Em Campo Grande, torcedores citam craque como decisivo; comportamento pesa contra
A presença de Neymar na Copa do Mundo segue como tema de debate intenso no Brasil. E não é diferente em Campo Grande. Entre a admiração pelo talento e as críticas ao comportamento recente, o camisa 10 do Santos desperta opiniões que vão do apoio irrestrito à desconfiança sobre sua utilidade no ambiente da Seleção.
Para parte dos entrevistados pela reportagem de O Estado, a discussão sequer deveria existir. O histórico do jogador e sua capacidade técnica ainda pesam. O funcionário público Valmir Lopes não tem dúvidas sobre o papel central que Neymar deveria ocupar. “Com 100% de certeza o Neymar tem que ir pra Copa. O time tem que jogar pro Neymar, como a Argentina jogou pro Messi”, afirma.
Essa visão encontra eco, ainda que com menos ênfase, em quem valoriza a trajetória construída pelo atleta. A técnica de radiologia Tatiane Lilian considera que o nome de Neymar, por si só, justifica sua convocação. “Acho que ele merece [estar na Copa] sim. Ele tem o merecimento dele, tem o nome dele”, diz.
Entre o talento e o desgaste
Por outro lado, há quem veja no atacante um problema que vai além das quatro linhas. A percepção de desgaste na imagem pública e nos bastidores aparecem como um fator relevante. O comerciante Francisco de Assis acredita que o ambiente ao redor do jogador pode ser prejudicial. “Infelizmente, quando começa com a rejeição, não é bom negócio. Ele já chega lá meio deprimido de tudo. Deixa ele quietinho, porque vai ter rejeição. Eu acho que ele não tá bem-visto perante os olhos dos cartolas lá”, avalia.
A crítica ao comportamento surge como ponto recorrente. O auxiliar de serviços gerais Márcio Rodrigues entende que o talento existe, mas cobra maturidade — e amplia o debate ao citar outro nome da Seleção. “Se ele deixasse um pouco de manha, talvez ajudaria mais. É igual ao Vinícius Júnior, que como atacante, é muito fominha, quer jogar igual joga no time dele, o Real Madrid. Aí fica meio complicado, a gente não vai ganhar nada nunca mais”, opina.
Ainda assim, há quem tente equilibrar a equação entre experiência e renovação. A autônoma Elaine Souza Chaves se declara fã do jogador e acredita que, mesmo sem protagonismo absoluto, Neymar pode contribuir. “Porque até hoje, ele praticamente leva o Brasil nas costas. Nas Copas anteriores, tinha o Ronaldo, tinha outros… Todo mundo se ajudava. E hoje, é só ele. Quem sabe, com esses outros que vão entrar agora, esses novos jogadores, não ajudam ele… Mas eu acho que, nem que seja jogando por 20 minutos, ele ajudaria sim”, projeta.
O arquiteto Alexandre Mello aponta que a questão física pode não ser o maior obstáculo, mas sim o controle emocional. “Ainda mais agora com o que aconteceu nesses últimos três jogos, com ele brigando, arrumando confusão… Isso está queimando o filme dele. Mostra que falta cabeça para ele”, critica.
Maioria dos brasileiros defende jogador na Copa, aponta Datafolha
Marcos Guedes, Folhapress
A maior parte dos brasileiros quer que o técnico Carlo Ancelotti fale o nome de Neymar no dia 18 de maio, no anúncio dos 26 jogadores do Brasil convocados para a Copa do Mundo. É o que aponta a mais recente pesquisa Datafolha.
De acordo com o levantamento, 53% da população deseja ver o atacante de 34 anos no Mundial deste ano, que será realizado nos Estados Unidos, no México e no Canadá. A parcela contra o chamado é de 34%; 8% são indiferentes, e 5% não souberam responder. Os números são mais favoráveis ao atleta em relação à pesquisa anterior: em junho do ano passado, 48% eram a favor, e 41%, contra.
O instituto ouviu 2.004 pessoas de 16 anos ou mais nos dias 7, 8 e 9 de abril, em 137 municípios. A margem de erro dos números apresentados na amostragem geral é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Principal atleta do futebol brasileiro na década de 2010, Neymar tem enfrentado dificuldades nas últimas temporadas. Os problemas físicos passaram a se acumular, e ele nunca conseguiu recuperar seu melhor nível desde a mais grave das lesões, uma ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco do joelho esquerdo, em outubro de 2023.
