Caso reacende alerta sobre violência contra a mulher; comissões discutem resoluções no combate ao feminicídio em MS
O ataque a uma enfermeira na madrugada de quarta-feira (26), na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Bairro Universitário, em Campo Grande, reacendeu a preocupação com a segurança dos profissionais de saúde, e, especialmente, com a violência de gênero. Em nota, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) ressalta estar empenhada em adotar medidas contínuas para aprimorar a segurança nas UPAs e demais unidades de saúde do município.
“A Sesau e a GCM (Guarda Civil Metropolitana), estão empenhadas em reforçar as ações nas demais unidades e estudam iniciativas a curto e médio prazo, para ampliar cada vez mais a segurança nas unidades, como o projeto de monitoramento das unidades, que será interligado à GCM. A Prefeitura de Campo Grande reafirma seu empenho em assegurar que incidentes como este não se repitam e está atenta a novas demandas que possam surgir para melhorar ainda mais as condições de trabalho e segurança em toda a rede de saúde”, afirma o comunicado.
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Banheiro feminino segue sem portas, os furtos são frequentes e população está insegura – Foto: Ana Cavalcante
Na madrugada de quarta (26) o suspeito tentou arrastar a vítima para o banheiro da UPA, em uma tentativa de estupro, mas foi impedido por colegas de trabalho que ouviram os gritos e intervieram. Após ser detido, ele foi trancado na sala de raio-X da unidade, mas conseguiu fugir antes da chegada da polícia.
Em entrevista ao Jornal O Estado, uma pessoa que estava na UPA na tarde de ontem (26) e teve o nome preservado, relata que estava na Unidade há mais de três horas e, além da demora no atendimento, também presenciou o furto de uma bicicleta. A fonte ainda comenta sobre a falta de segurança na unidade. “O furto ocorreu agorinha em um momento em que não havia nenhum guarda no local, o que ajudou para que isso acontecesse”, disse. Ainda de acordo com a testemunha, a presença de um segurança deveria ser contínua para evitar esse tipo de ocorrência.
Sobre o ataque à enfermeira, uma paciente que estava no local afirma ter tomado conhecimento do caso e salienta a necessidade de reforço na segurança da unidade de saúde. “Se falta segurança interna, imagina aqui fora. Desde que cheguei, não fui ao banheiro. Olha o que acabou de acontecer, furtaram uma bicicleta aqui na frente e nem guarda tinha”, acrescenta.
Repúdio e medidas preventivas
Indignados com o ocorrido, o SINTE PMCG (Sindicato dos trabalhadores públicos em enfermagem de Campo Grande) cobra por medidas mais eficazes para garantir a segurança dos profissionais. Entre as reivindicações, está a presença constante de seguranças armados nas unidades de saúde, principalmente durante a noite.
“Fica claro nossa exposição e fragilidade enquanto entregamos à sociedade nosso cuidado e zelo pelo ser humano. É uma vergonha, que nossas unidades, seja na atenção básica, seja na urgência, não tenham um plano de segurança e que o profissional não se sinta seguro para desempenhar sua atividade! Estamos atuando juridicamente para responsabilizar tanto o agressor quanto aos responsáveis por não entregarem a segurança que precisamos ter no local de trabalho!”, enfatiza o presidente do Sindicato, Ângelo Macedo, em nota.
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Foto: Ana Cavalcante
Visando reforçar a segurança dos profissionais de enfermagem, o Coren-MS (Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso do Sul) informa que medidas já estavam sendo discutidas antes mesmo do ataque ocorrido na madrugada de quarta (26). Segundo o órgão, o presidente, Dr. Leandro Dias, e o coordenador da comissão criada para tratar do tema, Dr. Wilson Brum, se reuniram com as deputadas Lia Nogueira e Gleici Jane na Assembleia Legislativa para debater ações preventivas diante do aumento dos casos de agressão contra profissionais da enfermagem.
“Diante dos repetidos relatos de agressão aos profissionais da saúde durante o exercício de seus trabalhos, o Coren de Mato Grosso do Sul está tomando medidas concretas como a formação da Comissão de Combate À Violência e Acolhimento com canais para que os profissionais possam relatar qualquer tipo de agressão vivenciada em seu ambiente de trabalho. Nós, do Conselho Regional de Enfermagem repudiamos qualquer tipo de desrespeito, e estamos trabalhando incansavelmente para que nossos profissionais sejam valorizados e respeitados”, afirma
Violência contra a mulher, a segurança e saúde do trabalhador
O caso levanta novamente a preocupação com os direitos básicos da mulher e a segurança dos profissionais da saúde, especialmente aqueles que atuam no período noturno. Segundo especialista, a vulnerabilidade desses trabalhadores pode gerar impactos significativos na saúde mental e na qualidade do atendimento prestado.
Para o psicólogo Carlos Heber de Oliveira Meneghel, psicólogo na atenção primária à saúde, a exposição frequente a situações de risco é um fator de sofrimento para os profissionais de saúde. “Alguns trabalhos do SUS são extremamente amplos e complexos, como os realizados por enfermeiros, médicos, recepcionistas, técnicos e demais profissionais da saúde, tais como assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, dentistas, etc., o que pode gerar ansiedade e insegurança entre os servidores. A imprevisibilidade da rotina e a falta de capacitação adequada para lidar com cenários de risco tornam o trabalho ainda mais desafiador”, explica.
Com o intuito de combater a escalada de feminicídio em Mato Grosso do Sul, a Comissão de Segurança e Defesa Pública e de Defesa dos Direitos da Mulher e Combate à Violência Doméstica e Familiar se reúnem hoje (27), a partir das 8h, na sala Onevan de Matos, na ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul). O encontro é uma proposição da deputada Mara Caseiro (PSDB), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e Combate à Violência Doméstica e Familiar. “A reunião acontece para criarmos pautas resolutivas sobre a crescente escalada de feminicídios no Estado”, frisou Mara Caseiro.
Por Ana Cavalcante