Mesmo não tendo interferência direta com o conflito no Irã, abastecer com álcool tem pesado no bolso
foto: Guerra no Irã pressiona combustíveis e já impacta preços em Campo Grande (MS)
Antes do início do conflito entre Estado Unidos/ Israel e o Irã que vem pressionando o mercado do petróleo no mundo, o consumidor em Campo Grande pagava cerca de R$ 3,99 no litro do etanol. Nas últimas semanas o litro do combustível vem apresentando uma série de aumentos com preços que variam de R$ 4,15 à R$ 4,48 conforme levantamento da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) que acompanha os preços semanais.
Mas então, se a Guerra no Irã afeta o preço do petróleo e consequente da gasolina, o que o etanol tem haver com isso? Cabe ressaltar que Mato Grosso do Sul é o 4º maior produtor de cana-de-açúcar e o 4º maior produtor de etanol no Brasil. Em entrevista para O Estado, o professor e economista Odirlei Dal Moro explicou que o etanol é um produto que, em muitos casos, se torna um substituto da gasolina por ter um preço mais acessível.
“Quando sobe o preço da gasolina é natural que o consumidor migre o consumo para o etanol, gerando demanda. Então naturalmente esse aumento de preço do combustível e da gasolina acaba puxando também o preço do etanol por serem dois produtos substitutos próximos, ou seja, que vão cumprir a mesma função no carro”, destaca.
Na terça-feira (24), a reportagem visitou alguns postos da Capital sul-mato-grossense, onde observamos que a gasolina comum varia entre R$ 6,25 e R$ 6,75, dependendo da rede, enquanto o etanol oscila entre R$ 4,19 e R$ 5,00.
Etanol
O recente aumento do preço do etanol no Brasil é resultado de uma combinação de fatores típicos do mercado: a entressafra da cana-de-açúcar, que reduz a oferta, o aquecimento da demanda no fim do ano e o movimento de alta da gasolina. Como combustíveis substitutos, os dois mantêm uma relação direta de preços — quando a gasolina sobe, pressionada pelo petróleo e pela importação, o etanol tende a acompanhar.
Segundo o gerente de um dos postos ouvidos pela reportagem, a elevação da gasolina influencia diretamente o comportamento do consumidor. “Quando a gasolina sobe, quem tem flex migra para o etanol em busca de economia”, afirma
Entre os principais estabelecimentos pesquisados:
Postos da Petrobras:
Gasolina entre R$ 6,25 e R$ 6,48; etanol de R$ 4,19 a R$ 4,48
Shell V-Power:
Gasolina de R$ 6,25 a R$ 6,75; etanol entre R$ 4,27 e R$ 4,47
Ipiranga:
Gasolina entre R$ 6,29 e R$ 6,49; etanol de R$ 4,19 a R$ 4,49
Taurus:
Gasolina de R$ 6,29 a R$ 6,50; etanol de R$ 4,19 a R$ 4,49
Royal Fic:
Gasolina chega a R$ 6,72; etanol atinge até R$ 5,00
E se o conflito durar por mais um mês?
A variação nos preços dos combustíveis no Estado, reflete não apenas a concorrência local, mas principalmente a instabilidade internacional no preço do barril de petróleo, influenciado por conflitos no Oriente Médio, região estratégica para a produção global. Durante entrevista ao diretor-presidente do Sinpetro-MS (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo e Lubrificantes), Edson Lazarotto, o representante avaliou cenários caso a guerra continue.
Segundo Lazarotto, a duração da guerra será determinante para o comportamento dos preços nas próximas semanas.” Curto prazo: alta ou instabilidade nos preços (como já temos visto), pressão no diesel e logística mais cara. A médio prazo: risco de restrição de oferta, margens apertadas e maior volatilidade no mercado”, disse.
O pior cenário considerado pelo representante seria, problemas de abastecimento, repasses frequentes e ambiente de incerteza total. “A continuidade do conflito internacional mantém pressão sobre o petróleo, elevando custos, reduzindo previsibilidade e impactando diretamente toda a cadeia de combustíveis no Brasil”, pontuou.
A tendência é de cautela tanto por parte dos postos quanto dos consumidores. A recomendação do setor é acompanhar os preços com frequência, já que novos reajustes podem ocorrer rapidamente dependendo dos desdobramentos do conflito.
Devido a constante insegurança com os preços da gasolina, o Procon tem mantido um controle dos preços aplicados pelos postos de combustível após as denúncias de cobranças superfaturadas nas bombas. Após ter recebido 29 denúncias, o Procon afirma que vem realizando constantes fiscalizações nos postos autuados.
“Fiscalizações vêm sendo realizadas em cooperação com equipes dos Procons municipais, das agências de metrologia e de instituições conveniadas à ANP. Todos os dados são encaminhados à Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Notificações recomendatórias nos postos e distribuidoras a reunir os esforços necessários para proporcionar a redução ou, ao menos, a manutenção dos preços dos combustíveis e seus derivados, dentro de margens razoáveis de lucro, tomando-se como parâmetro os valores efetivamente praticados na cadeia de preços dos combustíveis.” afirma o Procon em nota.
Ainda segundo a economista, Cristiane Mancini, com a continuidade da guerra que não sabemos por quanto tempo será, pode fazer com que a Petrobras aumente ainda mais os repasses às distribuidoras.
“Dessa forma, outra consequência é o custo do transporte também sofrer reajustes para cima.Outro ponto é que em torno de 1% de alta no preço do petróleo pode fazer com que a inflação no Brasil seja elevada. Dessa forma, o brasileiro sentirá aumento no preço dos combustíveis e alimentos no geral. Além da valorização do Dólar impactando em diversos segmentos no Brasil”, explicou.
Não somente esse setor que pode parecer um tanto previsto mas a produção de fertilizantes também pode sofrer impacto, lembra Mancini. A maior parte do produto é importado do Oriente Médio, o que também pode impactar as safras no Brasil.
“Outro prejuízo possível para o Brasil é o bloqueio da rota de exportação, o que pode causar prejuízos para o Brasil nesse sentido”.
Caminhoneiros: preço mínimo de frete
Durante o programa Bom Dia, Ministro desta terça-feira (24), o ministro do Transportes, Renan Filho enfatizou que a Medida Provisória nº 1.343/2026 representa um avanço decisivo na proteção dos caminhoneiros e no fortalecimento das regras do transporte rodoviário de cargas no país. A iniciativa é para garantir o cumprimento do piso mínimo do frete.
“O cumprimento do preço mínimo do frete e com o preço cumprido, melhora a vida do caminheiro, sobretudo o autônomo, principalmente o pequeno, que na negociação com a grande empresa não tinha poder de barganha. Com o preço mínimo, abaixo daquilo não pode mais”, disse o ministro.
Renan Filho rebateu o argumento de que garantir um valor mínimo de frete aos caminhoneiros teria como reflexo o aumento de preços ao consumidor final.
“Grandes companhias não pagavam o preço mínimo do frete para ampliar o lucro. Não vira preço. Companhias como na área da celulose, empresa de bebida, de distribuição de proteína animal, essas grandes empresas, elas não botam isso no preço, porque elas não conseguem. Imagina o cara aumentar o preço da cerveja, do frango, ele aumentava era margem, esmaga o caminhoneiro, porque ele é grande contratante. Imagina uma cervejaria, o que ela distribui de bebida, ela esmaga o preço do caminhoneiro para aumentar a margem dela”.
Por Ana Krasnievicz, Ian Netto e Suzi Jarde