Garrafas térmicas, café quentinho, sucos de fruta bem gelados, copinhos descartáveis personalizados, e muito carisma. Essa combinação resultou na receita que tem adoçado a vida do mecânico Leandro Oliveira, de 24 anos, o criador do Café do Bigode.
Desde o início de março, quem passa pela Avenida Júlio de Castilho, uma das principais ligações entre a região oeste e o Centro de Campo Grande, das 5h30 às 7h30, encontra o jovem que se destaca pela boa comunicação, caminhando entre os carros para vender café e conquistando clientes com simpatia — e também com uma forma diferente de pagamento: o chamado “Pix da confiança”, em que o cliente pode pagar depois.

Av. Júlio de Castilho tem um fluxo intenso de veículos nas primeiras horas do dia, o que despertou em Leandro a visão de gerar uma renda extra com a venda de cafés – Foto: Juliana Aguiar
A reportagem de O Estado Online acompanhou a rotina de Leandro na manhã de terça-feira (31), data que marca uma mudança importante em sua vida. A partir desta quarta-feira (1º), ele deixará o emprego com carteira assinada em uma oficina, onde trabalha há quatro anos, para se dedicar exclusivamente ao próprio negócio.

Leandro vende em média, 50 copinhos de café, e 30 garrafinhas com sucos, diariamente – Foto: Juliana Aguiar
“O dinheiro está na rua”
Leandro conta que a inspiração surgiu de uma observação simples no dia a dia de trabalho, ao observar o congestionamento que se forma na avenida, diariamente, no início das manhãs.
“Um dia, o pessoal que tem a chave para abrir a loja se atrasou e ficamos esperando até às 8h. Foi quando percebi que, em determinado horário, o trânsito trava entre os semáforos das avenidas Noroeste e Tamandaré. Pensei que seria uma ótima oportunidade para vender algo, e por que não café? Afinal, é algo que todo mundo gosta e começar o dia tomando um cafézinho, faz toda a diferença para o brasileiro”, lembra.
Nasce o Café do Bigode
Com a ideia definida, faltava criar a marca. O nome Café do Bigode surgiu a partir de um apelido que Leandro ganhou em um antigo trabalho. Mas começar não foi simples. O jovem tinha apenas R$ 300, dinheiro que seria usado para pagar uma conta. Mesmo assim, decidiu investir no projeto.
“Eu tinha muito medo e R$ 300. Entendi que, se eu não começasse naquele momento, alguém poderia ter a mesma ideia. Então comprei os utensílios, os ingredientes e comecei”, conta.
No primeiro dia, em 2 de março, ele levou quatro garrafas de café, a R$2,00 o copo, para vender na rua. O resultado não foi o esperado.
“Pensei que venderia tudo, mas vendi só duas garrafas. Mesmo assim, graças a Deus, não pensei em desistir”, lembra.
Do fracasso do primeiro dia ao sucesso em menos de um mês
Há quem acredite que a rotina de um empreendedor se resume em vender produtos ou serviços e ganhar dinheiro. Mas na verdade, ser empreendedor significa viver uma mudança radical na rotina. E com Leandro não foi diferente.

Clientes acabam virando amigos, e mesmo quando não compram, fazem questão de passar e cumprimentar Leandro – Foto: Juliana Aguiar
Para manter o negócio funcionando, Leandro enfrenta uma rotina intensa. Morador do Jardim Aeroporto, ele acorda às 3h30 da madrugada para preparar o café. Às 5h20, já está a caminho do ponto de vendas.
Durante as duas horas em que trabalha na avenida, ele percorre cerca de 5 quilômetros caminhando entre os veículos. Depois disso, segue para a oficina, onde trabalha das 7h30 às 11h e das 13h às 17h30.
No horário do almoço, ele aproveita para levar os utensílios para casa e comprar frutas para preparar sucos naturais. À noite, quando sobra tempo, ainda reserva alguns minutos para cuidar da saúde, correndo ou indo à academia. Uma verdadeira maratona.
A mãe também tem papel importante nessa rotina.
“Como ela acorda mais cedo que eu, sempre me ajuda. Quando vê que estou atrasado, ajuda no preparo”, conta.
Pequenos detalhes que fazem diferença
No início, Leandro servia o café em copos descartáveis simples de 180 ml e criou um QR Code para que os clientes pagassem depois. Em cerca de 15 dias, percebeu que precisava melhorar a experiência do consumidor e trocou os copos por versões mais resistentes e confortáveis. Esses detalhes, segundo ele, ajudam a conquistar e fidelizar os clientes.
Mais que uma xícara de café
Além do café, o cardápio ganhou novos itens recentemente. Há cerca de uma semana, Leandro passou a vender sucos naturais de laranja e abacaxi com hortelã. Cada garrafinha é vendida por R$8,00.
“Comecei fazendo 15 garrafinhas e vendi todas no primeiro dia. Aí aumentei para 20. Ontem me empolguei e fiz 30, e antes mesmo de postar já tinha vendido cinco”, conta.

