Mais de 60% dos ninhos monitorados estão em residências, onde moradores ajudam pesquisadores a acompanhar a reprodução
Encontradas em parques, avenidas e nos quintais das casas, as araras fazem parte da paisagem de Campo Grande e ajudaram a transformar a Capital em referência nacional na conservação dessas aves em ambiente urbano.
Esse reconhecimento é resultado de uma combinação entre arborização, disponibilidade de alimento e um trabalho contínuo de monitoramento desenvolvido pelo Instituto Arara Azul, que acompanha a reprodução das espécies e reúne informações para orientar ações de conservação.
O acompanhamento das araras-canindé começou em 2011, com o projeto Aves Urbanas – Araras na Cidade. Ao longo de 15 anos, a equipe passou a identificar ninhos, monitorar casais reprodutivos e acompanhar o desenvolvimento dos filhotes, criando um banco de dados que hoje ajuda pesquisadores a entender o comportamento da espécie dentro da cidade. “Todo projeto de conservação parte do conhecimento básico sobre a espécie. Para conservar, a gente precisa conhecer”, afirma a bióloga Larissa Tinoco, coordenadora de campo do projeto.
Atualmente, mais de 400 ninhos naturais de araras-canindé estão cadastrados em Campo Grande. O monitoramento também ultrapassou a marca de 1,2 mil filhotes identificados por meio de anilhas, microchips e medalhas, permitindo que esses animais sejam reconhecidos ao longo da vida e forneçam informações sobre deslocamento, sobrevivência e reprodução.
Segundo Larissa, a participação da população é uma das principais características do projeto. Mais de 60% dos ninhos monitorados estão em residências e chegam ao conhecimento dos pesquisadores por meio dos próprios moradores. “Os quintais são importantes para as araras aqui em Campo Grande. Muitas vezes é o morador que percebe a presença de um ninho e entra em contato para que a gente faça o acompanhamento”, explica.
Dados ajudam a orientar a conservação
Grande parte dos ninhos cadastrados está em palmeiras imperiais que tiveram o topo retirado e acabaram formando cavidades utilizadas pelas aves para reprodução. Há também moradores que preservam essas árvores justamente por saberem que elas podem servir de abrigo para as araras.
Além dos locais para a construção dos ninhos, a cidade oferece alimento durante praticamente todo o ano. “Manga, coco-da-baía, bocaiúva e baru fazem parte da alimentação delas. É uma espécie bastante generalista, consegue aproveitar bem os recursos que encontra”, explica.
O trabalho realizado na Capital integra as ações desenvolvidas pelo Instituto Arara Azul com outras espécies. No caso das araras-azuis, já são mais de 500 ninhos artificiais instalados, mais de 500 ninhos naturais cadastrados e mais de mil filhotes marcados. Os levantamentos permitem acompanhar o crescimento das populações, identificar ameaças e direcionar medidas de conservação.
Apesar dos resultados, o avanço da urbanização continua sendo um desafio. A redução de áreas com vegetação nativa diminui a oferta de alimento, enquanto a rede elétrica e o uso de linhas com cerol e linha chilena seguem entre as principais causas de acidentes registrados com as aves. “A gente sabe que não são só as araras que correm o risco. Quem também corre risco são pessoas que andam de bicicleta, de moto e até as próprias crianças que vão manipular essas linhas”, ressalta Larissa.
Biel Gill e Ian Netto
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