Delegada alerta para negligência ao deixar menores sozinhos e ativista aponta banalização da violência infantil e falta de apoio às famílias
Casos recentes envolvendo crianças e adolescentes voltaram a acender o alerta sobre os riscos enfrentados por menores tanto no ambiente digital quanto em situações cotidianas. Entre os episódios que repercutiram nesta semana está o relato de um motorista de aplicativo e influenciador digital, Willian, que afirmou ter sido surpreendido ao perceber que uma mãe deixou uma bebê sozinha dentro de seu carro enquanto buscava outro filho na escola.
Segundo ele, a criança estava apenas de fralda e permaneceu no veículo por vários minutos enquanto a passageira estava fora. Ao compartilhar a situação nas redes sociais, o motorista fez um alerta sobre os riscos envolvidos.
“A passageira entrou no colégio para buscar o filho e deixou uma bebezinha dentro do carro comigo. A criança estava apenas de fralda descartável, sem nenhuma outra roupa. Já fazia quase cinco minutos que ela estava ali. Uma situação dessas é muito preocupante, porque um abusador precisa apenas de uma oportunidade para fazer o mal”, relatou.
Para a delegada Daniella Kades, da Deaij (Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude), deixar uma criança sozinha em um carro de aplicativo representa um risco grave.
“Se a mãe deixa a criança sozinha no carro de aplicativo, esse motorista é um desconhecido. Mesmo que fosse uma pessoa conhecida, há diversos casos de abuso sexual envolvendo familiares. Portanto, em hipótese alguma se deve deixar uma criança, principalmente uma que ainda não consegue expressar o que aconteceu, sozinha nessa situação. Além do risco de abuso sexual, essa criança poderia ser raptada. O motorista poderia ir embora com ela e nunca mais ela ser encontrada, ou até mesmo ser encontrada morta”, afirmou em entrevista exclusiva ao O Estado.
Segundo a delegada, situações como essa podem se enquadrar em crime previsto na legislação penal.
“Isso configura negligência por parte da mãe e pode se enquadrar no artigo 133 do Código Penal, que trata do abandono de incapaz. Mesmo que a criança tenha sido deixada dentro do carro de aplicativo, ela não estava sob a supervisão de alguém de confiança. A mãe sequer conhece o motorista, não sabe se as informações do aplicativo são verdadeiras, e há todo esse contexto de risco”, explicou.
Riscos também estão no cotidiano
A delegada destaca que muitos perigos estão presentes em atividades aparentemente simples do dia a dia. “Os pais precisam estar mais atentos à rotina dos filhos. Às vezes, uma simples ida ao supermercado, a uma aula de inglês ou à academia pode representar riscos. Se determinadas situações já oferecem perigo para uma mulher adulta, para uma adolescente ou criança o cenário se torna ainda mais delicado.”
Ela também ressalta que os pais devem orientar os filhos sobre cuidados básicos e utilizar ferramentas disponíveis para acompanhar deslocamentos.
“No caso de transporte por aplicativo, muitas plataformas permitem incluir um dependente. Dessa forma, os pais solicitam a corrida e conseguem acompanhar o trajeto em tempo real, verificando se o filho chegou ao destino com segurança.”
Além disso, Kades lembra que existem aplicativos de controle parental que podem auxiliar no acompanhamento da rotina digital.
“Hoje há uma infinidade de aplicativos de controle parental, muitos gratuitos e disponíveis na internet, além de opções pagas. Basta que os pais busquem essas ferramentas e utilizem os recursos disponíveis para acompanhar a atividade dos filhos.”
Ambiente digital amplia vulnerabilidades
Outro ponto de preocupação, segundo a delegada, é o ambiente virtual, que pode facilitar o contato de criminosos com crianças e adolescentes. “O ambiente digital é perigoso não apenas para crianças e adolescentes, mas também para adultos. No caso dos mais jovens, que ainda estão em desenvolvimento e são mais vulneráveis, os riscos são ainda maiores.”
