualidade do gasto, porque isso vai dar condição de fazer mais.

O Estado – Qual é a sua proposta concreta para reduzir as filas da saúde e fazer com que o paciente consiga atendimento especializado mais perto de onde mora?

Riedel – É essa grande transformação. Quando definiu-se o papel do Estado brasileiro na saúde, na Constituição Federal de 1988, deu-se a obrigatoriedade de União, Estados e Municípios oferecerem saúde pública e gratuita e de qualidade. É um direito universal. Agora, isso não veio acompanhado do financiamento proporcional ao tamanho dessa tarefa.

Por isso temos que ganhar eficiência e gastar cada vez melhor. Nosso projeto está em curso, que é essa nova arquitetura da saúde. Tínhamos apenas um hospital regional no Estado. Hoje temos quatro e estamos dando ordem de serviço para o quinto. Antes era só em Campo Grande. Nós estamos praticamente dobrando Campo Grande. Temos Ponta Porã, Dourados e Três Lagoas, e agora vamos dar ordem de serviço no hospital de Corumbá. Então, ficamos com uma rede hospitalar muito mais robusta dentro do Estado.

Outra vertente é a tecnologia. Ampliamos em mais de 500% o uso da telemedicina. Isso agiliza, barateia e aumenta muito o acesso. Também temos o financiamento de mais de 45 hospitais municipais pelo novo Programa Estadual Hospitalar, que remunera a unidade pela capacidade de execução de trabalho, com valores acima da tabela SUS.

O Estado – Qual será sua principal prioridade para melhorar a qualidade da educação estadual e, ao mesmo tempo, preparar os estudantes para o mercado de trabalho?

Riedel – Investimos mais de R$ 1 bilhão na reestruturação das escolas. São 354 no Estado e hoje temos mais de 260 completamente restauradas. Não estamos falando apenas de pintar a escola e melhorar a rede elétrica. É ambiente digital, refeitório, administrativo, laboratórios de informática, laboratórios de robótica e lousas digitais.

A segunda é a escola em tempo integral. Um dos grandes desafios é reter esse aluno dentro da escola, é que ela seja interessante para ele. A nossa evasão diminuiu demais. Hoje, 62% das escolas são em tempo integral em todos os municípios.

E o terceiro ponto é a preparação para o mercado de trabalho, com os cursos de profissionalização no ensino médio. Mato Grosso do Sul é um dos estados que mais oferece qualificação profissional nesse ciclo. 55% dos nossos alunos estão fazendo formação profissional. São cursos que têm conexão com a realidade da região e com a demanda de profissionais. Mais da metade dos alunos sai da escola com formação técnica, profissional ou em alguma área, aumentando muito a condição de absorver uma oportunidade fruto do crescimento que estamos vivendo.

O Estado – Qual será a prioridade do seu governo na segurança pública e o que pretende fazer, na prática, para reforçar o combate ao crime organizado e a proteção da população?

Riedel – É um investimento permanente em três grandes eixos. A segurança pública depende de inteligência, investimentos, novos instrumentos, novas ferramentas e análises. Hoje há tecnologias à disposição para usar melhor a serviço da segurança pública.

A integração entre as forças de segurança pública é fundamental. Temos forças federais, forças estaduais e integração entre essas forças, com troca de informação e inteligência compartilhada.

Também é necessário investimento em equipamento, viatura, tecnologia e principalmente no nosso pessoal. O efetivo precisa estar cada vez mais capacitado e pronto para agir em torno de uma diretriz central, que é o combate ao crime organizado. Temos que adotar uma ação muito firme em relação a essas organizações criminosas.

O Estado – Como o seu governo pretende conciliar a expansão econômica e a atração de novos empreendimentos com a preservação ambiental?

Riedel – Essa talvez seja uma das áreas que mais orgulho a gente tem em falar, porque nós conseguimos isso. A gente sempre teve o conceito de que crescimento e desenvolvimento não são antítese à preservação. Prosperidade, inclusão, verde e digital são nossos quatro eixos centrais. O verde e a prosperidade são binômio de uma mesma equação.

Nos últimos dez anos, Mato Grosso do Sul foi um dos poucos estados brasileiros que mais reduziram suas emissões de carbono no setor agropecuário. Somos o único estado que tem um projeto de pagamento de serviço ambiental estruturado para o Pantanal. Estamos pagando ao produtor que preserva. Então, invertemos a lógica punitiva para uma lógica de incentivo à preservação.

