‘Quando você entra na polícia, você sabe que está exposto’, diz presidente da Adepol

André Matsushita Gonçalves - Adepol
Foto: Wagner Guimarães

Por outro lado, mesmo não sendo uma situação grave, o presidente da Adepol afirma que precisa de novos concursos

Há 23 anos como delegado da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, o delegado André Matsushita Gonçalves, a frente da presidência da Adepol (Associação dos Delegados de Polícia do Estado de MS), destaca o poder da Polícia Civil de estar nos 79 municípios de MS.

“Hoje, a estrutura da Polícia Civil quer seja de recursos humanos e materiais estão boas. Nós conseguimos mobiliar as delegacias de todas as cidades do Estado. Não existe uma cidade que não tenha delegacia de polícia e unidade da Polícia Civil”, assegurou.

Mato Grosso do Sul conta hoje com 139 delegacias, sete estão na Capital, Campo Grande, dessas três unidades funcionam 24 horas por dia.

E apesar de não ser uma situação grave, o delegado afirma que é preciso mais efetivos. “Precisa de mais gente? Precisa. Querer novos concursos e pedir novos concursos, são bandeiras da Adepol. Mas não é um problema grave, não”, pontuou.

Além dos concursos públicos, o novo presidente da Adepol afirma que pretende dar continuidade aos trabalhos em defesa da categoria. Segundo ele, a função da Adepol é proteger os interesses dos delegados de carreira, como um todo.

“Salário, prerrogativas, melhorias de trabalho, tudo isso são pautas a serem discutidas nas assembleias, nas conversas com os delegados e, após delineadas as questões, levar ao Governo do Estado. Nenhum delegado vai ter sua honra aviltada e não haver nenhum tipo de consequência. Nossa ação vai ser na hora. Chama-se retorsão imediata. Bateu, levou. Então, a Adepol vai tutelar os interesses gerais dos delegados de forma coletiva e também as demandas individuais”, afirmou.

O Estado: Como uma carreira de delegado inicia? As transferências ocorrem constantemente, o delegado consegue fixar em uma cidade?

Delegado André Matsushita: O delegado entra na classe inicial, 4ª classe, e, na maioria das vezes, é deslocado para o interior. Funciona assim: atualmente, temos um número x de delegados trabalhando, um novo concurso é aberto, um concurso de remoção interno, para que os delegados que já estão atuando escolham para onde querem ir. Então, eles sobem e vão se aproximando de Campo Grande, de cidades maiores, como Dourados, Três Lagoas e etc. Diante disso, abre-se a base para novos delegados. Desse modo, não acontece nenhuma injustiça, como o de alguém mais novo ficar num lugar melhor do que aquele que já está no cargo há um tempo.

O Estado: Ser delegado é uma profissão de risco? Muitos sofrem ameaças ou buscam não atuar em cidades de fronteira?

Delegado André Matsushita: Qualquer carreira policial é de risco, faz parte de sua natureza. Quando você entra na polícia, você sabe que está exposto a situações de risco, 24 horas por dia. O CPP (Código de Processo Penal) diz que a autoridade policial e seus agentes devem prender em flagrante. Portanto, o delegado não tem que estar de plantão, não tem que estar trabalhando, não tem que estar na área dele para atuar diante de um flagrante. Ele é obrigado a fazer isso. No interior, todo mundo sabe quem é o delegado, já na Capital, estamos no meio de todo mundo, ninguém nos conhece.

Então, por exemplo, você vai numa pizzaria com a sua família e acontece uma situação de violência, você vai ser o primeiro a ser chamado ou até mesmo atingido. Então é, sim, uma profissão de risco, mas é maravilhosa. Tanto é que quem deseja ser delegado e entra na carreira, dificilmente sai, apesar dos riscos. A região de fronteira não é mais perigosa e nem menos perigosa. O policial que trabalha, que atua absolutamente dentro da lei, no rigor da mesma, não tem inimigos. Ele está fazendo o trabalho dele.

