Quatro mulheres concorrem à Vice-Governadoria em 2026, mas nenhuma lidera candidatura ao Governo
Quatro mulheres estão na disputa pela Vice-Governadoria de Mato Grosso do Sul em 2026. Dona Gilda (PT), Mariliana Santos (Solidariedade), Prof. Enfermeira Kaelly (PSOL) e Silvia Benites (PCO) integram metade das oito chapas que concorrem ao comando do Estado. O número iguala o registrado em 2018 e supera o de 2022, quando duas mulheres participaram da corrida pelo cargo, na época nos grupos de Marquinhos Trad (PSD) e André Puccinelli (MDB).
A presença feminina na disputa pela vice já aparece em diferentes momentos da história eleitoral Sul-mato-grossense. Em 2010 e 2014, três mulheres concorreram ao posto. Foi em 2014 que uma candidata chegou à função: Professora Rose, então pelo PSDB, venceu a eleição e assumiu o cargo de vice-governadora.
Quando o recorte passa para a corrida pelo Executivo, a trajetória feminina é bem mais restrita. Não houve candidatas em 2006, 2010, 2014 ou 2018. Em 2022, Giselle Marques (PT) e Rose Modesto (União Brasil) foram a disputa.
Cenário Atual
Enquanto quatro candidatas aparecem como opções para a vice-governadoria, nenhuma encabeça uma candidatura ao Governo. O cenário chama atenção também pelo perfil do eleitorado: dos 2.024.884 votantes de Mato Grosso do Sul, 1.069.380 são mulheres, o equivalente a 52,81% do total.
Para Andressa Nayara Basmage, presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/MS, a explicação passa pela forma como as próprias estruturas partidárias constroem e sustentam novas lideranças. “A construção de uma liderança política feminina não começa no período eleitoral e não pode se limitar ao momento de formação das chapas. É um processo permanente, que precisa começar dentro dos próprios partidos, com formação de lideranças, participação nas estruturas partidárias, distribuição de recursos e, principalmente, abertura de espaços reais para que as mulheres construam candidaturas competitivas”, afirma.
De acordo com Andressa Basmage, a discussão não se encerra no número de mulheres que conseguem chegar às urnas. A advogada ressalta que a legislação já criou mecanismos para ampliar e proteger essa participação, mas considera necessário que os partidos avancem para além do cumprimento das regras eleitorais.
“A legislação eleitoral criou mecanismos importantes para ampliar e proteger a participação feminina. Mas a representatividade feminina não pode depender apenas de imposição legal. O desafio agora é fazer com que essa presença seja cada vez mais orgânica e consolidada dentro dos próprios partidos”, afirma.
A análise da advogada é de que a discussão sobre participação feminina ultrapassa o número de candidaturas e envolve a própria qualidade da representação política.
“Em uma democracia representativa, é desejável que os espaços de decisão reflitam a própria sociedade. Se as mulheres são mais da metade do eleitorado, ampliar sua participação nos espaços de poder é também uma questão de fortalecimento da democracia”, conclui.
Candidatas defendem mais espaço
Entre as candidatas, Mariliana Santos (Solidariedade) vice do Delcídio Amaral (PRD), aponta o peso do eleitorado feminino como um dos fatores capazes de influenciar os resultados das urnas. “Nós estamos num cenário em que nós, mulheres, fazemos a maioria do eleitorado. Então, traduzindo, nós podemos mudar qualquer desfecho eleitoral”, afirma.
Para ela, a mudança também depende de um processo gradual de ocupação dos espaços políticos, com mulheres dispostas a assumir disputas que historicamente foram dominadas por homens. “Estamos nos encorajando para participarmos mais. Ainda que seja um cenário masculino, aos pouquinhos nós estamos chegando”, diz.
Mariliana relaciona essa transformação à atuação que as mulheres já exercem fora da política. “Já saímos daquele núcleo simples de sermos somente donas de casa. Hoje, somos empresárias, desembargadoras e estamos ampliando nosso eixo de atuação”, afirma.
Prof. Enfermeira Kaelly (PSOL), vice de Lucien Rezende, do mesmo partido, considera a presença das quatro candidatas à vice um avanço, mas ressalta que o cenário ainda está distante de uma participação equilibrada nos postos de comando. “Claro que o melhor seria se estas fossem para governadoras e não para vice, pois isso daria mais protagonismo às mulheres”, afirma.
Na avaliação de Kaelly, as barreiras começam antes mesmo das urnas. A necessidade de conciliar a atividade pública com a vida familiar e a maternidade, além da diferença de recursos disponíveis para muitas candidaturas, está entre os fatores que dificultam a entrada e a permanência de mulheres na política.
O cenário político, segundo a candidata, ainda reproduz uma estrutura desigual na distribuição de oportunidades. Apesar disso, ela entende que a presença feminina nas urnas ajuda a abrir espaço para novas trajetórias. “Mesmo com as adversidades e numa velocidade ainda lenta, as mulheres têm avançado na política, como vemos pelas candidaturas femininas em Mato Grosso do Sul”, afirma.
Dona Gilda, que integra a mesma chapa de Fábio Trad (PT) leva a discussão para o impacto que a atuação política pode ter diretamente na vida da população. Para ela, a sub-representação das mulheres ainda contrasta com o peso que elas têm na sociedade e no eleitorado. “Precisamos mudar essa realidade, porque a presença das mulheres na política transforma prioridades e amplia direitos”, afirma.
A candidata também aponta o enfrentamento à violência contra as mulheres como uma das questões que exigem ações permanentes do poder público. “Não bastam discursos. Precisamos de políticas públicas permanentes e integradas, de uma ampla rede de proteção e de ações efetivas de prevenção”, afirma.
Por Danielly Carvalho