Àquela altura, o paulista de Mogi das Cruzes já estava no Al Hilal, da Arábia Saudita, em um mercado riquíssimo, mas periférico no futebol. E não conseguiu jogar. Em pouco mais de um ano e cinco meses no time, entrou em campo sete vezes, com um gol e duas assistências.
Volta ao Peixe
No início de 2025, retornou ao clube em que surgiu. A ideia anunciada na volta ao Santos era recuperar a alegria e a forma, justamente com o intuito de regressar à seleção.
O primeiro ano da reunião, porém, ficou bem longe da expectativa bradada na festa de apresentação: “Eu volto com vontade de ser campeão”. A maior glória alvinegra foi escapar do rebaixamento à segunda divisão do Campeonato Brasileiro.
Neymar esteve em 28 jogos da formação praiana em 2025 e em oito em 2026, um total de 36, com 15 gols e sete assistências. Com lesões musculares e ligamentares, teve dificuldade enorme para entrar em campo com regularidade. Quando entrou, teve bons momentos -mesmo atuando no sacrifício, foi decisivo para evitar o descenso no Brasileiro- e também atuações discretíssimas.
“Eu não vou ser o Neymar de dez anos atrás, não vou ser. É muito diferente. Hoje, eu aprimorei o meu jogo de uma forma que, para mim, é o necessário”, disse, em vídeo publicado nas redes sociais. Ele tem divulgado seus treinos e atividades do dia a dia em gravações, sempre com a exibição ostensiva de patrocinadores.
Apoio maior entre bolsonaristas
Seu apelo é maior entre os jovens, que cresceram vendo seus melhores momentos, sobretudo com a camisa do Barcelona. No recorte das pessoas de 16 a 24 anos, com margem de erro de cinco pontos percentuais, 65% são a favor de sua convocação, com 24% contra. Entre aquelas com mais de 60, na mesma margem de erro, a distância é bem menor: 46% a 38%.
Neymar também é mais apreciado por aqueles que se reconhecem à direita no espectro político. Eleitor declarado de Jair Bolsonaro em 2022, ele tem a convocação defendida por 62% dos que dizem que votarão no filho de Jair, Flávio Bolsonaro (PL), na próxima eleição presidencial, com 26% contra -a margem de erro é de quatro pontos percentuais. Entre os que afirmam que votarão em Lula (PT), com margem de erro de três pontos, são 46% a favor e 43% contra.
Só precisa estar em forma, condiciona Ancelotti
FOTO SUB – Vitor Silva/CBF
Legenda p0 Último jogo do atacante com a Amarelinha foi em 17 de outubro de 2023, no Uruguai
No dia seguinte à publicação, teve um desempenho fraco no clássico contra o Corinthians. E, no dia subsequente, ficou fora da última convocação de Ancelotti antes da divulgação da lista final do Mundial.
O treinador é sempre cordial quando questionado sobre o velho craque. Não lhe fecha a porta, porém não lhe chamou nenhuma vez e insiste que só utilizará jogadores fisicamente “100%”. Essa não é a situação de Neymar, o que faz as pessoas próximas ao comandante considerarem muito difícil a convocação.
Em sua mais recente entrevista, concedida ao jornal francês L’Equipe, Ancelotti disse que o atacante “está no caminho certo”. “Ele precisa continuar nessa direção e melhorar seu condicionamento físico”, afirmou.
O italiano chegou a visitar o pequeno estádio José Maria de Campos Maia, em Mirassol, no mês passado, para ver um Mirassol x Santos. O único jogador que poderia de fato ser observado para a seleção seria Neymar. Mas ele não jogou, com um desconforto muscular.
Não ajuda o atleta o fato de o ataque ser o setor com mais opções de qualidade na seleção. Mesmo sem Rodrygo, que teve lesão grave e está fora da Copa, Carletto tem à disposição Vinicius Junior, Raphinha, Estêvão, Matheus Cunha, Luiz Henrique, Gabriel Martinelli, João Pedro, Igor Thiago e Endrick.
No mais recente amistoso da equipe, 3 a 1 sobre a Croácia, Luiz Enrique e Endrick se destacaram, Igor Thiago e Martinelli marcaram. E a possibilidade de Neymar ir ao Mundial ficou ainda mais remota.
Mas o veterano ainda é uma personagem grande do futebol, com três Copas do Mundo no currículo. Embora o número de jogos seja bem maior do que o de nomes como Pelé -por mudanças na dinâmica e no calendário do esporte-, ninguém marcou mais pela seleção do que ele: 79 gols em 128 partidas.
Por Ricardo Prado