O perigo vai existir em qualquer lugar, quer seja na fronteira, quer no interior ou na Capital. Mato Grosso do Sul é um Estado mais tranquilo. Eu vim de São Paulo, era policial em São Paulo. Olha o que está acontecendo atualmente, em São Paulo, nem se compara à violência de Mato Grosso do Sul, para quem é policial.

O Estado: O Governo empossou 89 novos delegados. Hoje, como está o quadro, em MS? Há instalações de novas delegacias?

Delegado André Matsushita: Hoje, a estrutura da Polícia Civil de recursos humanos e materiais estão boas. Nós conseguimos mobilizar as delegacias de todas as cidades do Estado. Não existe uma cidade que não tenha uma delegacia de Polícia, uma unidade da Polícia Civil em MS. Precisa-se de mais gente? Precisa. Querer novos concursos e pedir novos concursos são bandeiras da Adepol. Mas, este não é um problema grave, não.

O Estado: O sistema de atendimento à população, por meio das Depacs, à noite e aos fins de semana, não é um sistema já defasado para uma Capital como Campo Grande, que exige uma assistência policial mais rápida e dinâmica?

Delegado André Matsushita: Nós temos sete delegacias de polícia na Capital. Dessas sete, temos três que funcionam 24 horas (nas Moreninha, Tiradentes e Centro). Essas três unidades são ininterruptas. O ideal seria que todas funcionassem 24 horas, mas nós não temos efetivo para isso. Portanto foi feito um estudo, foram elencados quais são os pontos que mais precisavam.

O levantamento foi feito geograficamente com relação a mancha criminal. Num plantão é necessária uma equipe de mais 10 policiais. Delegados, escrivães, investigadores etc. Porque você tem um policial que vai trabalhar depois. São 40 horas semanais e tem as folgas. Então para que isso se encaixe precisa de mais policiais para suprir a demanda. Se nós tivéssemos mais policiais e todas ficassem abertas, seria o ideal. Mas nós temos três e é o que a gente pode fazer agora.

O Estado: Sabemos que um Estado sem violência passa por uma polícia forte. Como está a situação da Polícia em MS, em termos salariais e estruturais?

Delegado André Matsushita: De todas as carreiras, eu não posso dizer que nós, delegados de Polícia, temos um salário ruim. Mas temos um salário que merece ser reajustado, pois faz muito tempo que não tem reajuste. É um salário compatível com a relevância do cargo de profissão. O delegado de polícia é um policial, mas, ao mesmo tempo, tem a carreira jurídica junto.

É uma carreira híbrida. Ao mesmo tempo que vai presidir o inquérito policial e vai postular em juízo, ele vai fazer prisão preventiva, prisão temporária ou prisão em flagrante. Ele vai pra rua, vai prender e, além de tudo isso, ainda tem que fazer na atividade-fim, pois ele é o gestor da unidade administrativa. O delegado de polícia vai cuidar do suprimento de fundos, da porta que quebrou, pois ele é a cara da Polícia Cívil, na cidade dele. Nas cidades em que só há um único delegado, o seu comportamento social é que vai espelhar a polícia e isso é muito abrangente. Por isso, penso que o salário é compatível com a demanda tão grande de atividades e ações que eles devem praticar.

O Estado: Hoje, quais serviços são oferecidos sem precisar ir a uma delegacia?

Delegado André Matsushita: Atualmente, ao acessar o site da Polícia Civil é possível registrar algumas ocorrências sem a necessidade de ir, pessoalmente, a uma delegacia, como ocorrências de furto, extravio de documentos e outros crimes leves ou ocorrências não criminais. Isso desafoga a necessidade de o cidadão ir na delegacia, que fica ali para quem foi vítima de um crime mais grave, como os que necessitam de perícia, por exemplo.

Na delegacia virtual, a própria vítima ou o comunicante relata o que aconteceu. O delegado vai fazer análise, para verificar se é realmente um crime, qual crime e então manda o retorno no e-mail que a vítima/comunicante cadastrou.

