Delivery, restaurantes e lanches precisam entrar no orçamento para que despesas recorrentes não passem despercebidas
Um gasto de R$ 20 pode parecer pouco no orçamento do dia, mas, repetido nos dias úteis, chega a cerca de R$ 400 a R$ 450 por mês. Ao longo de um ano, o valor pode passar de R$ 5 mil. A conta mostra como gastos com alimentação fora de casa, mesmo quando baixos individualmente, podem ganhar peso quando entram na rotina da família.
No último IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a alimentação fora do domicílio subiu 0,36%. Na série Para onde vai o meu dinheiro, do jornal O Estado, a reportagem mostra como a frequência de delivery, restaurantes e lanches interfere no orçamento familiar.
Para a educadora financeira Sabrina Mestieri, o primeiro passo é reunir esses gastos em uma mesma categoria e acompanhar o valor durante um mês. “Delivery, restaurante, café, lanche, aplicativo e até aquele ‘só vou comprar alguma coisinha porque eu estou com fome’ precisam entrar na mesma categoria”, afirma a profissional.
A orientação é registrar, durante 30 dias, tudo o que for consumido fora de casa. No fim do período, a família consegue somar os valores e comparar o resultado com a renda. A conta também ajuda a identificar quando um gasto eventual passou a fazer parte da rotina.
“Muitas vezes o problema não está no restaurante caro, mas nessa frequência do pequeno gasto repetido que acaba virando uma despesa fixa sem a família nem perceber”, explica Sabrina.
Um gasto diário de R$ 20, considerando os dias úteis, pode chegar a aproximadamente R$ 5 mil em 12 meses. Se mais de uma pessoa da família mantém o mesmo hábito, a soma aumenta. Para Sabrina, o problema não está necessariamente no valor de cada compra, mas na repetição.
“O problema é não perceber que ele deixa de ser um lanche isolado de R$ 20 e vira uma rotina. E aí, a somatória diz tudo o que vai machucar o orçamento da família”, diz.
Lanche escolar entra no orçamento
O dinheiro destinado à alimentação das crianças na escola também precisa ser tratado como uma despesa recorrente. Em vez de olhar apenas para o valor entregue diariamente, Sabrina recomenda comparar o preço do lanche comprado pronto com o custo de preparar a mesma opção em casa.
Se a família estabelece, por exemplo, que a criança teria R$ 15 por dia para comprar o lanche, pode definir uma meta menor para preparar a alimentação em casa. A partir daí, entram na conta os preços e o rendimento dos ingredientes.
“Quanto custa um saco de pão? Quanto dura o saco de pão? Quanto custa o queijo? Quanto dura o saco de queijo? Quantos sanduíches faz?”, exemplifica.
A conta deve incluir também bebidas e outros itens que fazem parte da lancheira. Para Sabrina, calcular o custo de cada produto ajuda a família a saber quanto realmente está gastando por dia e por mês com essa alimentação.
Ela também defende que as crianças participem dessa conversa. “Educação financeira sempre começa quando a criança, quando o adulto entende que o dinheiro para o lanche também faz parte das escolhas da família”, afirma.
Verba para delivery e restaurante
Cortar completamente restaurantes, delivery e outros gastos desse tipo não precisa ser a solução. Sabrina sugere que a família estabeleça uma verba mensal específica para esse consumo, reunindo o que chama de “alimentação prazerosa”.
O valor pode ser dividido entre as saídas e pedidos previstos para o mês. Uma família que define R$ 300 para essa categoria, por exemplo, precisa acompanhar quanto já gastou e quanto ainda pode utilizar.
“Quando aquele dinheiro termina, não dá para ficar tirando de algum outro lugar. Acabou, acabou naquele mês”, afirma.
A ideia, segundo ela, é manter esse tipo de consumo dentro de um limite conhecido, sem comprometer outras despesas da casa. “Você não precisa viver sem prazer para organizar sua vida financeira. Mas você precisa dar um limite para cada prazer”, diz.
Primeiro passo é saber quanto gasta
Para Sabrina, outro erro comum é tentar resolver o excesso de gastos com um corte radical. A pessoa deixa de pedir delivery ou comer fora por alguns dias, mas retoma o hábito sem ter entendido quanto gastava e qual valor caberia no orçamento. “Então o primeiro passo não é cortar, mas é medir”, resume.
Depois dos 30 dias de registros, a família pode separar os gastos entre necessidade, conveniência e lazer. A partir daí, fica mais claro o que pode ser reduzido e qual valor pode ser reservado para restaurantes, delivery e lanches sem comprometer as demais despesas.
“Um dos principais erros é tratar a alimentação fora de casa como se fosse uma despesa pequena, porque cada compra individual parece pequena. Outra é não considerar a frequência”, afirma Sabrina.
A proposta, portanto, não é eliminar o gasto, mas fazer com que ele deixe de aparecer no orçamento como uma sequência de pequenas compras e passe a ser acompanhado pelo valor que representa no fim do mês e do ano.
Por Djeneffer Cordoba