Ela explica que criminosos frequentemente utilizam identidades falsas para se aproximar das vítimas.
“Há diversos casos em que, posteriormente, se descobre que a pessoa era um pedófilo, muitas vezes um adulto ou até um idoso que se passava por adolescente. Esses indivíduos mantêm conversas durante meses com jovens que sequer sabem com quem realmente estão falando.”
Segundo a delegada, mesmo quando crianças e adolescentes evitam compartilhar informações diretas, criminosos conseguem identificar detalhes da rotina das vítimas. “Mesmo sem revelar informações explicitamente, é possível descobrir muitos dados ao longo de conversas aparentemente inocentes. Com o tempo, é possível identificar a rotina da vítima.”
Ela também alerta que mudanças de comportamento podem indicar situações de risco.
“Quando a criança passa a querer ficar sempre com a porta do quarto fechada, apresenta tristeza constante, isolamento ou comportamento agressivo, é importante investigar. Esses sinais podem indicar que algo está errado.”
Casos recentes aumentam alerta
Nesta semana, outro episódio chamou atenção: uma criança de 9 anos morreu após suspeita de participar de um desafio envolvendo desodorantes divulgado na internet.
Também repercutiu o caso de duas adolescentes que mataram aula para encontrar um homem com quem conversavam pela internet e acabaram sendo vítimas de abuso.
Para a assistente social Daniela Cássia Duarte, presidente do Movimento Mãe Águia e ativista na defesa de crianças e adolescentes, esses episódios refletem um cenário cada vez mais preocupante.
“No trabalho que realizo nas comunidades, percebo que o abandono e a violência sexual (tanto o abuso quanto a exploração) têm sido cada vez mais banalizados pela população”, afirmou ao O Estado.
Segundo ela, o problema atravessa diferentes classes sociais.
“Essa realidade ocorre em diferentes contextos sociais. Muitas vezes ouvimos pessoas afirmando que a culpa é das próprias crianças ou adolescentes, como se elas ‘se oferecessem’ ou ‘não tivessem juízo’.”
Falhas na rede de proteção
Daniela afirma que muitas famílias também relatam sensação de abandono institucional. “Muitas famílias que procuram o Movimento Mãe Águia relatam sentir-se perdidas, sem apoio das redes intersetoriais e abandonadas à própria sorte.”
Diante desse cenário, ela defende maior investimento em políticas públicas. “Torna-se cada vez mais urgente a adoção de medidas mais rigorosas para proteger crianças e adolescentes. É necessário que recursos das três esferas de governo sejam aplicados em políticas públicas voltadas à infância, adolescência e proteção das mulheres.”
Supervisão ainda é principal proteção
No ambiente digital, Daniela alerta que a falta de supervisão aumenta a vulnerabilidade de crianças e adolescentes. “Estima-se que cerca de 70% das crianças e adolescentes acessam a internet sozinhos, sem supervisão. Isso aumenta significativamente os riscos de abusos, cyberbullying e outras violações.”
Segundo ela, além da exposição a conteúdos nocivos, há impactos na saúde mental. “Essas situações, embora muitas vezes não deixem marcas físicas visíveis, podem gerar consequências graves, incluindo automutilação e transtornos mentais.”
Diálogo é ferramenta de proteção
Para a ativista, o diálogo dentro da família continua sendo uma das principais formas de prevenção. “Quando a família tem o hábito de conversar sobre tudo – tanto assuntos positivos quanto dificuldades – a criança compreende que não existem segredos ou temas proibidos de serem compartilhados.”
Ela também orienta que os pais expliquem os riscos sem provocar medo excessivo. “A proposta é ensinar ferramentas de autonomia, transformando a segurança em uma habilidade a ser desenvolvida, e não em uma ameaça constante.”
Por fim, Daniela reforça que a proteção exige participação ativa da família. “Os maiores erros dos adultos não surgem da falta de amor, mas da falta de compreensão sobre como o mundo digital funciona.”
Por Suelen Morales
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