O Estado: Como está a relação dos delegados com a imprensa, pois em muitas investigações as informações são sigilosas. Até onde vai o limite da notícia?

Delegado André Matsushita: Não existe uma regra. O artigo 20 do CPP diz que o delegado de polícia vai manejar o sigilo do inquérito no interesse da investigação. E como cada investigação é personalíssima, não tem uma regra geral. Não existe um outro interesse. Não pode existir, por exemplo, o interesse pessoal de autopromoção. Isso não pode existir, pois é um interesse voltado à investigação.

Com relação à imprensa, também, da mesma forma, não existe um padrão. Se o jornalista tratar bem, fizer uma matéria e retratar o que foi dito, o delegado de polícia vai saber quem é um(a) profissional de ética e vai confiar nessa pessoa.

Por outro lado, se o jornalista fizer o contrário, o delegado de polícia não vai ter mais uma boa relação com este profissional da imprensa. Então, vai depender da relação construída, da confiança, da ética profissional de ambas as partes e isso leva tempo. Por exemplo, eu trabalhei muitos anos em homicídios, em São Paulo. Quando há uma investigação e tem-se o retrato falado do suspeito, se eu veicular o registro naquele caso isso pode ser de ajuda, então veicula-se.

Por outro lado, se já sabemos quem é o investigado, e também sabe-se que se a imagem for vinculada ele vai fugir, então não veicula-se. O delegado tem que saber manejar o sigilo e a publicidade dentro de cada inquérito, para que vigore apenas o interesse da investigação e nenhum outro.

O Estado: As duas últimas presidentes da Adepol/MS foram mulheres. Elas assumiram papel de destaque na polícia de MS?

Delegado André Matsushita: Na verdade, o que vai dar destaque para alguém não é o gênero, mas o comportamento, a postura e a forma de agir. Tanto a doutora Regina (Márcia Rodrigues) quanto a doutora Aline (Gonçalves Sinnott) sempre tiveram uma postura pessoal que as levou, naturalmente, à presidência da associação.

O Estado: Quando alguém assume uma associação, tem propósitos, missões e objetivos. Quais são os seus principais, à frente da Adepol?

Delegado André Matsushita: Os dois principais projetos que implantamos, neste pouco mais de um mês à frente da Adepol, foi a criação da Diretoria de Apoio Biopsicossocial, que nós não tínhamos antes. Este é um apoio à saúde mental do delegado de polícia, do nosso associado, tanto da ativa quanto para os inativos. O objetivo é identificar depressão, síndromes de burnourt, por exemplo. Temos tantos delegados da ativa que, quando passados à inatividade, isso tem um peso enorme, muito impactante na vida de cada um. Por exemplo, depois de 30 anos trabalhando como delegado, muitos não se prepararam para a inatividade e acabam sofrendo as consequências.

O outro projeto vai se chamar “Fala, delegado”. Todo mês, um delegado de polícia fará uma palestra na Adepol. Nós temos um auditório maravilhoso e temos que usá-lo. Quero ver ele funcionando. Serão palestras sobre direito, técnicas policiais, tudo voltado à atividade do delegado e em convênio com uma universidade.

Eu dou aula na faculdade e pretendo trazer os acadêmicos de direito para dentro da carreira de delegado, para que eles conheçam e se interessem por ela. A função da Adepol é tutelar todos os interesses republicanos dos delegados da carreira, como um todo.

Salário, prerrogativas, melhorias de trabalho, tudo isso são pautas a serem discutidas nas assembleias, nas conversas com os delegados e, após delineadas as questões, levar ao Governo do Estado. Nenhum delegado vai ter sua honra aviltada e não haver nenhum tipo de consequência. Nossa ação vai ser na hora. Chama-se retorsão imediata. Bateu, levou! Então, a Adepol vai tutelar os interesses gerais dos delegados de forma coletiva e também as demandas individuais.

Na associação, nós temos advogados para defender os delegados, o clube dos delegados, um hotel, há assistência médica, odontológica e tudo isso faz parte da prestação de serviços para o associado.

Por Bruno Arce – Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul.

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