Saímos de 23 milhões de hectares de pastagem para 18 milhões. Esses cinco milhões de hectares a menos de pastagem degradada viraram floresta plantada, atividade de grãos, duas safras indo para a terceira, amendoim, laranja e cana-de-açúcar. Essa nova matriz produtiva tem um balanço de carbono mais favorável e vai nos levar a ser carbono neutro em 2030.

O Estado – O que o seu governo fará para transformar a Rota Bioceânica em emprego, renda e novos negócios, principalmente nos municípios diretamente impactados pelo corredor?

Riedel – Já está fazendo. A gente tem um trabalho muito forte de capacitação. A UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), trabalhando em Jardim, está no coração da rota. Temos cursos de logística, formação de pessoal e incentivos às empresas que estão se instalando nesse eixo.

Olha o que está acontecendo em Porto Murtinho: investimentos de toda ordem, oportunidade de emprego, e o Estado participando, pavimentando bairro e aumentando o saneamento básico.

Temos um trabalho de infraestrutura importante nesses municípios e de formação e qualificação para essas empresas que estão começando a chegar, mesmo antes da rota entrar em operação. Uma vez terminado o acesso da rota, será um crescente de oportunidade e negócio, estimulando habitação, imóveis, serviços e comércio. Todas essas cidades serão impactadas pela rota enquanto vetor de crescimento.

O Estado – Qual é a sua estratégia para transformar os novos investimentos em empregos de qualidade e aumento real da renda da população?

Riedel – Mato Grosso do Sul é um dos estados onde a renda mais aumentou no Brasil. Hoje somos a sexta maior renda média do país. A única maneira de aumentar a renda real da população é preparar os nossos jovens com formação adequada. Por isso, o investimento maciço em formação técnica nas escolas.

A renda média já está chegando aos R$ 4 mil ao mês por trabalhador. Isso é resultado dessa formação profissional junto com um desenvolvimento e um crescimento que demandam pessoas para estarem presentes nesse mercado de trabalho. A ação concreta do Estado é formação profissional, qualificação e esse ambiente de crescimento e desenvolvimento.

O Estado – Que setores o seu governo pretende priorizar para diversificar a economia e fazer com que uma parcela maior daquilo que Mato Grosso do Sul produz seja industrializada e gere riqueza dentro do próprio Estado?

Riedel – Isso já acontece. O que é produzido aqui gera riqueza aqui. Um exemplo é o milho. Até cinco anos atrás, a produção era algo em torno de 8 a 9 milhões de toneladas e 50% a 60% desse volume era vendido para outros estados e para fora do país.

Hoje produzimos 14 milhões de toneladas e toda essa produção é processada aqui no Estado, na indústria de frango, suíno e etanol. Essa foi uma ação deliberada do Estado: criar um ambiente de negócio atrativo para essas cadeias produtivas.

Nossa ação permanente é a agregação de valor. Vamos produzir floresta plantada e trazer indústria para cá. Vamos vender celulose para fora? Não, vamos trazer indústria de papel e acartonado. Assim vamos o tempo todo subindo na cadeia de industrialização e de serviço para agregar cada vez mais emprego de qualidade aqui no Estado.

O Estado – Se eleito, quais serão as três prioridades do seu primeiro ano de governo e de onde virão os recursos para colocá-las em prática?

Riedel – A nossa linha conceitual tem como resultado final as pessoas, no que diz respeito ao aumento da renda média e à diminuição da pobreza. Nós saímos de 23% para 17% de pobreza. A extrema pobreza saiu de 2,4% para 1,6%.

A oportunidade de emprego e renda é que diminui a pobreza. Para quem está à margem desse processo, o que garante ser resgatado dessa condição é a assistência social e o apoio direto, não só financeiro, mas também para voltar a estudar.

Por isso, quando falamos de prioridade, é fortalecer a educação, o ensino profissional e as nossas universidades. O Supera tem mais de duas mil bolsas para pessoas de baixa renda terem acesso à universidade.

Mato Grosso do Sul é o primeiro colocado em mobilidade social. Isso garante perspectiva melhor. As políticas públicas têm que mexer no fundamento da economia e da sociedade para melhorar nosso IDH e a condição social.

A infraestrutura não é objetivo final. O crescimento não é o objetivo final. Elas são ferramentas e instrumentos para melhorar a vida das pessoas. Esse é o eixo central que a gente vai atuar.

Por Danielly Carvalho e Brenda Leitte

 

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