Construção, cerimônia e despesas exigem planejamento financeiro antes mesmo da vida a dois começar
Quando Hellen Sousa e Edvan Gomes decidiram construir uma casa para começar a vida juntos, o plano era gastar R$ 40 mil. A conta, porém, quase dobrou. Ao final da obra, o casal calcula ter investido cerca de R$ 75 mil no imóvel, valor que ainda será pago por anos por meio de financiamento bancário.
A diferença entre o planejado e o realizado mudou a rotina dos dois. Viagens de fim de semana e saídas foram cortadas, enquanto o trabalho ganhou mais espaço na agenda. O casamento, marcado para dezembro, também será mais simples. A ideia é oficializar a união no cartório, com alianças, documentos e fotos, em um orçamento estimado entre R$ 3 mil e R$ 6 mil.
A história do casal faz parte da quarta reportagem da série “Pra onde vai o meu dinheiro?”, que mostra como escolhas financeiras do cotidiano interferem na vida das pessoas. Desta vez, o foco está na organização das finanças a dois e nas decisões tomadas por casais que estão construindo uma vida em conjunto.
Hellen e Edvan estão juntos há dois anos. Ela está se formando em Jornalismo e ele trabalha como técnico de enfermagem. Os dois ainda não moram juntos, mas a casa está pronta e a mudança deve ocorrer após o casamento.
Renda definiu divisão da obra
Desde o início da construção, a divisão das despesas levou em conta a diferença de renda entre os dois. Hellen calcula ter investido cerca de R$ 12 mil na obra. Edvan ficou responsável pela maior parte do valor restante, além do financiamento bancário que continuará sendo pago por um longo período.
A diferença, segundo ela, foi uma decisão do casal. “Ele gosta de ser o provedor”, conta. Mesmo assim, os dois pretendem dividir as despesas da casa quando começarem a morar juntos.
A ideia é que cada um continue contribuindo de acordo com as possibilidades. Como Edvan ficará responsável pelo financiamento, Hellen pretende assumir despesas como água e energia elétrica.
“Ele já estará pagando o financiamento. Nada mais justo que poder dividir, ainda mais na época em que estamos”, afirma.
O casal também já calcula quais serão as despesas fixas depois da mudança. Entre elas estão água, luz, telefone, internet, carro e o financiamento feito para a construção da casa.
Festa ficou para depois
O orçamento da construção também influenciou diretamente os planos para o casamento. Em vez de uma cerimônia maior, Hellen e Edvan decidiram priorizar a casa e fazer uma celebração mais simples.
A formalização no cartório terá uma taxa de R$ 750. Como os dois precisam emitir novos documentos, haverá ainda o custo de segunda via das certidões, estimado entre R$ 70 e R$ 80 para cada um.
As alianças devem custar entre R$ 2,8 mil e R$ 3,2 mil. Hellen também quer contratar um fotógrafo. Somados, os gastos devem levar o custo do casamento para uma faixa entre R$ 3 mil e R$ 6 mil.
Para os dois, a decisão não foi apenas sobre o casamento. O dinheiro que seria destinado a uma festa passou a ter outra prioridade: terminar a casa e conseguir começar a vida juntos com o imóvel pronto.
Lazer foi cortado para pagar a obra
A construção também mudou hábitos que faziam parte da rotina do casal. As saídas foram reduzidas e as viagens de fim de semana, que Edvan gostava de fazer, ficaram para depois.
“Precisamos deixar de dar as saidinhas. Faz um bom tempo que não saímos. Ele gosta de viajar um fim de semana, mas também cortamos porque não teve mais como”, conta Hellen.
A prioridade passou a ser quitar compromissos e manter as despesas sob controle. Segundo ela, o casal chegou a se desdobrar para trabalhar mais e aumentar a renda diante do aumento dos custos da obra.
Planejamento mudou durante a obra
O principal aprendizado financeiro do casal veio da diferença entre o orçamento inicial e o custo final da construção. O plano era gastar R$ 40 mil. O valor final chegou a aproximadamente R$ 75 mil.
“Na prática, é completamente diferente. Muitas vezes calculamos uma coisa, mas a realidade é outra. Não foi fácil”, diz Hellen.
A experiência também consumiu a reserva financeira que ela havia construído. O dinheiro precisou ser utilizado após uma cirurgia de emergência no ano passado. Agora, uma das metas é reconstruir o fundo para lidar com imprevistos.
Justiça financeira vai além da renda
Para a educadora financeira Sabrina Mestieri, organizar as finanças do casal vai muito além de dividir as despesas de acordo com a renda. Segundo ela, a justiça financeira também passa pelo reconhecimento das contribuições não remuneradas, como o trabalho doméstico, os cuidados com os filhos e a gestão da casa.
“Antes do casal juntar as contas, indico dividir responsabilidades, entender quem será responsável por cada coisa”, afirma. Ela também destaca que “andar junto e transparência é primordial para a construção de uma relação”, defendendo que ambos tenham acesso às informações financeiras, poder de decisão e autonomia.
Na avaliação da especialista, os conflitos envolvendo dinheiro geralmente têm origem na falta de diálogo. “O dinheiro raramente é o verdadeiro motivo dos conflitos. Na maioria das vezes, ele apenas revela problemas de comunicação, expectativas diferentes e a ausência de planejamento”, diz.
Por isso, ela recomenda que o casal mantenha conversas frequentes sobre orçamento, metas e projetos em comum, além de conhecer toda a vida financeira da família para construir uma relação mais equilibrada e segura.
Por Djeneffer Cordoba