Pandemia trouxe oportunidades a trabalhadores e indústrias

Trabalhadores da indústria
Foto: Valentin Manieri

Em meio à retração econômica, surgem novos empregos e expansão de mercado

“A pandemia veio para mudar tudo. Nosso modo de ser, de pensar, de se comportar, nosso jeito de viver, produzir.” A declaração poderia ter saído de qualquer dono de indústria, que viu possibilidade de fragilização dos negócios, por conta da situação mundial que o coronavírus provocou. Mas a percepção é do auxiliar de laboratório Arnaldo Pereira Júnior, que trabalha em fábrica instalada no Indubrasil, em Campo Grande.

A Química Central do Brasil Ltda. atua há dez anos fabricando produtos para atender curtumes, frigoríficos, laticínios, estações de tratamento de efluentes e demanda de limpeza em geral. É nela que Arnaldo Júnior trabalha com outros 49 colaboradores que também foram cercados pelo medo de a demissão bater à porta. Todavia, a empresa viu a demanda aumentar e também a oportunidade de oferecer um novo produto para o mercado: o cloro em gel para uso na higiene pessoal, limpeza de superfícies e chão.

Ao mesmo tempo em que pensava na produção para atender a necessidade de outros empreendimentos preocupados com a disseminação do coronavírus, a direção da Química Central também precisava garantir a saúde dos funcionários. Foi preciso aumentar a vigilância com novos dispositivos para higienização e também incutir nos trabalhadores os novos comportamentos de asseio pessoal para não comprometer o coletivo. O cuidado continua a ser seguido à risca e a indústria comemora a marca zero de doentes com COVID-19.

A lição repassada na empresa foi parar dentro da casa dos colaboradores, que entenderam o quanto era importante manter, em todos os ambientes em que estivessem, o mesmo comportamento de cuidado, com uso de máscaras, higienização das mãos, calçados e roupas de trabalho e o distanciamento mínimo de outras pessoas. O Arnaldo Pereira Júnior é um dos funcionários que mudaram o comportamento, graças às informações que receberam e ainda recebem na Química Central.

Arnaldo pedala todos os dias, sete minutos de ida até a indústria e outros sete de volta para casa. A bicicleta é o único meio de transporte que ele tem, mas não reclama, pois tem trabalho, não viu mortes de companheiros pela COVID-19 e, além disso, teve a oportunidade de aprender novos hábitos. “Antes da pandemia, tinha a mania de entrar em casa com a roupa que eu vinha da rua. Agora, deixo o calçado fora, me troco em local separadamente. Limpava a casa com uma vassoura ou pano, hoje jogo água. Limpo tudo, três vezes por semana. A empresa me ajudou a ver isto. É para garantir a minha e a vida dos que estão perto de mim”, diz.

Ex-morador de rua, Arnaldo Júnior diz que tem muito a agradecer na vida. Viveu por oito anos nas ruas com a mãe, em Campo Grande. Certo dia, ela disse que iria procurar emprego e nunca mais voltou. Teve nova chance quando adotado por uma família. Agora, o rapaz suspira fundo ao contar que fez Ensino Médio e que, quando começou o curso técnico, ganhou oportunidade na indústria, em 2018, no setor de produção e depois no laboratório químico.

“Quando começou a pandemia logo pensei que a empresa mandaria os funcionários embora, pois não sabíamos ao certo se tudo fecharia. Ainda bem que não foi do jeito que imaginava, todos os funcionários foram mantidos. Foi a maior alegria para mim. Tinha acabado de mudar de casa com uma filha pequena. Se perdesse o emprego, seria o maior caos.”

Normas pessoais e mudanças dentro das empresas também refletiram no número de acidentes de trabalho, pelo menos na Química Central. Na entrada da empresa, no dia 10 de setembro, uma placa ostentava a marca de 570 dias sem acidentes de trabalho, fato que entusiasma funcionários e proprietários. “Já tínhamos uma abordagem bem clara sobre esta questão de segurança. Quando iniciou a pandemia, aproveitamos a mesma visão e reforçamos o trabalho de conscientização”, destaca o técnico químico comercial Juliano Espírito Santo, que também frisa que é feita anualmente a vacinação em massa contra a influenza, bancada pela empresa.

Juliano acredita que o cuidado com o grupo de colaboradores permitiu que fosse mantida a rotina, a qualidade dos serviços e frota, fato que também é importante para manter as exportações da empresa para o Paraguai, a Bolívia e o Equador. “Por este motivo não só crescemos, como estamos abrindo novos mercados, como domissanitários (saneantes)”, comemora.

Comida na mesa

Independente do setor de atuação, uma coisa é fato no período de pandemia ou não: todos precisam comer, seja com mais ou menos facilidade para colocar alimento na mesa. Atividades consideradas essenciais, que são aquelas necessárias para manutenção da vida, não pararam no período pandêmico e, ao contrário disso, reorganizaram a cadeia produtiva. Com este cenário, a indústria de transformação puxou outros tipos de atividades, pois necessitava de matéria-prima.