Vendendo sucos há apenas uma semana, Leandro já precisou aumentar a produção para atender à demanda diária- Foto: Juliana Aguiar
Empreendedor de primeira viagem, Leandro diz que conta com a ajuda de amigos, familiares e dos clientes, que também já se tornaram amigos, que o ajudam a divulgar o trabalho nas redes sociais e dão conselhos para que ele siga por um caminho seguro.
“É a primeira vez que empreendo e o resultado está muito positivo. Tomou uma proporção que eu não imaginava. Nas duas primeiras semanas, por exemplo, eu ainda não tinha avisado nem para os amigos que eu tinha começado a vender. Criei uma conta em uma rede social no início de março e o primeiro vídeo que postei, de cara atingiu 20 mil visualizações. A partir daí, o crescimento foi constante e, em duas semanas, já consegui três mil seguidores.”
Inicialmente, para Leandro, a venda dos cafés seria uma renda extra, mas em menos de um mês, já virou renda principal e por esse motivo, o mecânico optou por sair da empresa onde trabalha há quatro anos e que, segundo ele, é uma das que melhor pagam no ramo, em Campo Grande, para investir no próprio negócio.
“Costumo dizer que aqui em Campo Grande, que eu saiba, sou o 01,nessa questão do Pix da confiança.
Formas de pagamento: dinheiro, Pix e confiança!
Outro diferencial do negócio – se não o principal – é a forma de pagamento. Além de dinheiro e Pix tradicional, Leandro permite que clientes levem o café e paguem depois.
“De imediato tive essa ideia, porque a gente precisa confiar nas pessoas. Quando você confia, a pessoa percebe que você está dando crédito para ela e com certeza vai pagar”, explica.
Segundo ele, o caixa sempre fecha com saldo positivo.
“Tem gente que esquece de pagar e, no dia seguinte, volta, paga o café de ontem, o de hoje e ainda deixa gorjeta. Confiar é a alma do negócio.”

Durante o tempo em que realiza as vendas, Leandro caninha em média 5 quilômetros entre os veículos – Foto: Juliana Aguiar
“Daqui para frente, é só para melhor”
Orgulhoso pelo sucesso alcançado em pouco tempo, e caprichoso com o ofício, Leandro fala dos planos para expandir seu empreendimento e da felicidade em poder contar com o apoio dos amigos.
O que começou como renda extra rapidamente virou o principal sustento. Em menos de um mês, o projeto ganhou visibilidade nas redes sociais. Amigos, familiares e clientes ajudam na divulgação e dão conselhos para o crescimento do negócio.
“Criei uma conta no início de março e o primeiro vídeo já teve 20 mil visualizações. Em duas semanas eu já tinha 3 mil seguidores. É a primeira vez que empreendo e o resultado está muito positivo. Tomou uma proporção que eu não imaginava”, conta.
O cliente sempre tem razão
Conforme as horas vão passando, o movimento na Júlio de Castilho aumenta e a calmaria dos primeiros minutos de trabalho, terminam. Leandro caminha sem parar para conseguir atender os clientes que buzinam, dando sinal que esperam pelo café ou suco. “Tem momentos que só consigo parar para beber água, quando termino as vendas”, conta Leandro com sorriso no rosto enquanto serve os clientes.
Quando o relógio marcava 7h18, jovem empreendedor serviu o último copinho de café, esvaziando a última das quatro garrafas que levou para o canteiro da Júlio de Castilho. Mais um dia com 100% da produção vendida e muita gratidão.

“Fico muito feliz em ver que a ideia dele deu certo e que as vendas estão dando certo. Ele merece o sucesso”, diz Marcos, amigo de Leandro – Foto: Juliana Aguiar
Marcos é amigo de Leandro e hoje, passou pelo local para prestigiar o amigo. Ele fala da satisfação em ver o amigo tendo sucesso no empreendimento.
“Acho que foi uma boa ideia ele começar a vender café aqui, porque o fluxo é bom. Sem contar que a pessoa tem a oportunidade de tomar um cafezinho de qualidade, enquanto está parada no trânsito”, afirma.

