Em meio as lojas fechadas na Calógeras, comerciante indiano resiste aos desafios

Foto: NILSON FIGUEIREDO
Foto: NILSON FIGUEIREDO

Em sete anos, o Centro de Campo Grande perdeu três de cada quatro empresas ativas. O número de estabelecimentos caiu de 3.439, em 2018, para 826, em 2025, uma redução de 75,9%. No comércio, a retração foi ainda mais acentuada: o total de lojas passou de 1.971 para 302 no período.

Um dos endereços que ajudam a contar essa transformação é a Ordini Presentes e Hotelaria, na Avenida Calógeras. Um mês após anunciar o encerramento definitivo das atividades, a loja chegou aos últimos dias de liquidação com o salão praticamente vazio e poucas mercadorias restantes nas prateleiras.

A reportagem do O Estado voltou ao endereço 30 dias após o anúncio do fechamento. A loja que durante décadas recebeu clientes em busca de presentes, enxovais e listas de casamento agora reúne poucos consumidores atrás dos últimos produtos vendidos com 50% de desconto.

A cena chamou a atenção de quem passava pela calçada. Lucilene Bastos interrompeu o caminho ao perceber a fita de isolamento na entrada da loja. “Está fechando?”, perguntou. Ao saber que a Ordini encerraria as atividades, demonstrou surpresa. “Eu pensei que eles estavam crescendo.”

A lembrança veio antes da despedida. “Quando a gente tinha casamento, presente de casa, o pessoal sempre colocava a lista aqui. Fiquei triste porque são mais pessoas desempregadas”, afirmou.

Para Lucilene, a situação da Ordini representa uma mudança que já faz parte da rotina de quem ainda frequenta a região central. “Muitas lojas fecharam aqui no Centro. Está tudo fechado. A gente custa a vir e, quando vem, não acha mais nada.”

Funcionária de uma loja no Shopping Campo Grande, Ana Maria também acompanhou o fechamento da Ordini com uma memória ligada ao comércio central. Ela trabalhou durante anos na região e viu a transformação do espaço que antes concentrava a rotina de compras da Capital.

“Eu trabalhei muitos anos aqui no Centro. Trabalhei do lado das Lojas Americanas, onde era o Lojão do Povo. Toda a minha vida trabalhei aqui. Ver as lojas fechando assim é muito triste”, disse.

A trabalhadora soube do encerramento por uma colega e decidiu aproveitar a liquidação. “Não tem mais quase nada”, comentou enquanto procurava os últimos produtos disponíveis.

Mudança que aparece nos números

A cena acompanha uma mudança que aparece nos indicadores econômicos da região. Segundo levantamento da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Campo Grande, as transações comerciais no quadrilátero central diminuíram 60% entre 2018 e 2025, passando de 12,5 mil para 5 mil.

No mesmo período, o faturamento mensal do varejo caiu de R$ 25 milhões para R$ 11,25 milhões. Além de perder consumidores, o comércio central também passou a receber compras de menor valor: o ticket médio caiu de R$ 162 para R$ 48.

O esvaziamento também ocorreu fora das vitrines. A população do quadrilátero central caiu de 11.509 moradores, em 2010, para 9.007 em 2022, redução de 21,7%. A região foi a única de Campo Grande a registrar perda populacional no período.

Para o presidente da CDL Campo Grande, Adelaido Figueiredo, a recuperação da região depende de medidas que ultrapassem o comércio. Segundo ele, é necessário criar políticas públicas para majorar a ocupação residencial do Centro e melhorar as condições de segurança.

“Se nós não tivermos uma política pública focada em levar morador para o Centro e restabelecer a segurança, nós não vamos conseguir revitalizá-lo”, afirmou.

Segundo Adelaido, a região precisa recuperar a capacidade de atrair moradores e consumidores. “Nós temos uma série de terrenos vazios ali que precisam ser preenchidos com novos moradores. Isso é uma política de médio prazo.”

Em outra frente, o presidente da CDL defende ações imediatas para melhorar a experiência de quem trabalha e circula no Centro. Ele cita problemas como falta de estacionamento rotativo, insegurança e dificuldades relacionadas à presença de moradores em situação de rua.

“Não depende só do comércio, vai depender de uma decisão de política pública para que a gente possa resgatar o Centro como um espaço comercial”, disse.

Quem ainda aposta no Centro

Enquanto algumas lojas encerram as atividades, outras tentam permanecer na região central. Quase em frente à Ordini, o comerciante indiano Shipo mantém uma loja de roupas há quatro anos. Antes disso, ele já havia trabalhado por uma década no comércio do Centro.

Mesmo acompanhando o fechamento de estabelecimentos vizinhos, ele planeja ampliar o negócio e procura um ponto maior para incluir novos produtos, como roupas infantis. O motivo, segundo ele, é que o espaço atual ficou pequeno.

A decisão de continuar na região, porém, passa pela conta mensal do comércio. “O aluguel aumenta todo ano. Imposto é mais caro. Funcionário custa mais. Venda menos”, afirmou.

Para Shipo, a redução do movimento também está ligada à saída de serviços que antes levavam consumidores ao Centro. “Banco fechou aqui. Lotérica fechou. Foi tudo para os bairros.”

Apesar do plano de expansão, o comerciante afirma que a permanência depende de um custo que caiba no faturamento. “Melhor aluguel baixo. Todo mês é pesado.”

Na Ordini, a gerente informou que não poderia comentar os motivos do encerramento sem autorização da supervisão. Antes de encerrar a conversa, porém, resumiu o cenário acompanhado diariamente da porta da loja. “As lojas aqui nessa rua fecharam todas, praticamente.”

Por Djeneffer Cordoba 

 

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