Pesquisador sênior do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), Samuel Pessoa, ressalta a forte participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto). No segundo trimestre de 2020, a participação da indústria de transformação no valor adicionado do PIB foi de 9,7%. Esse percentual subiu para 10% no primeiro trimestre deste ano. Outra contribuição importante da indústria em Mato Grosso do Sul é que, mesmo com a pandemia, o setor foi responsável por gerar 6.886 vagas de emprego. O saldo diz respeito ao ano de 2020 e representou 49% das ofertas de trabalho no Estado.

Com 30 anos de atividades, a indústria de laticínios Imbaúba, que tem sede em Bandeirantes, a 72 km da Capital, possui 72 colaboradores e também viveu momentos de apreensão quando as atividades começaram a sofrer restrições. A direção da indústria havia acabado de concluir uma reforma de ampliação da fábrica, em março de 2020, mesmo mês em que foi anunciada a pandemia. “Ficamos bem assustados pois tínhamos acabado de investir. Em contrapartida, a fábrica estava pronta para atender um novo ciclo de produção”, lembra a diretora da Imbaúba, Silvana Gasparini.

O jeito foi buscar ajuda para pensar um plano de biossegurança. O socorro que Silvana precisava veio da Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul) e na contratação da Fundação Dom Cabral, especializada em serviços de análise de dados, para que a saúde dos funcionários fosse prioridade. Era preciso manter a mesma equipe. Além disso, um caso positivo de COVID-19 poderia colocar em xeque a linha de produção e, principalmente, a vida dos colaboradores. Silvana lembra que, com a corrida do setor produtivo para garantir biossegurança, chegou a faltar máscaras e álcool gel no mercado. Foi quando recebeu apoio da Fiems para cumprir as exigências e não parar a indústria, mas o receio ainda existia.

Porém, como alguns setores tiveram de repensar o modo de atendimento, como foi o caso de entrega de comida, o delivery, e muita gente que perdeu emprego começou a empreender no ramo gastronômico. Com isso, os produtos de Silvana ganharam asas e voaram mais alto que antes. A corrida dos consumidores aos supermercados proporcionou um boom nas vendas com aumento de 40%, principalmente de queijos. “Esta insegurança não foi só nossa, mas também do consumidor. Não se sabia até quando se poderia sair de casa e, então, houve aquecimento no mercado que foi, aos poucos, se acomodando”.

Foi no período pandêmico que a indústria conseguiu manter o abastecimento em todos os estados da Região Centro-Oeste e ganhou Brasília. “As oportunidades multiplicam-se à medida que são agarradas”, aconselha com seu case.

Manutenção da vida e planejar o futuro

Além de repensar modos de produção, ofertar mais produtos ou iniciar novos modelos, o setor industrial precisou, de imediato, se adequar para manutenção da vida dos seus colaboradores. Quem não conseguiu se organizar sozinho precisou contratar consultoria e, onde quer que estivesse, adquirir os produtos para uso individual, como máscaras ou, ainda, termômetros para medir temperatura corporal e álcool 70 gel ou líquido.

Gerente do Sesi (Serviço Social da Indústria) de Campo Grande, Ricardo Egídio, destaca que o primeiro impacto trazido pelo coronavírus foi a questão do distanciamento no setor de produção, afim de garantir a saúde dos colaboradores. Era necessário reduzir ao máximo e praticamente parar seu processo produtivo para ver qual seria o cenário global.

Este cenário trouxe o desafio de como continuar produzindo com segurança em relação a algo ainda desconhecido. Diante do cenário de pandemia, a Fiems atuou auxiliando as indústrias na parte de prevenção, desenvolvimento de biossegurança para manter o processo produtivo e as pessoas saudáveis. “A federação teve um papel muito importante na testagem de identificação rápida de novos casos de COVID-19, evitando a disseminação quanto ao adoecimento e agravamento da doença”, esclarece Ricardo Egídio.

O gerente do Sesi acredita que, cada vez mais, as empresas vão adotar a indústria 4.0 e é possível que também incluam a inteligência artificial. Além de ser avanço em tecnologia, também possibilita que alguns trabalhos hoje realizados dentro das indústrias, sejam feitos mais no ambiente familiar do colaborador, ou seja, de forma remota. Isso vai possibilitar, entre outros ganhos, que haja menos pessoas dentro das dependências físicas do setor produtivo. “Há muitas ferramentas que possibilitam reuniões frequentes. Isto acelera muito mais o processo de evidenciação de que os trabalhos remotos têm a mesma eficácia ou talvez até uma eficiência maior”, diz.

Gerente-executivo industrial de inovação e tecnologia, Luiz Roberto Fernandes de Araújo, da Eldorado Brasil, com planta em Três Lagoas, revela que a empresa já nasceu com foco na indústria 4.0. Uma forma de proteger os colaboradores e evitar perdas materiais e de produção é o monitoramento dos espaços confinados. “A Eldorado tem uma rede de sensores de monitoramento de gases, interligada à central dos brigadistas. No caso de qualquer anormalidade, alarmes são disparados automaticamente para agilizar as ações de contingência da equipe de segurança, de modo a garantir a segurança das pessoas e do meio ambiente”, explica.

 

(Texto de Bruno Arce)

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