Os clientes têm ajudado Leandro na divulgação do Café do Bigode, com posts nas redes sociais – Foto: Priscila Oliveira/reprodução/redes sociais
A Júlio de Castilho faz parte do trajeto diário da fisioterapeuta Priscila Oliveira, e se tornar cliente Leandro, foi inevitável. “Passo por aqui todos os dias e sempre que consigo parar perto do semáforo, pego um cafezinho com ele. É bom
Assim como Marcos e Priscila, Marcos e Bruno também são clientes de Leandro e parabenizam Leandro pela ideia e atitude de inovar o comércio da região, com o serviço que oferecem.
Tijolinho por tijolinho
Com o crescimento do Café do Bigode, Leandro já faz planos para melhorar a estrutura do negócio. Um dos próximos passos é lançar um uniforme próprio.
“O objetivo é melhorar a cada dia. O uniforme, por exemplo, já está quase pronto, graças a ajuda de um casal de amigos, que um dia entraram em contato comigo dizendo que tinha uma surpresa, que decidiram me dar o uniforme de presente para incentivar o meu trabalho”, conta, emocionado.
Entre os objetivos futuros está também a abertura de uma loja física na região. Meta que Leandro luta para alcançar com planejamento, responsabilidade e muito otimismo.
“É um plano a longo prazo. Vou construindo tijolinho por tijolinho. Não penso mais em ‘pode dar certo’. Como meus amigos dizem, já deu certo.”
Para estruturar melhor o negócio, ele pretende buscar orientação do Sebrae/MS. “A partir de agora, terei mais tempo livre para me dedicar a isso e ver como funciona, para deixar o negócio bem estruturado”.
MS soma mais de 355 mil empreendedores formalizados
Mato Grosso do Sul possui atualmente 355.199 empreendedores formalizados, considerando MPE (Micro e Pequenas Empresas) e MEI (Microempreendedores Individuais), conforme dados da Receita Federal consultados em 31 de março de 2026. Entre as MPEs, são 176.040 sócios, sendo 70.601 empresárias (40,1%). Já entre os MEIs, há 179.967 empreendedores, dos quais 80.715 são mulheres (44,8%).
Em 2026, já foram abertas 21.721 micro e pequenas empresas no Estado. Apesar do número positivo, o ritmo de abertura tende a diminuir ao longo dos meses, após um início mais intenso em janeiro.
Apoio ao empreendedor
De acordo com o diretor-superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/MS), Claudio Mendonça, a orientação especializada é essencial para quem deseja empreender.

Foto: Divulgação/Sebrae
“A orientação antes de iniciar um negócio é fundamental para transformar um sonho em um projeto viável. Empreender sem planejamento pode trazer riscos que poderiam ser evitados com o apoio certo”, explica.
Segundo ele, o Sebrae oferece capacitações, cursos e consultorias que ajudam desde a concepção da ideia até a consolidação da empresa.
Ainda de acordo com dados da Receita Federal, os setores que concentram o maior número de pequenos negócios em Mato Grosso do Sul são comércio varejista de vestuário e acessórios (18.721 empresas), cabeleireiros, manicure e pedicure (13.801), obras de alvenaria (11.981), promoção de vendas (11.531) e transporte rodoviário de carga (8.592). Mesmo com a redução gradual nas aberturas mensais, o estado ainda apresenta potencial para expansão de empresas, impulsionado pelo crescimento econômico recente e pela agilidade no processo de formalização.
Café: paixão nacional

Foto: reprodução/redes sociais
O sucesso do Café do Bigode também se explica pelo hábito do brasileiro de consumir a bebida. Originário da Etiópia, o café chegou ao Brasil em 1727 e se tornou um dos produtos mais importantes da economia nacional.
Hoje, o país é um dos maiores consumidores do mundo. Segundo dados da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), o consumo médio no Brasil é de cerca de 6,2 quilos de café por pessoa por ano, o que equivale a aproximadamente 1.400 xícaras anuais, ou três a quatro por dia.
Para Leandro, a experiência prova que oportunidades podem surgir nas situações mais simples.
“Embora a gente ouça que a economia não está boa, vale muito a pena empreender. O dinheiro está na rua. Especialmente com algo prático, como café, que é rápido e conveniente para os clientes”, afirma.
E deixa um conselho para quem também sonha em abrir o próprio negócio.
“Se você tem uma ideia, comece. Às vezes o que falta é só dar o primeiro passo.”
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