Modelo de transporte público adotado na Capital passou a ser insustentável

Ônibus
Foto: Nilson Figueiredo

Paralisação de ônibus termina após congestionar o trânsito, atrasar trabalhadores e preocupar usuários

Por Kamila Alcântara e Camila Farias – Jornal O Estado

A greve que provocou danos aos usuários do transporte coletivo de Campo Grande, motivada pela falta de pagamento aos trabalhadores de ônibus, revelou um dos problemas provocados pelo modelo de mobilidade urbana mantido pelo ex- -prefeito Marquinhos Trad, que para especialistas já se tornou insustentável. A análise é do arquiteto Fayez José Rizk. Vale lembrar que, em janeiro deste ano, a categoria estava planejando uma paralisação pela falta de reajuste salarial.

Ouvido pelo jornal O Estado, o arquiteto Fayez José Rizk explicou que o atual modelo de mobilidade data de 1978 e que, por adequações realizadas anteriormente, se tornou insustentável e acumula prejuízos para os usuários e para o próprio Consórcio Guaicurus.

“O que a gente está vendo hoje é um resultado de um descaso. Esse sistema de ônibus de Campo Grande foi planejado em 1978. Só que a cidade cresceu, tiraram o terminal do Centro e o sistema ficou maluco. Aconteceu que com isso, o sistema todo foi falindo. Ao contrário do que pensam, as concessionarias/consórcios não estão tendo lucros. Ele está deficitário”, pontuou.

Segundo o especialista, o modelo aplicado na Capital contabiliza prejuízos e, por isso, a dificuldade da empresa em realizar os pagamentos necessários.

“Eu acredito que eles estão tendo prejuízo e aí começa a concessão. Está errado! Vai alimentar um sistema que morreu. Está mal planejado, esse troço não funciona mais. Acabou o sistema de Campo Grande, não sei como que vai resolver. É um problema tão complexo que não é da noite para o dia que vai resolver”, lamentou.

Na prática, os usuários sofrem as consequências. Mesmo assumindo o seu posto na empresa de cargas ao meio-dia, Elsio Sales, de 55 anos, morador do bairro Moreninha II, acordou cedo e foi caminhando até o terminal próximo da sua casa. Depois que percebeu a demora do ônibus, retornou para sua residência, ligou a televisão e recebeu a notícia que surpreendeu todos os campo-grandenses na terça-feira (21): paralisação total dos motoristas de ônibus coletivos. Pelas ruas, a manhã foi de trânsito congestionado, pessoas na espera de um veículo por aplicativo, empregadores recorrendo a terceirizadas para buscar os funcionários e até indivíduos encarando a jornada até o trabalho a pé, como fez o Elsio.

O jornal O Estado encontrou o trabalhador na Avenida Gury Marques, na metade da caminhada de 6 quilômetros. “Vi na televisão que não ia ter ônibus. Precisava ir ao Centro resolver algumas coisas, mas agora resolvi caminhar até o trabalho para conseguir sair mais cedo e encaminhar a caminhada na volta”, desabafou Elsio.

O comunicado oficial foi divulgado nas redes sociais, às 6h, que dizia: “Após o Consórcio Guaicurus enviar ofício à prefeitura segunda-feira (20), alegando esgotamento de recursos e consequentemente não realizando o pagamento dos funcionários, os motoristas cruzaram os braços ontem (21) e não têm previsão de volta”.

O presidente do STTCU-CG (Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo de Campo Grande), Demétrio Freitas, lamentou os transtornos, mas diz que, se a paralisação fosse avisada, a empresa não tomaria providências.

“Já tem um tempo que a empresa vem solicitando do sindicato para que se facilite o pagamento de algumas verbas. Nós entendemos e atendemos, mas a gota d’água foi o não pagamento do vale, que era para ter sido na segunda. O usuário precisa entender que somos trabalhadores como eles”, defende Demétrio.

Em entrevista para o jornal O Estado, o gerente-executivo Consorcio Guaicurus, Robson Strengari, diz que a empresa compreende a motivação da paralisação, mas que era preciso cumprir o que determina a lei. “Entendemos como uma greve inconveniente e que não obedeceu aos ditos legais para tal. Deveriam fazer assembleia, comunicar com pelo menos 48 horas de antecedência, ter parte trabalhando”, declarou Robson.

Usuários

Há mais de três anos vendendo café, balas e salgados na entrada do Terminal Morenão, Solange Silva chegou ao ponto de venda às 5h, como de costume, e se deparou com o terminal fechado. “É a primeira vez que vejo algo assim, as pessoas chegavam perguntando, mas eu também não sabia. Os salgados continuam aqui, não consigo vender e as contas não param de chegar”, conta.

Conforme informações repassadas pelo diretor-presidente da Agereg (Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Campo Grande), Odilon de Oliveira Junior, além dos usuários pagantes, o município repassa R$ 800 mil ao Consórcio Guaicurus mensalmente, que corresponde às 200 mil pessoas que não são pagantes, que são os estudantes, portadores de deficiência e seus acompanhantes legais. Sem acordo

Aconteceu na tarde de ontem (21), na prefeitura, a reunião envolvendo representantes de diversos órgãos para discussão do transporte público.

Além da prefeita Adriane Lopes e do presidente da Câmara Municipal, vereador Carlão, estavam presentes os representantes do Consórcio Guaicurus e o procurador-geral do município, Alexandre Ávalo, entre outros nomes. Após uma tarde de debates e discussões, a prefeita afirmou que a reunião já estava prevista no calendário, independente da greve dos ônibus, pois o poder já estava discutindo essa questão desde quando ela assumiu a prefeitura, dando continuidade em tratativas que a gestão apresentou pra Campo Grande.

“Nós estamos buscando soluções que sejam viáveis pra população. Diante desse cenário que foi, nós fomos todos pegos de surpresa no dia de hoje”, declarou a prefeita.

O TRT (Tribunal Regional do Trabalho) determinou que ao menos 80% da frota de ônibus voltasse a circular na cidade, podendo ser multado diariamente em R$ 200 mil. Uma nova reunião foi realizada junto ao TRT, que definiu pela retomada do serviço na Capital.

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