Superlotação, falta de medicamentos e dívida bilionária marcaram discussão com pacientes, gestores e hospitais
A crise na saúde pública de Campo Grande foi tema de audiência pública realizada na manhã desta segunda-feira (2), na Câmara Municipal de Campo Grande. O debate reuniu pacientes, representantes de trabalhadores da saúde, diretores hospitalares, membros do Ministério da Saúde e da Secretaria Municipal de Saúde. Entre os pontos discutidos esteve a possibilidade de intervenção estadual ou federal no sistema.
A audiência foi proposta pela vereadora Luiza Ribeiro, que defendeu a construção de um pacto institucional para enfrentar o que classificou como crise estrutural e assistencial. “Há cenário de grave crise estrutural e assistencial, marcado por reiteradas denúncias”, afirmou.
Representando o Fórum das Entidades dos Usuários da Saúde, Sebastião Arinos Junior apontou que há leitos hospitalares disponíveis que não estão sendo utilizados por falta de recursos. Segundo ele, o Hospital Universitário tem 30 leitos vagos, além de estruturas no Hospital de Câncer e no Hospital do Pênfigo. Também foram citadas falhas na atenção primária e a necessidade de maior participação do Estado no financiamento.
O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Jader Vasconcelos, informou que o colegiado deu prazo até maio para que a gestão municipal apresente melhorias, considerando que o novo secretário de Saúde assumiu em janeiro. Ele relatou dificuldades enfrentadas por servidores. “Ano passado foi muito difícil, nesses 14 anos em que estou na prefeitura foi o mais difícil, pois está faltando o básico para trabalhar. Falta medicamento, insumo”, disse, afirmando ainda que trabalhadores têm arcado com materiais básicos nas unidades.
Depoimentos de pacientes também marcaram a audiência. A jornalista Ana Rita Amarilia relatou dificuldades para obter insulina e seringas na rede pública. “Já peguei a medicação sem a seringa também, o que não faz sentido”, afirmou.
Diretores hospitalares alertaram para a pressão sobre a rede. O Hospital Regional informou que segue recebendo casos de urgência e emergência e destacou a importância da regulação de leitos, prevista no Sistema Único de Saúde. Já a Santa Casa relatou dificuldades financeiras e ausência de revisão contratual nos últimos dois anos. O diretor João Carlos Marchezan lembrou da intervenção ocorrida em 2005 e alertou para os impactos de uma medida semelhante.
O superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul, Ronaldo Costa, apresentou dados do relatório do terceiro quadrimestre de 2025 e mencionou restos a pagar de R$ 1,3 bilhão do orçamento da saúde de 2025 para 2026. Segundo ele, a União repassou R$ 763 milhões e o Estado R$ 278 milhões. Ele questionou a participação financeira do município nas despesas liquidadas.
O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, reconheceu problemas na rede e afirmou que a pasta passa por processo de reorganização administrativa. “O SUS é tripartite, conta com Estado, União e Município. Nenhum ente isoladamente conseguirá resolver os problemas de saúde”, declarou. Sobre a possibilidade de intervenção, disse que se trata de instrumento excepcional e que, antes disso, é necessário fortalecer o plano de ação pactuado.
A audiência foi motivada por denúncias de superlotação em unidades de pronto atendimento, falta de medicamentos e insumos, paralisação de serviços na atenção primária, fragilização da Rede de Atenção Psicossocial e falhas no sistema de regulação de leitos. O Ministério Público Estadual também instaurou procedimentos para apurar possíveis irregularidades na rede municipal e hospitalar conveniada.
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